Campo Grande-MS 29.05.2017

Priscila Dourado

Arquiteta e escritora

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TER, 06.10.2015

Mudar é preciso

Dizem que com a idade tudo cai; só a gengiva que sobe

Priscila Dourado

Para o Portal Top Vitrine

Chego ao restaurante e faço o pedido, aguardo já salivando. Vem a entrada, que havia perdido a definição por estar no banheiro. Mas já sabia: seriam nachos.

 

Servimos o nachos e estavam lá, todos amontoados com seus molhos, salsa e sour cream. Um festival de sabores juntos e separados.

 

Até aí, tudo bem. A mistureira se embaralhava com meu paladar e como me sentia estar num festival de Mardi Gras, tudo bem.

 

Mas o problema começou no prato principal, lindo. Peito de frango grelhado na pimenta, quase uma comida Cajun, mas nem tanto.

 

E o problema era ver o prato; e ver o prato para mim já é metade do sabor. Não enxergava os detalhes que queria!

 

É... a idade vem chegando, e como leio muito, no mesmo passo que ela chega, minha acuidade visual vai.

 

Estou chegando à conclusão de que inevitavelmente terei que me render aos óculos, definitivamente.

 

E o chato é a motivação. Diferente do dia que usava para parecer mais intelectual, o qual, desisti.

 

Diferente da época que voltei a usar para parecer mais velha porque uma cliente olhando bem fixa nos meus olhos me disse que eu era muito nova para saber o que já sabia há anos e ela é que não sabia que eu tinha começado a trabalhar cedo e tinha feito estágio desde o segundo semestre, praticamente por toda a faculdade.

 

#Ódio no coração!

 

E o fato de não conseguir mais comer sem óculos, para não dizer, ler, ver pessoas e formigas; desta vez, esta é a minha motivação inconteste.

 

Bem... A idade está chegando! E agora não tenho mais que usar máscara para tanto. Agora só falta tirar os últimos dentes sisos e quem sabe, quem sabe ... Ter juízo, maturidade e de prêmio ser “intelectual”, mas não babaca! Por favor, isso tira o mérito que qualquer qualidade.

 

E agora, como bom ser humano do gênero mulher, vou passar o resto da minha vida fazendo exatamente o oposto do que fiz até agora.

 

Vou lutar arduamente contra a cara de velha, contra a velhice, contra a gravidade. Dizem que com a idade tudo cai; só a gengiva que sobe.

 

Haja hidratante, musculação, aeróbicos, funcionais, escovação correta.

 

Assim como navegar é preciso, mudar também. Já dizia Darwin, sim Darwin, aquele o qual afirmam alguns biólogos ter matado Deus.

 

Mas religiosidade à parte, porque não há coisa mais deselegante do que discutir religião, sexualidade e outras polêmicas mais.

 

E voltando ao tema inicial, sem encheção de linguiça, mudar é da vida. O tempo todo.

 

E só sobrevivem os mais adaptáveis, não necessariamente os mais fortes.

 

Desta forma, apesar de não ser fã... Vamos de Raul Seixas: “Eu prefiro ser, essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo...”

 

De velha basta a data de nascimento!

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QUI, 24.09.2015

Inferno alheio

O inferno está dentro de cada um

Priscila Dourado

Para o Portal Top Vitrine

A amiga não se conteve e contou para a amiga mais uma barbaridade da pseudo amiga de todo mundo que sempre está aprontando alguma.

 

E todos já a conhecem, sabem que fofocas, maledicências e histórias fantasiosas sobre os assuntos mais dantescos e grotescos são com ela mesma. Uma expert em se colocar como amiga de todo mudo, mas tão amiga, tão amiga que não se contém em ser só inimiga dela mesma.

 

E a amiga ligou para outra amiga também não se contendo. Estava chocada. A pessoa não muda? Não melhora?

 

Sim. Melhora, mas tudo depende do ponto de vista. Está ficando cada vez melhor. Um primor de pessoa.

 

E a amiga liga e antes que a outra lhe pergunte sobre como está, dispara: Me desculpe, mas eu tenho que te contar uma coisa. E solta a barbaridade.

 

A amiga responde com um insonso Annhann... e pergunta?

 

E?

 

O   que   eu    tenho   com    isso    ?

 

E ainda continua:

 

E     v  o  c  ê...?

 

O     que     tem    com    isso?

 

Ao que recebe: Nada! Nem eu, nem você e nem que me contou! Mas isso tem que parar!!! É muita maldade em uma só pessoa; assumindo sua inestimável e imensurável bondade.

 

Mas a última amiga respondeu que isso tudo só irá parar se todas pararem de reverberar, comentar. E assim ensinou que ultimamente tem exercitado a capacidade de não reproduzir infernos alheios. Porque segundo ela, o inferno está dentro de cada um e, no momento que passamos para frente seja lá com qual conotação for, estamos expandindo a maldade. E que o grande segredo é absorver, não se deixar afetar, e como um toureiro espanhol desviar graciosamente de lado, olhar com aquela altivez típica e seguir a vida.

