Campo Grande-MS 28.06.2017

Raquel Naveira

Escritora, Doutora em Língua e Literatura Francesas

compartilhe:

QUI, 21.04.2016

Hotel

O Hotel Glória e o Copacabana Palace brilham até hoje

Raquel Naveira

Para o Portal Top Vitrine

4 comentário(s)

Voltamos a exercer nossa antiga atividade: administrar um hotel. O termo hostellum começou a ser utilizado para designar palacetes onde os reis e suas comitivas se hospedavam na época do Império Romano. As estradas pavimentadas da época e a relativa paz resultaram numa sociedade em que as pessoas viajavam bastante. Havia dois tipos de hospedarias: a estalagem, casas para os nobres e oficiais e o estábulo, grande cobertura para proteger os plebeus, o gado, os animais de montaria e de carga contra os rigores do inverno e os perigos da noite.

 

Maria, grávida, e seu esposo, José, estavam nessa condição. Numa estrada romana, montados num jumento, buscando uma estalagem. Todas as portas se fecharam e ela deu à luz num estábulo forrado de feno, de estrume, de palha, perto de Belém. Ali havia uma manjedoura, um tabuleiro onde se colocava sal, forragem moída. Os cavalos, vacas e muares enfiavam os focinhos, resfolegavam, baixavam as pálpebras de seus olhos doces. Foi num lugar humilde assim que nasceu Jesus, o homem que era Deus. Imagino as figuras: Maria, tão mãe, tão santa, tão judia, envolvendo o filho em  faixas de pano; José, tão resignado, fixando a face daquele menino que viera do céu; os pastores maravilhados diante do prodígio de uma criança que seria o Cristo. E tons de flauta, barulho de juncos se vergando ao vento e à harmonia das estrelas.

 

Inúmeras são as passagens bíblicas que se referem à hospitalidade como uma forma prática de serviço ao próximo, de demonstração a outros da generosidade, como um dom que melhora e se aperfeiçoa quanto mais o exercemos com afabilidade e cortesia. Jesus se hospedou durante suas viagens de pregação nas casas de Marta, Maria e Lázaro, em Betânia, e na de Zaqueu, o rico publicano. Paulo e seus discípulos ficaram em casa da romana Lídia e, em Corinto, com Áquila e Priscila, que provaram com isso que há mais felicidade em dar do que em receber. Em compartilhar o que temos com as pessoas em suas necessidades. Era comum então lavar os pés do hóspede, recostá-lo debaixo de uma árvore, fazer uma fogueira quando estava frio, trazer um bocado de pão até que o peregrino refizesse as suas forças.

 

Além das estalagens e dos estábulos, espalhavam-se pelos caminhos as tavernas, lugares sujos, com proprietários indignos de confiança, clientes de má reputação e baixa moral. Esse ambiente tétrico me remete ao livro "Noite na Taverna", do nosso poeta ultrarromântico Álvares de Azevedo. Uma coletânea de narrativas mergulhadas num clima mórbido de roda de bebedeira, devassidão, companheiros vampirescos dialogando sobre loucuras com mulheres ébrias, misturando divagações filosóficas com lascívia sôfrega. Contos góticos de homens que se apaixonam por virgens misteriosas que levam à morte. Quanto cansaço precoce da vida. Quanta descrença, cinismo e deboche. Sim, eram sombrias as tavernas para os cavaleiros que se aventuravam na obscuridade dos tempos.

 

O comércio forçava à busca por hospedagem. Em 1870, o parisiense Cézar Ritz investiu na hotelaria como a conhecemos hoje: bons quartos com banheiro privativo, gerentes e recepcionistas. No Brasil, por iniciativa dos portugueses, o Mosteiro de São Bento recebeu visitantes ilustres no período colonial. O Hotel Glória e o Copacabana Palace brilham até hoje como ícones de glamour. O fervilhante centro de São Paulo do começo do século XX tornou-se marco histórico do desenvolvimento desse segmento. E depois da Revolução Industrial e da Segunda Guerra Mundial, a hotelaria sofreu transformação radical com os aviões e os fluxos de viagens internacionais incentivando o turismo sem fronteiras.

 

E por falar em hotéis urbanos, registramos o genial romance "Hotel Atlântico", a obra mais celebrada do autor gaúcho João Gilberto Noll, um mágico da linguagem. Em um hotel de Copacabana, um homem se depara com um cadáver sendo levado para o IML, carregado pelas escadas. Esse acontecimento dá início a um percurso inesperado, onde o narrador sem nome se encontra repetidas vezes com a morte e com personagens esquisitas e inusitadas. Ele é um viajante em busca de algo que nunca fica claro o que é. É um questionamento profundo, uma rota de fugas e incertezas, a saga de alguém sem passado e sem futuro, sendo obrigado a tomar decisões a cada nova situação de um presente angustiante. Um salto no abismo até a última página.

