Campo Grande-MS 20.08.2017

Raquel Naveira

Escritora, Doutora em Língua e Literatura Francesas

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QUI, 17.03.2016

Serra de Maracaju

Meu eixo de mundo, meu castelo interior, o monte Sinai do meu ser

Raquel Naveira

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Quando o avião pousa no solo de minha cidade, Campo Grande, sinto uma emoção, um ar diferente, misto de éter e força. É como se houvesse mais segurança, uma verdade profunda, um retorno ao princípio. Comentei isso com o mestre Campestrini e ele ponderou: “ -Não é apenas uma sensação. É real. São os fluídos da Serra de Maracaju.”

 

Essa serra, com sua cadeia de montanhas, picos e quebradas, divide o sul de Mato Grosso em dois: a oeste, a capital e a leste, os campos de cerrado e vacaria, o início do Pantanal. São rochas de basalto e arenito, antigos derrames vulcânicos que escoaram pelas bacias dos rios, pelos verões úmidos e chuvosos. Os europeus, em antigas balizas, pensavam tratar-se dos lagos e mares de Xaraés.

 

Este ponto é meu eixo de mundo, meu castelo interior, o monte Sinai do meu ser. Aqui sou guiada pelo Sol e pela Lua. Tenho os jardins de uma rainha, cheio de antúrios e figueiras. Aqui sacrifiquei o meu Isaque: alguns sonhos e cordeiros que se espalharam na bruma.

 

E por que “Maracaju”? Em guarani “maracaju” significa “chocalho amarelo”. O chocalho na ponta da cauda da cascavel. A serpente balança os guizos e anéis de pele, pronta para dar o bote, chiando, os losangos do corpo inflando e desinflando de ira. O barulhinho pavoroso serve de alerta para os que andam pelas trilhas da serra.

 

Almir Sater, numa linda canção, lembra de um velho índio que lhe contou histórias de glórias e tragédias; que viu deuses descendo de estrelas, antes da invasão dos portugueses, dos espanhóis, dos bandeirantes e mineiros. Ele é menestrel que quer descobrir lendas e memórias, tocar e compor seus próprios chamamés, traduzir os mistérios da Serra de Maracaju.

 

Muito antes de Sater, quem cantou as belezas da Serra de Maracaju foi o precursor de nossa literatura: o Visconde de Taunay. Foram as contingências da cruenta Guerra do Paraguai que deram à sensibilidade do escritor a oportunidade de observar a vida, a paisagem e os costumes mato-grossenses. Das anotações desse jovem tenente do imperador D. Pedro II, surgiram duas obras-primas: Inocência, romance peregrino, situado na melhor ficção regionalista de todos os tempos e  Retirada da Laguna, relato pungente sobre a bravura de homens numa batalha desigual contra o inimigo implacável e a natureza hostil. Depois, Otávio Gonçalves Gomes, poeta e historiador, escreveu Mato Grosso do Sul na Obra de Taunay e contou sobre o momento em que Taunay, junto do rio Aquidauana, numa ramificação da Serra de Maracaju, deparou-se com aquela paisagem grandiosa e fantástica: os arcos naturais, as esculturas cinzeladas nos maciços.

 

Viu o sol batendo nos “píncaros e planos desnudados de vegetação, de um colorido vermelho”, cheio de clarões e chispas de fogo. Descreve ainda, nas matas fechadas, os festões de flores pelos declives, pelos aparados da serra, embelezando os caminhos de anta e animais silvestres. O Morro Azul, atalaia do rio Aquidauana, “cesto de gávea avistado de todos os lados”. E também a cortina de árvores possantes, colossos de corpulências. As cascatinhas pelos córregos, deslizando pelos penedos. Quanto deslumbramento.

 

Nosso chão já foi chamado de Estado de Maracaju. Esse foi o nome dado à criação revolucionária dos que primeiro desejaram a divisão de Mato Grosso, a independência e separação de Cuiabá. O Estado de Maracaju existiu de fato, sem autorização da União, de 10 de julho a 2 de outubro de 32, durante a Revolução Constitucionalista. Teve como governador Vespasiano Barbosa Martins. O sul de Mato Grosso apoiou a causa paulista na pessoa do general Klinger. Com o fim da revolução e a vitória de Getúlio Vargas, o Estado de Maracaju foi dissolvido. Estava lançada a semente embrionária do Mato Grosso do Sul, que só nasceu oficialmente no dia 11 de outubro de 77. A loja maçônica que serviu como Palácio Maracaju, sede dos divisionistas, está ali, com suas colunas clássicas fincadas na rua Calógeras, carregadas de História.

