Campo Grande-MS 27.07.2017

Política em pauta

Leandro Grôppo

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QUA, 23.03.2016

A tática Tiririca

Tiririca obteve mais que o dobro de votos em relação ao segundo colocado

Política em pauta

Para o Portal Top Vitrine

Muitos se espantam áté hoje com a quantidade de votos obtida pelo humorista Tiririca em sua candidatura a Deputado Federal por São Paulo pelo PR. Foram mais de um milhão de votos nas duas eleições que disputou, em 2010 e em 2014.

 

Discute-se a razão de uma figura, até então inexpressiva na política, e sem qualquer trabalho anterior, consiga amealhar quantidade tão significativa de votos, a ponto de ter sido o deputado mais votado do Brasil em números absolutos em 2010.

 

Para se ter uma ideia do feito, no estado de São Paulo, que possui o maior eleitorado do país, o segundo mais votado para o cargo foi Gabriel Chalita (PSB), ex-secretário de educação do estado, ex-vereador da capital paulista e com forte vinculação à igreja católica, obteve 560.022 votos, número bastante expressivo se considerarmos que do 3º ao 14º lugares tiveram votação na casa dos duzentos mil.

 

Ou seja, Tiririca obteve mais que o dobro de votos em relação ao segundo colocado, sendo que este segundo teve também mais que o dobro do terceiro. Um verdadeiro fenômeno! Será?...

 

Em verdade, tudo isso não foi surpresa para seu partido e sua coligação. Em todas as eleições para cargos legislativos, especialmente para Câmara dos Deputados, muitos partidos utilizam de figuras conhecidas do eleitorado, vindas de outros setores, principalmente do meio artístico e esportivo, para elevar o número de partidários eleitos. Pois, com maior bancada, tem-se mais recursos do fundo partidário (a divisão é feita de acordo com a votação da legenda), mais prestígio e consequentemente maior poder de barganha política.

 

Explica-se: ao contrário das eleições para cargos executivos (presidente, governador e prefeito) que são majoritárias, onde aquele que consegue a maioria dos votos é o vencedor, nas eleições para o legislativo a votação é proporcional, ou seja, elege-se pela proporção de votos dada a todos os candidatos da coligação.

 

Dessa forma, se um candidato teve boa votação, mas seus companheiros de chapa não obtiverem bons resultados, fazendo com que a coligação não alcançasse o número mínimo de votos para eleger ao menos um representante, o bem votado estará fora.

 

Por outro lado, em coligações que se utilizam de um puxador-de-votos que obtenha votação expressiva, a sobra de sua votação serve para eleger outros que não conseguiriam atingir a quantidade mínima somente com sua votação pessoal. Por exemplo, a votação de Tiririca foi capaz de eleger outros cinco candidatos que não conseguiriam se eleger sozinhos.

 

Esta é a estratégia dos partidos ao buscar candidatos celebridades. Os eleitores, em sua maioria desiludidos com os políticos tradicionais e suas práticas, e sem entender para que serve um deputado, acabam por transformar seu voto em uma resposta de protesto a chacota diária dos noticiários.

 

Assim, o desconhecimento da mecânica eleitoral expande, a cada pleito, a leva de oportunistas e do estapafúrdio espetáculo eleitoral. Portanto, casos como Enéas em 2002, Clodovil em 2006, Tiririca em 2010, dentre outros, não são novidade no meio político. Onde, muitas vezes, vota-se no que se vê e elege-se o que não vê.

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QUA, 17.02.2016

Amnésia eleitoral e reforma política

O voto endo obrigatório deixa de ser democrático e passa a ser autoritário

Política em pauta

Para o Portal Top Vitrine

A Constituição brasileira, ao estabelecer a obrigatoriedade do voto, cometeu conscientemente um grande paradoxo democrático: tornou um direito em dever. Dessa forma, em sendo obrigatório, deixa de ser democrático e passa a ser autoritário, imperioso. Mas esta não é a discussão que queremos aqui levantar, e sim, sobre uma de suas conseqüências.

 

Ao ser obrigado a votar, o eleitor médio acaba por não fazer uma decisão consciente, seletiva. Ou seja, a escolha eleitoral, em sua maioria, não é qualitativa, comprometida, sendo muitas vezes definida no caminho até a seção, ou quiçá, na frente da própria urna (daí o motivo da prática da boca de urna por parte dos candidatos).

 

Tal fato se torna ainda mais concreto quando a função dos cargos em disputa é desconhecida pelo eleitor. Pesquisas revelam que o bordão usado pelo deputado federal Tiririca, ao dizer ironicamente “você sabe o que faz um deputado? Não? Nem eu!”, é a mais pura verdade.

 

Esse desconhecimento das funções e, conseqüentemente dos benefícios sociais que deveriam ser esperados daquele representante, aliado ao descrédito da atividade política, levam o ‘eleitor médio’ a fazer escolhas que são esquecidas muito brevemente.

 

Pesquisa do TSE, realizada em novembro de 2010, apenas um mês após as eleições, constatou que um em cada cinco eleitores não se lembrava mais em quem havia votado para deputado!

 

Confirmando a tese, além do esquecimento do voto, parcela significativa dos entrevistados admitiu ser mal informada sobre o papel a ser desempenhado pelos eleitos: 42% disseram não saber o que faz um senador e 40% não sabem a função dos deputados, federal ou estadual. O levantamento mostrou ainda que 46% revelaram pouco ânimo para exercer o direito ao voto.