 

Exercício lindo de se falar, mas difícil de por em prática. Mas segundo a amiga, libertador.

 

E ao ouvir isso tudo, fiquei bastante curiosa em como será colocar isso em prática. Imaginei também isso se expandindo aos comentários das novelas!

 

Imagina a vida sem comentários sobre as novelas? Ou sobre a atuação do juiz no futebol?

 

Ahh! Melhor... e sobre  a crise política criada ultimamente?

 

E se, somente se, por algum momento todos nós parássemos de reproduzir os infernos alheios?

 

Seria muita altivez, seria muito bonito.

 

Até porque dizem que as pessoas dão o que tem dentro de si. E como sou uma fã de Audrey Hepburn e já usei antes, volto a citá-la:

 

- "Para ter lábios atraentes, diga palavras doces; para ter olhos belos, procure ver o lado bom das pessoas; para ter um corpo esguio, divida sua comida com os famintos; para ter cabelos bonitos, deixe uma criança passar seus dedos por eles pelo menos uma vez por dia; para ter boa postura, caminhe com a certeza de que nunca andará sozinho; pessoas, muito mais que coisas, devem ser restauradas, revividas, resgatadas e redimidas; lembre-se que, se alguma vez precisar de uma mão amiga, você a encontrará no final do seu braço. Ao ficarmos mais velhos, descobrimos porque temos duas mãos, uma para ajudar a nós mesmos, a outra para ajudar o próximo; a beleza de uma mulher não está nas roupas que ela veste, nem no corpo que ela carrega, ou na forma como penteia o cabelo. A beleza de uma mulher deve ser vista nos seus olhos, porque esta é a porta para seu coração, o lugar onde o amor reside".

 

Deus me ajude!

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Reprodução

Audrey Hepburn

TER, 15.09.2015

A face oculta

E por falar em burrice, o que essa gente no nosso país está pensando?

Priscila Dourado

Para o Portal Top Vitrine

É impossível passar incólume à crise pelo qual estamos vivendo. Aqui no Brasil, essa crise moral, ética, política e consequentemente econômica.No Brasil essa crise transforma-se em desaceleração de crescimento, baixa de PIB, queda no consumo, desemprego e claro, inúmeras crises pessoais.

 

Na Europa, há a invasão maciça de refugiados, gerando uma crise social, econômica que vira um grande debate de ética, moral e humanidade. E vale lembrar que estes refugiados, estão fugindo de outra crise; uma guerra que não tem fim, incitada e fomentada por razões políticas, econômicas, egoístas e burras.

 

Sim burras, pois não há verdade maior no mundo que para toda ação há uma reação de igual ou maior intensidade. No mundo globalizado a reação é em cadeia e inevitavelmente em algum momento atingirá sim seus mentores.

 

E por falar em burrice, o que essa gente aqui no nosso país está pensando? Será que realmente pensam que a coisa vai ficar assim? Que seus descendentes não irão pagar por seus atos?

 

Tudo é uma questão de tempo e até hoje, embora não assista novelas, sempre ouço o burburinho que de vilões no final sempre se dão mal. E como no fim tudo dá certo, imagino que não tenhamos chegado ao fim. Ainda.

 

Mas o fato é que crise é oportunidade. Oportunidade de se reinventar, de mudar, quebrar paradigmas e seguir. É o momento de mudar o ponto de vista, de buscar novos ângulos e seguir.

 

E em tempos de “se a farinha é pouca, no meu pirão primeiro”, somos agraciados com mais uma grande oportunidade; a de conhecer as pessoas. É na hora que, sem pensar, sem poder parar para pintar a máscara, conhecemos as pessoas. A face oculta se revela.

 

Todos nós possuímos hábitos arraigados, muitas vezes até imperceptíveis a nós mesmos. É o jeito de cada um, que com alguma maquiagem, polimento e em muitos casos dissimulação, na maré mansa, conseguimos disfarçar.

 

E é nesse momento que somos convidados a enxergar o que não conseguíamos ou não queríamos e também nos mostramos.

 

A crise em qualquer e em todas as suas instâncias nos tira as máscaras e nos tira as vendas; e apesar de acreditar que estamos vivendo mais um período de trevas da humanidade, creio que ainda conseguiremos ver a luz.

 

Ficamos muito focados nas coisas ruins e temos grande dificuldade de ver as boas. Claro, são poucas, mas valiosas. Nada é mais valioso que a verdade, ainda que doída, ela é libertadora e nos abre caminhos que até então não ousaríamos percorrer.

 

Em tempos de meios de comunicação tão ágeis, a luz no final do túnel surgirá e acredito que não será um trem vindo no sentido oposto. Acredito e espero.

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