 

Exercendo nossa antiga atividade de hoteleiros, queremos nos colocar no lugar de nossos hóspedes. Cada um que aqui chega carrega na alma e na bagagem um vazio, uma ansiedade, uma missão: a falta dos familiares, a busca do sustento, a resolução dos problemas, a expectativa de evolução, a instabilidade, o desejo de conhecimento e aventura, as maquinações secretas do espírito. De portas abertas, pedimos proteção divina para este estabelecimento. Que espadas desembainhadas expulsem as intenções sórdidas dos malfeitores.

 

O corredor até a recepção é estreito e cheio de folhagens. Ouço passos se aproximando e um vulto branco na luz. Sem saber, já acolhemos anjos.

O Portal Top Vitrine não se responsabiliza por artigos assinados ou de origem definida.

Reprodução

Fachada do Copacabana Palace, no Rio de Janeiro

SAB, 09.04.2016

Mãe eterna

Um relato perpassado de espanto, ternura e realidade

Raquel Naveira

Para o Portal Top Vitrine

6 comentário(s)

Surpreendo-me com o novo livro da escritora e psicanalista paulista, Betty Milan, intitulado Mãe Eterna. Nele, a filha-narradora escreve sobre seu drama com a mãe de 98 anos, quase cega, quase surda, que se locomove mal e se alimenta como um passarinho. Escreve para processar e suportar a perda da mãe antes mesmo de sua morte. Rememora o passado de uma mulher combativa, que, viúva precocemente, assumiu com mãos de ferro as rédeas da família. Uma mulher cheia de personalidade, humor e independência, presa agora às contingências de uma penosa velhice. Refletindo sobre a condição da mãe, a filha se questiona sobre a conduta do médico que procura vencer a morte a todo custo e como humanizar o fim da vida. É um relato perpassado de espanto, ternura e realidade. Admiro como Betty é capaz de desnudar sua alma com tanta coragem, como se tivesse uma faca para penetrar entre os ossos e a medula.

 

Conheci Dona Rosa no lançamento do documentário “Dona Rosa”, dirigido por seu neto, o cineasta Mathias Mangin, filho de Betty, e por Lucas Mandacaru, que traça o perfil dessa mulher esperta e prática, que viu na manutenção dos bens fincados na selva da cidade, um objetivo de sobrevivência. Observei seu olhar arguto, quase irônico, de quem guarda a sete chaves o segredo de uma longevidade incompreensível até mesmo para ela. Personagem incrível essa matriarca-rainha.

 

Mãe é mesmo um papel sagrado. Em francês, as palavras mer (mar) e mère (mãe) são muito parecidas. Mãe é mar, matriz, líquido amniótico em ondas no útero. Mãe é porta para o nascer, para o sair do ventre em busca de luz e para o morrer, o retornar à terra. Mãe é abrigo, segurança, mas também pode ser opressão, castração. Mãe que domina, paralisa e devora.

 

Sonho muitas vezes com uma mãe ursa, violenta, boca que estraçalha carnes e estrelas. Com uma loba que amamenta com peitos de fel. Com uma orquídea que suga e sufoca o tronco de que se alimenta até a raiz. Outras vezes, sinto-me uma vaca fluindo leite, nutrindo de meu sangue, de meu couro cor de lua bezerros puros. A verdade é que, em vários planos, ora sou filha, ora mãe. Confundo-me em cenas fortes que formam o filme de minha existência, meu princípio feminino.

 

Jesus ordenou que orássemos ao Pai. Pai é vínculo espiritual, de confiança. A mulher declara quem é o pai da criança. O pai acredita nessa palavra. Mãe é ventre, entranhas, templo, comunidade onde se vive a graça e se sofrem traumas. Entre os antigos romanos, a paternidade só se dava no momento em que a mulher colocava o filho aos pés do pai e ele, reconhecendo em seu íntimo o fato de ser pai, levantava a criança e lhe dava um nome: “- Marco Túlio Cícero”. Se desprezasse a criança, o filho seria abandonado, expurgado, ficaria à margem daquela sociedade opulenta e cruel.

 

Maria foi mãe coragem. Desafiou os costumes e as leis da natureza. Aceitou cumprir a vontade do Pai. Engravidou do Espírito, mesmo sendo noiva de um homem, mesmo correndo o risco de ser apedrejada. Abriu-se para a encarnação do Verbo.