 

Percebi, aliviada, que o avião pousou no monte, no topo, onde há conhecimento, revelações e saída para outro cosmos. Ouço a voz do velho mestre: “ - São os fluídos da Serra de Maracaju”.

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SAB, 05.03.2016

Pôr do sol

Quando a gente está triste demais, gosta do pôr do sol

Raquel Naveira

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5 comentário(s)

Nesta marcha para o Oeste, reencontrei o prazer de assistir ao pôr do sol. Fecho as portas, abro as janelas, vou até a varanda e estarreço diante da beleza do pôr do sol (há beleza, mesmo no infortúnio).

 

Lembrei-me do Pequeno Príncipe, personagem de Saint-Éxupery. Era tão melancólica sua vidinha lá no asteroide minúsculo onde morava, que sua única distração era ver a doçura do pôr do sol. Bastava recuar um pouco a cadeira e ele contemplava o crepúsculo todas as vezes que desejava. Um dia, confessou  ao piloto, que vira o sol se pôr quarenta e três vezes. Explicou que quando a gente está triste demais, gosta do pôr do sol. O amigo lhe perguntou se ele estava triste assim naquele dia, mas o principezinho não respondeu.

 

Carrego um sol rubro dentro de mim. Constelações e cacos de estrelas também. Algumas delas piscam as pontas e se confundem com vagalumes. Sou crepuscular, mulher da fronteira. Amo o pôr do sol como o Pequeno Príncipe. Hora da saudade, do desejo de sonhar, da vontade de viver e de morrer. Embora sinta o declínio das minhas capacidades físicas e a chegada sorrateira da velhice, o pôr do sol me faz pensar que tudo ficará melhor quando a noite baixar de vez, toda preta.

 

Deus é o artista que pinta o céu sempre de forma diferente. Borrões, pinceladas grandes que brilham enchendo a tela de cintilações. Hoje há um pouco de amarelo, de lilás e de magenta. Cada um desses tons poderiam ser captados pelas lentes de um fotógrafo do cerrado ou por Monet, o criador do impressionismo, das ninfeias, dos jardins com pontes sobre lagos, dos pingos de sol refletidos na água e no horizonte. Fico treinando o olhar, enquanto os raios penetram meu corpo com suas hastes de crisântemos.

 

Escrevi certa vez um poema que começava assim: “Em Madri/ Ninguém sabe como é o pôr do sol daqui”. E brotaram comparações com a imaginária Espanha: como um touro na arena esvaindo em sangue; como as mãos do toureiro apanhando uma rosa  atirada na areia pela amada; como o rebelde executado de braços abertos, vidrado de terror, naquele célebre quadro de Goya, “Os fuzilamentos do dia 3 de maio de 1808”; como o leque de uma dançarina de flamenco; como a angústia dos sobreviventes depois da guerra civil, do assassinato do poeta Federico Garcia Lorca numa vala de montanha e do martírio de Guernica. Aqui, o pôr do sol tem garças róseas que pousam em porteiras; pelegos espalhados pelos pastos alaranjados do céu. Aqui o pôr do sol pode ser chamado de “crepúsculo”, de “quiriri”, de “lusco-fusco”. Exige que, mesmo que se acendam ao longe as lâmpadas da cidade e os olhos dos jacarés nos pantanais, peguemos nos armários antigos da memória, tocos de velas que se consumirão em chamas vermelhas e azuis.

 

A viagem para o Oeste foi uma volta para casa, para o meu planeta. Cada pôr do sol é um instante suspenso. Além da noite, eu sei, há novas auroras. Como o Pequeno Príncipe, coloco minha cadeira na varanda e me encharco de pôr do sol.

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Paulo Renato Coelho Netto

Pôr do sol em Campo Grande (MS). Sempre um espetáculo

TER, 23.02.2016

Sete

Sete estrelas, sete selos, sete trombetas, sete calamidades

Raquel Naveira

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Sete é um número mágico. Costumo colocá-lo em várias situações de minha vida: o andar do prédio onde moro, as senhas secretas, a ordem e disposição dos livros nas prateleiras. Conto os dias da semana, observando os planetas e as esferas. Desfolho sete pétalas de rosas vermelhas antes do pôr-do-sol. Chamo sete anjos para que me visitem de manhã, em forma de sete raios e renovem em mim a fé, a esperança, o amor, a prudência, a temperança, a justiça e a força. Aguardo o cumprimento da profecia apocalíptica do final dos tempos com uma revelação que virá em forma de sete estrelas, sete selos, sete trombetas, sete calamidades. Que momento de plenitude dramática será o Juízo para os que amam teatro como eu.

