Campo Grande-MS 18.08.2017
Paraíso perdido, de Frei Betto
Sabado, 29.08.2015 às 13:00
Paraíso perdido, de Frei Betto
Livro relata as experiências socialistas que pipocaram no planeta
Marisa Lajolo
Para o Portal Top Vitrine
Divulgação
79 textos organizados em sequência cronológica
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Frei Betto

No século XVII, o escritor inglês, de 59 anos, John Milton (1608-1674), publicou um poema chamado Paradise lost (Paraíso perdido). Na época, a Inglaterra andava às turras com a Holanda, e Londres se rescaldava do incêndio terrível que por lá lavrara um pouco antes.

 

Neste ano de 2015, também de muitos incêndios, Frei Betto, escritor brasileiro de 70 anos, relançou, reescrita, obra com o mesmo título do livro inglês. Paraíso Perdido – viagens ao mundo socialista, originalmente publicado em 1993 (Geração Editorial), com capa bem menos sóbria do que a atual (Rocco).

 

Por que um mesmo título, com quase quatro séculos de distância entre um e outro? Um acima e outro abaixo do Equador?

 

Meus botões - bons leitores - ficaram curiosos. Não acreditam em coincidências, sobretudo quando se trata de escritores da estatura de Frei Betto.

 

Retornei ao poeta inglês e formulei uma hipótese que meus botões aprovaram: vários são os paraísos, cada tempo (ou cada um?) tem o seu. Oooops... Talvez um plural fique melhor: cada tempo / cada um tem oS seuS. Será? Pode ser.

 

O paraíso de que fala John Milton é o bíblico, aquele de Adão e Eva, da serpente etc. O de Frei Betto é o de experiências socialistas, que pipocaram no planeta, primeiro na Rússia e, depois, por outros lugares, inclusive em "nuestra America".

 

Quem sabe pode ser assim? Meus botões acham que pode. E voltaram ao livro de Frei Betto, que não podia ser mais oportuno.

 

Livrão grosso, mais de 500 páginas, 79 textos que podem ser lidos na sequência (cronológica) em que o livro os organiza, ou na sequência que o leitor quiser estabelecer. Ponto para o autor, que acredita que leitores têm todos os direitos!

 

Um último texto – o de número 80 - tem por título Epílogo, e é uma espécie de conclusão: amarrando o que vinha sendo dito nos capítulos anteriores, propõe uma interpretação para a falência constatada: por que o paraíso socialista teria sido perdido?

 

Os capítulos que constituem o miolo do livro relatam muitas viagens que Frei Betto empreendeu a países socialistas, levando a proposta de uma articulação entre experiências do socialismo e cristianismo.

 

Ora sozinho, ora em equipe, conversando às vezes com autoridades e, outras, com gente da rua. Olhos e caderninho do viajante estão sempre bem abertos e atentos.

 

Na transformação das anotações de viagem em livro, mais uma manifestação de respeito aos leitores, para os quais vale a pena recordar passagens da história que podem iluminar a história.

 

No caso, história às vezes com maiúscula e, outras, com minúscula. História e histórias. Da construção e derrubada do Muro de Berlim ao cotidiano de um motorista de Havana.

 

Pela mão de Frei Betto, o leitor viaja pela longa e sofrida história dos povos que viveram experiências e derrocadas socialistas, e pelos bastidores de acordos políticos e gestos diplomáticos.

 

Beleza de livro!

 

Paraíso Perdido é uma leitura fundamental. Fundamental, sobretudo, para nós, cidadãos brasileiros adultos, desta segunda década do século XXI.

 

Para alguns de nós, as experiências do socialismo - vividas, lidas, ouvidas ou estudadas - representaram uma primeira perspectiva concreta de um mundo mais humano.

 

O livro de Frei Betto nos lembra que tal perspectiva - pela qual, aliás morreram tantos homens e mulheres - constituía uma "primeira" experiência histórica. Que, se quase nunca deu certo - e parece mesmo não ter dado - pode deixar (e efetivamente deixa) lições sugestivas para outras e novas experiências que, com certeza, virão. Pois não vivemos um tempo que assiste ao retorno do povo à rua, pedindo correção de rumos, fazendo reivindicações de largo espectro?

 

No capítulo final, o autor se vale do que viu e aprendeu nas viagens relatadas para alinhavar uma reflexão extremamente interessante. Assinala dois traços comuns das várias experiências socialistas fracassadas: o monopólio de um partido na esfera política e o monopólio do Estado na esfera econômica.

 

Meus botões aplaudiram, e acharam a análise irresistível, seduzidos pelo diagnóstico que, a partir delas, o livro formula. Aprenderam, na leitura deste Paraíso perdido - contemporâneo e brasileiro - que há, sim, medidas políticas e econômicas a serem tomadas para humanizar a vida em nosso planeta. Aprenderam também que tais medidas são essenciais.

 

Elas formatam o externo, o objetivo, o quantitativo. Mas aprenderam também que elas talvez não bastem. Aprenderam que, talvez, aquele mundo melhor em nome do qual se fazem revoluções nas quais se morre, também se teça de sentimentos, valores, sonhos e esperanças. Que com muita facilidade escoam pelo ralo se não se acreditar na lição do poema que canta que "a gente quer comida/diversão e arte./A gente não quer só comida,/a gente quer saída/para qualquer parte..."

 

Meus inquietos botões – no compasso da banda do Titãs - me puxam pela manga para recordar que o Paradise lost, do poeta inglês, foi seguido, alguns anos depois, por outro livro, intitulado Paradise regained (Paraíso reconquistado). Apaziguados na luta, meus botões ficam na expectativa...

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