 

Passados mais alguns meses, e não é difícil encontrar eleitores que já não se lembram em quem votou. Assim, por não se lembrar em quem votou, o eleitor não poderá cobrar as propostas de campanha do candidato. Com a falta de acompanhamento ao longo do mandato, diminui a cobrança sobre os parlamentares, completando-se o ciclo da amnésia eleitoral até a próxima eleição, quando a epidemia já atinge de 70% a 80% dos eleitores.

 

O remédio? Entre distribuir “memorol” maciçamente para a população ou mudar o sistema político brasileiro, a medida mais eficaz é modificar as regras eleitorais. Para isso, a reforma é o caminho para reduzir a distância que separa o povo da esfera política, possibilitando o aumento da memória social, sem prejuízos para a saúde pública.

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QUA, 20.01.2016

Quando a falta de estratégia vira crise

Faltou planejamento e comunicação por parte do Governo de São Paulo

Política em pauta

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O governo de São Paulo anunciou em setembro um plano de reforma no ensino estadual para criar escolas com apenas um ciclo de aprendizagem (1° ao 5° ano, 6° ao 9° ano ou ensino médio). A justificativa é a quantidade de vagas ociosas, uma vez que a rede pública paulista perdeu dois milhões de alunos em 15 anos em razão da diminuição da taxa de natalidade, da municipalização do 1º ao 5º ano e da migração de alunos para a rede privada. Nos casos extremos, há escolas com apenas 30% da ocupação.

 

Manter classes vazias é desperdiçar recursos que poderiam ser mais bem empregados, na própria educação inclusive. Admitia-se a possibilidade de fechamento de unidades, que continuariam a serem usadas como creches, centros de ensino técnico e de formação de professores. E apesar dos estudos técnicos que indicavam melhor aproveitamento das escolas de ciclo único, o Governo não planejou estrategicamente a reforma e acabou por transformá-la em um enorme problema.

 

O anúncio ocorreu sem grandes esclarecimentos e com a intenção de implantar já em 2016. A falta de transparência sobre o destino dos prédios desocupados e dos recursos economizados gerou insegurança em pais e alunos criaram dúvidas na opinião pública e deram margem para a instrumentalização política do debate, operacionalizada por sindicatos e movimentos sociais ligados a partidos políticos que trabalharam para inflar os protestos. A tensão explodiu quando a polícia foi acionada, culminando em cenas de repressão que jogaram ainda mais gasolina em uma situação já inflamada, resultando no descrédito do projeto e na confusão que ultrapassou a comunidade escolar paulista.

 

Mexer em direitos básicos tem grande peso num país que cobra pela melhoria da qualidade dos serviços públicos. Para a sociedade brasileira a educação é valor fundamental, portanto, é inaceitável o fechamento de escolas. Assim, uma decisão como essa não poderia ser tomada sem estratégia e a participação dos principais interessados.

 

Segundo o governo paulista, o aluno que fosse transferido iria para um colégio até 1,5 km da escola anterior, e a transferência ocorreria por processo de preferência em que os pais indicariam a opção mais conveniente na próxima matrícula. O problema é que esta informação somente surgiu quando o tumulto já estava feito. A avaliação da conjuntura também foi equivocada. A medida foi anunciada após uma das maiores greves de professores do Estado, que reivindicava melhorias salariais que não foram atendidas. Não sendo, dessa forma, o melhor momento para a introdução da proposta.

 

A história mostra um erro recorrente na gestão pública, mesmo no Estado mais rico do país. Faltou planejamento e comunicação por parte do Governo. Questões de grande importância e conseqüente repercussão só se efetivam se houver apoio dos grupos de interesse envolvidos. A mudança precisa ser preparada para obter consensos mínimos. Devidamente apresentadas, antes de sua implementação, neutralizaria a possível rejeição.

 

O fato de uma questão de cunho educacional ter se tornado caso de polícia levou à queda do Secretário de Educação e fez a popularidade do governador Geraldo Alckmin atingir sua pior marca, segundo pesquisa divulgada no início de dezembro, no mesmo dia que o governo anunciou a suspensão da reforma.

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Arquivo pessoal

Leandro Grôppo estreia como articulista no Top Vitrine

Política em pauta

Especialista em Comunicação e Marketing Político-Eleitoral, com aperfeiçoamento em Estratégia Política pela The Graduate School of Political Management da George Washington University, pós-graduado em Gestão Pública pela Escola Nacional de Administração Pública, mestrado pela UnB e em comunicação pela UFU. Foi assessor na Presidência da República, com passagem, ainda, por Ministérios do Governo Federal. Membro da Sociedade Brasileira dos Profissionais e Pesquisadores em Comunicação e Marketing Político (Politicom) e da Asociación Latinoamericana de Consultores Políticos (ALACOP), participou nos níveis estratégicos de diversas campanhas eleitorais e planejamento de mandatos. É sócio-diretor da Strattegy Comunicação & Marketing, colunista de política e economia, e professor-tutor do curso de especialização em Gestão Pública Municipal da UFU e UAB. Leandro é articulista do Portal Top Vitrine desde janeiro de 2016.

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