 

Betty e eu temos esse ponto em comum: a velhice de mães marcantes. A minha é uma espécie de Elizabeth Taylor. Cresci ouvindo dizer que tão linda quanto. Os olhos claros de fera. O mesmo destino de Liz. Infelizes nos amores, mimadas, enfermas no corpo e na alma. Gatas em teto de zinco quente. Cleópatras fundando reinos. Fêmeas transgressoras, mas, no fundo, conservadoras, sonhando com maridos e filhos, rejeitando a família despedaçada. Rostos perfeitos de esfinges, seios brancos, colos pesados de colares, colunas esfaceladas. Trágicas e dolorosas. Empurro minha mãe na cadeira de rodas pelo mundo. Meu fardo, minha devoção sobrenatural, minha filha às avessas. Ela é minha sina. Eu o sei e busco honrar.

 

Identifico-me com aquela obra-prima de Bergman, o filme “Sonata de Outono”, com as atrizes Ingrid Bergman e Liv Ullmann, mãe e filha. Após ter sido uma mãe ausente por anos, Charlotte, famosa pianista, vai até a casa de sua filha Eva para lhe fazer uma visita. Estavam sem se ver há sete anos. A mãe encontra ali sua outra filha, Helena, que tem problemas mentais. Eva tirou Helena da instituição onde Charlotte a havia internado para cuidar dela. A tensão entre mãe e filha cresce até que elas colocam tudo em pratos limpos. Nessa conturbada relação, há impossibilidade de amar. (Lacan, com quem Betty Milan estudou na França, afirmou que “uma mãe pode ser uma devastação para uma filha”). Os semblantes das personagens se transformam, as máscaras caem, as chagas se expõem. Eva procura em vão um lugar no desejo dessa mãe que mantém as filhas à distância. A filha se petrifica. A decepção é enorme. Somente as cartas, o som das sonatas, as folhas alaranjadas de outono podem amenizar tamanho sofrimento.

 

Cartas... Betty lê cartas de amor do pai à sua mãe. Relembra viagens que fizeram juntas a Paris, o pôr do sol à beira do Sena, o navio atravessando o oceano. Escreverei uma carta à Betty: “ - Querida, ma chérie, o seu livro colocou-me a seu lado, ao lado da sua e da minha mãe. Quando terminei de lê-lo, os meus olhos fitaram o mar da eternidade”.

O Portal Top Vitrine não se responsabiliza por artigos assinados ou de origem definida.

Reprodução

Cena de Sonata de Outono

QUI, 31.03.2016

Natureza-morta

Há tanta beleza em minha fruteira de cristal vermelho

Raquel Naveira

Para o Portal Top Vitrine

3 comentário(s)

Coloco na fruteira de cristal vermelho algumas maçãs. Ficou lindo. Uma boa forma de saudar o outono, essa estação de transição, onde tudo de repente se decompõe e apodrece. Criei uma cena de estúdio, que caberia bem num poema, numa fotografia, num quadro de natureza-morta.

 

A natureza-morta é um gênero das artes visuais, pintura em que se representam coisas ou seres inanimados. Arranjos de objetos como frutas, louças, flores, garrafas, vasos, potes, peixes, moluscos, espelhos, velas. Um gênero que surgiu na Antiguidade nos afrescos e mosaicos e que se estabeleceu com os pintores holandeses do século XVIII. Espécie de ícone da vida privada, a natureza-morta aparece como um espaço privilegiado para a reflexão sobre as complexas relações entre arte e realidade. Permite o estudo de formas, composições, texturas. Retirado do contexto habitual, os seres passam a figurar num conjunto diverso, imantados pela magia de uma forte carga emotiva. Há tanta beleza em minha fruteira de cristal vermelho! Suspiro fundo.

 

