Campo Grande-MS 29.05.2017
Hoteleiros sofrem do complexo de vira-latas
Sexta-Feira, 22.04.2016 às 09:00
Hoteleiros sofrem do complexo de vira-latas
A hotelaria brasileira não aguenta mais ser invisível aos olhos públicos
Julio Gavinho
Para o Portal Top Vitrine
Divulgação
Julio Gavinho

Minha mãe sempre me alertou sobre pessoas que não cumprimentam o porteiro, o caixa do supermercado, o faxineiro do banheiro público ou o ascensorista. Na sua sabia experiência, estas pessoas não seriam "pessoas boas", pois ignoravam aqueles que lhe mantinham a vida em ordem. Se uma pessoa é incapaz de cumprimentar o porteiro, coisa pior decerto faria.

 

O padrão da rígida educação que ela me passou, não permitia que eu considerasse estes profissionais como homens invisíveis. O trabalho, independente do que seja, “merece respeito e reconhecimento”, dizia ela.

 

O setor de hotelaria e turismo no Brasil é invisível para o governo e para uma boa parcela da sociedade. Por certo você já viu representantes da indústria automobilística, de bens duráveis e de comunicações entre outras, a opinar sobre seu próprio reflexo assim como, a defender seu quinhão como saída para a economia nacional.

 

Advogam que a redução da alíquota do IPI, desoneração da folha e distribuição gratuita de mariolas vão ajudar a retomada do crescimento do Brasil e por conseqüência gerar empregos, impulsionando a economia.

 

Ok, justo o suficiente: farinha pouca, meu pirão primeiro. Mas minha dúvida permanece: onde estão os representantes da hotelaria? Somos mais de R$ 50.000.000.000 (cinqüenta bilhões, uma pedaladinha fiscal!) de investimentos diretos em tijolos e concreto e mais de 300.000 empregos diretos e indiretos, de serventes de obra a engenheiros, de recepcionistas a gerentes gerais. Todos zelando por seu revigorante sono e aquele café da manhã de hotel que amamos. Mesmo assim, a nação e o Estado passam por nós e não nos dão bom dia, ou perguntam como temos passado.

 

Decerto que nós hoteleiros ainda sofremos do complexo Rodrigueano de vira-latas, que nos faz desmerecer automaticamente tudo que é nosso e nacional. Esta patologia perniciosa precisa ser tratada com drogas pesadas, como contratos temporários de trabalho, acesso facilitado ao crédito e volta da desoneração da folha de pagamento.

 

Precisamos fortalecer nosso entendimento pessoal de que somos, todos nós hoteleiros, um setor fundamental para o desenvolvimento do país. Entretanto não conseguimos nem melhorar a oferta instalada, pois estamos estrangulados por custos e falta de crédito, nem desenvolver novos hotéis, pois nosso cobertor está curto na bainha de crédito e custos de construção – pressionados pela inflação. Se correr o bicho te quebra, se ficar o bicho te consome.

 

O nosso complexo Rodrigueano atinge nossos colegas gringos de forma mais pragmática ainda. No cenário atual, levando em conta risco de câmbio e o famigerado risco Brasil, os retornos são insuficientes para o mínimo conforto de investimento e daí, eles desistem antes mesmo de começar a pensar em “Brazil”.

 

Considere as grandes cadeias como os "Hyatt" ou os "Marriott". São contados aos milhares de hotéis mundo a fora e em apenas uma mão no Brasil. O buraco do desenvolvimento é mais embaixo, eu sei. Mas experimente oferecer o mesmo modelo de encargos, tributação e crédito que eles têm em casa, e veja o boom de novos hotéis internacionais acontecerem, primeiro nas capitais e depois nas cidades secundárias.

 

O grande buraco de desenvolvimento entre nós e eles, é que eles constroem e reformam hotéis em progressão aritmética, com “fura-fila” no processo de aprovação, com crédito privado incentivado e acordos coletivos negociados que regulam as relações trabalho-capital. Tudo claro e feito para durar.

 

E nós? E a durabilidade de nossas regras e acordos coletivos de trabalho? E a tributação sobre a compra, custo de aprovação e de construção? E custos de bens duráveis e sua entrega pelo Brasilzão? Não, eu não sofro do complexo de vira-latas. Eu já abri e desenvolvi muitos hotéis ao redor no nosso amado país e, como O Piloto do “Pequeno Príncipe” (o próprio Saint Exupéry), troquei a inocência pelo pragmatismo, embora ainda tente ser um idiota romântico.

 

Back to the cold cow, o Jornal Nacional de 26 de março, celebrou 70.000 novos postos em manutenção, camareiras e auxiliares de serviços gerais. A matéria falava apenas de hotéis, com cozinheiro de hotel, garçom de hotel e camareira de hotel, embora fosse sobre o assunto mais amplo.

 

Isto é reflexo do crescimento da oferta hoteleira que este ano vai ultrapassar os 10.000 hotéis, e os cerca de 500.000 quartos. Sensível crescimento, mas ainda pífio em face da necessidade que temos. Basta viajar a cidades como Três Lagoas ou Palmas, dínamos da economia nacional. Se você olhar mais de perto para certos segmentos do setor, como luxo e lifestyle, você chegará à conclusão de que ainda temos espaço para projetos no Rio, São Paulo e Brasília.

 

Para concluir então, pergunto: Por que então que esta roda de desenvolvimento não gira? A base de custo do nosso setor nos asfixia. A hotelaria brasileira não agüenta mais ser invisível aos olhos públicos, sendo preterida aonde outros setores são beneficiados.

 

Praticamos uma atividade sazonal e devemos ter direito a contratar profissionais de forma sazonal, crescendo junto com temporada e recolhendo os flaps fora dela. A hotelaria brasileira não agüenta mais ser invisível aos olhos públicos, sendo preterida no cálculo do metro cúbico de água e esgoto ou nas bandeiras do cálculo do KW/h. Precisamos sim de premiação por captação própria de água ou geração de energia.

 

Carecemos de incentivo tal qual recebem todas as outras atividades melhor representadas perante o governo. O segundo item é o acesso amplo ao crédito nas mesmas condições que recebem obras de infra-estrutura e grandes produtores rurais. Nossos processos de financiamento precisam de celeridade e de regras específicas de enquadramento e garantias.

 

A hotelaria brasileira não agüenta mais esperar um ou dois anos por uma resposta de crédito, seja positiva ou negativa. Quando recorremos aos bancos privados, como Itaú, Bradesco ou Santander, são 90 intermináveis dias. Há a questão do custo efetivo deles, eu sei. Porém nenhum dos três grandes players está comprometido em estatuto com o Desenvolvimento Econômico e Social do Brasil. Seu compromisso é com o lucro e, sem dúvida, é isso que os faz grande.

 

Eu milito neste setohá a 29 anos (30 em agosto deste ano) e já carreguei mala, já cozinhei, já montei café da manhã, já fui auditor noturno, gerente, diretor de vendas, de marketing, de desenvolvimento, de aquisições, e presidente de empresa.

 

O tempo passa agora mais rápido para mim, e eu gostaria nesta vida de ver um setor forte, com políticas públicas pensadas por nós e para nós, com crédito responsável porém disponível de forma isonômica, para que este setor possa então, contribuir para a devolução do Brasil ao seu lugar de direito na arena mundial.

 

O lugar de destaque entre as maiores economias, onde é impossível passar por homem invisível.

 

*Julio Gavinho é executivo da área de hotelaria com 30 anos de experiência, fundador da doispontozero Hotéis e criador da marca Zii Hotel.

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