Campo Grande-MS 27.05.2017

Pedro Mattar

Publicitário e Cronista

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TER, 16.02.2016

Corrupção, onde estás que não me achas?

Nossas escolhas determinam o que somos e sou fiel às minhas

Pedro Mattar

Para o Portal Top Vitrine

Descobri que dentro de mim vive uma alma desavergonhadamente corrupta. Me dei conta quando dia desses um amigo me ofereceu duas opções de sanduíche, um de presunto com queijo brie e outro de lombinho canadense com maionese e tomate.

 

Disse ele que se eu escolhesse o sanduíche de queijo brie e presunto estaria magoando uma criança que se recusava a ficar com o sanduíche de lombinho canadense, maionese e tomate. A criança detestava tomate.

 

Escolhi o de presunto e queijo brie, claro, o problema daquela criança era dela, eu não tinha nada a ver com isso. Afinal, nossas escolhas determinam o que somos e, sou fiel às minhas.

 

Onde é que entra o meu lado corrupto nessa história? Todo sujeito com capacidade de se contrapor a uma criança na escolha de um simples sanduíche não irá recusar um conchavo para intervir em uma negociação. A melhor parte sempre terá que ser a minha, se puder escolher. E fodam-se as criancinhas.

 

Quando Millôr Fernandes criou aquela frase memorável “Corrupção, onde estás que não me achas?” ele sabia muito bem o que estava escrevendo.

 

"Minha mãe e meu pai eram corruptores e eu o corruptível"

 

Todos somos corruptíveis, depende apenas da oferta. Minha predisposição à corrupção vem desde pequeno, minha mãe, para me convencer a tomar remédios de gosto ruim, mas necessários, atendia minhas exigências compensatórias. Era isso ou não tinha acordo. Eu era um corruptozinho em formação e tudo previa um futuro brilhante.

 

Em uma CPI recente, que organizei sobre mim mesmo, lembrei uma vergonhosa atitude que adotei, de só aceitar comer saladas saudáveis se meu pai me desse vintão pra torrar na melhor confeitaria da cidade. Gastaria naquilo que eu quisesse. Tudo bem: comeria saladas, mas sob o compromisso de compensar os espaços sobrantes devorando tortas de morango e o que fosse, com chantilly. Hoje, mais consciente, compreendo que minha mãe e meu pai eram corruptores e eu o corruptível mancomunado com os dois.

 

Nunca tive a sorte de ficar rico por meio desse meu lado flexível, vamos dizer, mas satisfiz uma porrada de degustações que deliciaram minha infância. Mais recentemente, essa minha índole, confesso, beneficiou diferentes interesses, os quais não tenho como negar.

 

No lado amoroso sou um infrator legal e emocional. Exijo contrapartidas para todas as minhas concessões.

 

“Na semana passada fui ver o filme que você quis, agora tenho crédito de três porcarias e você terá de ir comigo”, decreto à minha namorada.

 

Ela fica sem opção de negar, com medo que eu repita o restaurante que ela não gosta quando sairmos no final de semana. Comigo é assim, tudo baseado em interesses velados.

 

Faço conluio com garçons, assumo o papel de corruptor deixando boas gorjetas, enquanto eles me devolvem o melhor tratamento e um serviço excepcional. Os interesses deles e os meus se contrapõem aos dos donos dos restaurantes e dos bares. Se é que vocês me entendem.

 

Tá certo, minha carreira na corrupção ainda é amadora, ela segue um padrão bem babaca, mas tenho certeza de que um dia a corrupção me achará. Só que ela não irá me convencer tão fácil. Se pintar risco de cadeia, to fora.

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Reprodução

Pedro Mattar: "Organizei uma CPI sobre mim mesmo"

TER, 09.02.2016

Notícias de São Paulo

São Paulo hoje não tem a ver com amanhã

Pedro Mattar

Para o Portal Top Vitrine

São Paulo não é uma cidade fácil. Tudo é longe, mesmo a padaria da esquina.

 

E o trânsito é complicado. Viver em São Paulo é um exercício de ocupar espaços. Essa disputa ocorre nas ruas nas horas de pico ou em bares badalados.

 

Ter vivido aqui mais de quarenta anos valeu para me acostumar às transformações que são permanentes. Em São Paulo hoje não tem a ver com amanhã. Presenciar essa mutação durante anos me qualifica como observador privilegiado. Depois de viver trinta anos distante, volto a me incorporar à sua rotina febril, tentativa de reintegrar minha cabeça ao cenário e ao som que envolvem o seu cotidiano.

 

São Paulo é foda. É um desafio aos fracos de paciência e sensíveis à violência. Não me refiro somente à violência criminal, onipresente, mas ao impacto permanente dos seus movimento. Porque São Paulo não tem intervalo pro almoço ou jantar, apenas um pouco pra dormir. Mesmo assim dorme tarde e acorda muito cedo.

 

Ir ao cinema em São Paulo não é decisão isolada, onde basta escolher o filme. É uma escolha acompanhada de plano logístico. Qual a localização do cinema? Shopping A, B ou C? Qual deles tem estacionamento mais prático? Qual o mais barato? O horário da sessão demanda um plano para calcular o tempo de chegar até lá. Tempo para estacionar e levar em conta o nível de confiança no GPS para calcular os trajetos menos complicados.