Lembrei-me do quadro “As Vaidades da Vida Humana”, do holandês Steenwyck (1612-após 1655), um exemplo de natureza-morta conhecida como Vanitas que significa “vaidade” em latim. A tela é cheia de enigmas, significados ocultos, referências à morte e à fugacidade da vida. Uma espécie de sermão ilustrativo dos ensinamentos do Livro do Eclesiastes, no Velho Testamento, que afirma: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”. Sobre uma mesa de tampo de madeira ficam expostos vários objetos: uma concha, símbolo da riqueza mundana; um relógio mostrando que nosso tempo na terra é limitado; uma espada indicando que a força das armas não pode derrotar a morte; uma flauta, símbolo fálico, representando os prazeres sensuais e eróticos; uma lâmpada apagada (“Meu coração é uma lâmpada que se apagou/Mas que ainda está quente”, escreveu Fernando Pessoa), de onde sai um fino fio de fumaça provando a fragilidade da nossa existência; a charamela, espécie de oboé, instrumento musical que acompanha o namoro, o encontro amoroso; um jarro bojudo aludindo ao vinho e à bebida; livros abertos que remetem à aquisição de conhecimento e erudição, onde habita também o perigo, pois o muito saber leva ao muito sofrer, ao aumento da dor. E no meio dos objetos todos, sobre um tecido negro, um crânio sorridente, apontando que todos morreremos um dia, que a morte é mesmo o fim comum e inevitável.

 

Mas foi o pintor Cézanne (1839-1906) que deu uma nova posição ao gênero da natureza-morta, explorado depois por artistas como Picasso, Van Gogh e Matisse. Seu trabalho influenciou o direcionamento da arte moderna. Os humildes objetos de suas naturezas-mortas são observados com dedicada paixão: imagens de maçãs, cebolas, peras, pêssegos, estátuas de gesso retorcidas.

 

Ninguém pintou tantas e tão belas maçãs como Cézanne. Maçãs pobres e poéticas, obsessivas. Há nelas um poder de sedução difícil de explicar. Os gregos acreditavam que a maçã fora criada pelo deus do vinho, Dionísio, como presente para Afrodite, deusa do amor. Quando Páris foi chamado a julgar quem era a mais bela das três deusas, Hera, Atena ou Afrodite, ele ofereceu uma maçã a Afrodite, para grande desprazer das outras duas. E a maçã que Eva deu a Adão, da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, foi a causa da expulsão de ambos do Éden.

 

Creio no diálogo entre Poesia e Artes Plásticas. Poesias que parecem pinturas. A pintura é poesia muda. A poesia é imagem que fala. O poeta Manuel Bandeira descreveu a maçã como um “seio murcho”, “um ventre de cujo umbigo pende o cordão placentário”, “vermelha como o amor divino”, com pequenas sementes onde “palpita a vida prodigiosa”. E finaliza: “E quedas tão simples/ Ao lado de um talher/ Num quarto pobre de hotel”. Que poema! Um verdadeiro quadro de Cézanne. Quanta “humildade, paixão e morte”, como diria o mestre Davi Arrigucci Jr, que escreveu “Ensaio sobre Maçã” a respeito desse poema. A maçã no branco do papel. A maçã como objeto de imitação da natureza. A maçã como expressão de um sujeito lírico. A maçã ética, valor tão alto e sublime. A maçã política, democrática, do dia a dia dos pobres e desvalidos. A maçã lição de vida e simplicidade.

 

Com essa fruteira de cristal vermelho, onde dispus algumas maçãs, saúdo o outono da minha vida.

O Portal Top Vitrine não se responsabiliza por artigos assinados ou de origem definida.

Reprodução

As Vaidades da Vida Humana - Harmen Steenwyck

Reprodução

Ninguém pintou tantas e tão belas maçãs como Cézanne

de 26

Raquel Naveira

Raquel Naveira nasceu em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. É formada em Direito e Letras pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB/MS), onde exerceu o magistério superior, desde 1987 até 2006, quando se aposentou. Doutora em Língua e Literatura Francesas pela Universidade de Nancy, França. Mestre em Comunicação e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP). Apresentadora do programa literário “Prosa e Verso” pela TV UCDB (2000-2006) e do “Flores e Livros” pela UP TV e pela ORKUT TV. Pertence à Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, à Academia Cristã de Letras de São Paulo e ao Pen Clube do Brasil. Diretora da União Brasileira de Escritores/Seção SP. É palestrante, dá cursos de Pós-Graduação e oficinas literárias. Escreveu vários livros, entre eles: Abadia (poemas, editora Imago,1996) e Casa de Tecla (poemas, editora Escrituras, 1999), finalistas do Prêmio Jabuti de Poesia, da CBL. Os mais recentes são o livro de ensaios Literatura e Drogas - e Outros Ensaios (Nova Razão Cultural, 2007), o de crônicas Caminhos de Bicicleta (Miró, 2010) e o de poemas Sangue Português: raízes, formação e lusofonia (Arte&Ciência, 2012). É colaboradora do Portal Top Vitrine desde abril de 2014.

Filtrar Resultados

Utilize a busca avançadas do site para encontrar o que deseja.

Blogs & Colunas

Utilize a busca avançadas do site para encontrar o que deseja.