 

Foi assim, andando por sete vales, buscando conhecimento e porções do maravilhoso, que recebi o livro de poemas Sete, da editora Sete Letras, do poeta alagoano radicado na Bahia, José Inácio Vieira de Mello. Aprecio essa proposta de uma certa unidade através da escolha de uma temática central, no caso, o número sete. Sete capítulos, entre eles: “A virgem universal do reino do sétimo filho”, “Sete mitos”, “Sete perguntas para voar”. Há um verso que menciona Seth, o terceiro filho de Adão e Eva: “Eu sou Seth, terceiro filho de Adão/ E sete é dia de andar pela planície e respirar mundos,/ de calcular a energia das pirâmides.” Num dos versos, faz referência a Set, que foi um deus egípcio, semelhante ao Baal palestino, porco preto devorando a lua, força do Mal. Essa é a outra face do número sete, pois Satanás, besta de sete cabeças, se esforça em imitar Deus. Para o poeta de voz nordestina, de guerreiro viril, Jesus é o que “anda pelos pastos recebendo as sete cores do Sol, comunicando sacramentos e abençoando os bichos que pecam.” Há “sete cavalos tocando sete pianos alazões”; uma “santa virgem, mãe de sete gerações”. Vê a morte arremessando sete facas, sete alarmantes torres de Bael, sete senhores do mundo, sete palmos, sete chagas no corpo, sete espelhos, sete vidas, sete salmos, sete mares, enquanto enfrenta “grandes exércitos de centauros e narcisos.”

 

Quando pequena, ganhei de meu avô português uma boneca típica da região de Nazaré. Eu gostava de contar suas sete saias: uma branca, uma de renda, uma azul de chita, uma de seda, uma de flanela, outra de barra preta. Sobre todas elas, um avental branco e engomado. Imaginava então uma mulher sentada à beira da praia, olhando o mar, esperando inutilmente o seu companheiro voltar. Ela quase desmaiava de frio, contando e subindo cada uma de suas sete saias. Essa mulher ancestral vive até hoje dentro de mim. Cubro meu rosto banhado de lágrimas com o lenço de cambraia.

 

O que dá mesmo trabalho, a mim, pobre mulher sentada na praia, é perdoar setenta vezes sete. São tantas as ofensas, decepções, afrontas, que já perdi as contas desse número sem limite. No horizonte da espera, barcos de velas negras.

 

Quanto mistério. Seguro firme o meu castiçal de sete velas. Aparo os pavios, encharco-os de óleo, lustro os desenhos de folhas de amendoeira em metal dourado. E vou escrevendo, trabalhando textos com paciência, limando palavras, sofrendo crueldades que não posso registrar nessas páginas. Já me arrependi de tudo, por mim e por todos. Felizmente, conserva-se acesa a luz desse castiçal de sete velas sobre minha mesa. Que nunca seja retirado deste lugar. Preciso de luz.

 

Vou agora escrever uma carta a José Inácio: “ - Caro poeta, seu livro me fez mergulhar no poder oculto do número sete.”

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Reprodução/Internet

Raquel: Aguardo o cumprimento da profecia apocalíptica

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Raquel Naveira

Raquel Naveira nasceu em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. É formada em Direito e Letras pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB/MS), onde exerceu o magistério superior, desde 1987 até 2006, quando se aposentou. Doutora em Língua e Literatura Francesas pela Universidade de Nancy, França. Mestre em Comunicação e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP). Apresentadora do programa literário “Prosa e Verso” pela TV UCDB (2000-2006) e do “Flores e Livros” pela UP TV e pela ORKUT TV. Pertence à Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, à Academia Cristã de Letras de São Paulo e ao Pen Clube do Brasil. Diretora da União Brasileira de Escritores/Seção SP. É palestrante, dá cursos de Pós-Graduação e oficinas literárias. Escreveu vários livros, entre eles: Abadia (poemas, editora Imago,1996) e Casa de Tecla (poemas, editora Escrituras, 1999), finalistas do Prêmio Jabuti de Poesia, da CBL. Os mais recentes são o livro de ensaios Literatura e Drogas - e Outros Ensaios (Nova Razão Cultural, 2007), o de crônicas Caminhos de Bicicleta (Miró, 2010) e o de poemas Sangue Português: raízes, formação e lusofonia (Arte&Ciência, 2012). É colaboradora do Portal Top Vitrine desde abril de 2014.

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