 

Putas em domicílios

 

O tamanho de São Paulo, sua economia diversificada e o perfil da população demandam diferentes tipos de serviços. São Paulo tem tudo. Desde especialistas em calos nos pés, putas em domicílios, encanadores e enganadores, leitores de destino, restaurantes exóticos e prestadores tão diversificados que não cabem nominá-los aqui.

 

A cidade não é uma para amadores, embora existam muitos percorrendo suas ruas. Os que pisam na bola, dançam. Sem orientação prévia e planejamento, os desavisados vão achar a cidade uma merda: um monumento ao cimento. Ela foi montada para os que conhecem muito bem suas entranhas. Os que sabem o caminho das pedras são dotados de radar contra os riscos que a cidade oferece. São também os que desfrutam melhor a cidade.

 

Para os que decifram seus códigos, São Paulo é apaixonante, respira cultura, transpira um suor metropolizado. Por ser habitada por gente de passos rápidos e nem olham ao lado, não é um lugar cordial. A desconfiança predomina. Existem vizinhos de anos que não se falam e nem se conhecem. Mas nos bares esse isolamento se desfaz. Ali as conversas fervem como azeite na frigideira.

 

Os restaurantes de São Paulo são tantos que perde-se a conta. E a população é tão mesclada que algumas têm bairros específicos por nacionalidade. Saber aproveitar as virtudes de São Paulo é descobrir a chave de entrada de um prazer que não estabelece limites.

 

É uma cidade cara para alguns bolsos. Mas, aos apreciadores da contemplação, São Paulo conta com parques disponíveis e pistas para bicicletas. Aqui os valores cotidianos mudam de acordo com a capacidade de investir nos prazeres de cada um. Os bairros mais ricos preservam uma arborização tão marcante que acentuam o contraste com o cimento nesse entorno.

 

Para desfrutar São Paulo não esqueça de levantar as informações antes de vir. Venha com disposição e prudência. E traga um troco: poucas coisas são gratuitas.

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Observatório de Turismo e Eventos/José Cordeiro

Avenida Paulista

QUI, 05.11.2015

Não leia: é papo furado

A condição de gente boa começa a ser perdida ao crescermos

Pedro Mattar

Para o Portal Top Vitrine

Peço licença aos psicanalistas para dar alguns chutes na entrada da grande área. De subjetividade eu entendo um pouco.

 

Baseado em mim mesmo e experiências que passaram à minha frente, me atrevo a dizer que falta uma porrada de quilômetros para o ser humano ter certeza dos seus limites. Nossa mente ainda não foi suficiente testada pra garantir que ela já deu tudo o que pode dar. Tem coisa lá.

 

Creio que a psicanálise mantém um triângulo das Bermudas sob observação para algumas questões que dizem respeito ao funcionamento da mente humana.

 

É que explicações teóricas sempre recomendam cautela antes de aceitá-las como definitivas. Até porque nada é definitivo. Existem teses, que são respeitadas e servem de rumo às nossas emergências, mas é prematuro achar que as explicações sobre o alcance da nossa capacidade mental estejam desvendadas.

 

Acredito no poder da mente, pro bem e pro mal. Me soa como um exercício fluídico de mandar mensagens - positivas ou negativas - tipo um transmissor de razoável potência. Tecnicamente não sei explicar, mas imagino que somos capazes, conscientes ou não, de exportar fluídos na direção do que nos interessa.

 

Quando você se aproxima de um cachorro, com receio da reação dele, por exemplo, ele se apercebe mesmo que você não demonstre gestualmente. Ele capta seus fluídos, sejam eles de temor ou agressivos. Telepatia? A verdade é que comunicações desse tipo não estão muito bem resolvidas, mas a gente sabe que elas funcionam. O que não sabemos é até onde chegam os nossos limites nesses domínios.

 

É curioso ver o que acontece entre bebês (eles ainda não têm consciência dos riscos e nenhum tipo de medo) e cachorros: eles se lambem, não existe temor, só afinidade e instinto de afetividade. São dois animais sem predisposição agressiva, sem medo e sem que seja acionado nenhum instinto de defesa, são criaturas afins.

 

Não há o que defender, quando não existe motivação de agredir. Pureza mental é um sentimento identificável e gera reciprocidade de afeto. Relações entre animais e bebês, demonstram que, até uma certa idade (meses), todos os sentimentos são despoluídos.

 

Minha tese é a seguinte: a gente nasce bom, autênticos, boa índole, somos gente fina até o momento em que começamos a aprender coisas. A condição de gente boa começa a ser perdida a partir daí, ao crescermos.

 

O tempo ensina a sacanear e as regras da competição. A socialização gradual é uma etapa de envolvimento nas disputas que a vida impõe. Crescemos condicionados a concorrer com o mundo e a merda se acentua durante o caminho. Nos ensinam que é preciso ficar experto, é necessário estar atento e é fundamental ser melhor que os demais.

 

Bom, misturei as bolas. Tava falando sobre o poder da mente e passei a mentir sobre meu poder de confundir. O fato é que eu percebo que tem coisa além do cerebelo dentro da minha cabeça, uma espécie de núcleo poderoso e mal aproveitado. Deve ocorrer isso também na sua, só que não descobrimos como utilizar essa geringonça.

 

Um dia a gente vai entender.

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Pedro Mattar

Pedro Mattar tinha 77 anos, até ontem, e hoje soma mais um ou mais dias, dependendo da data desta publicação... É publicitário, rebelde sem o mínimo motivo e exerceu diversos cargos em empresas e administrações públicas, os quais tem vergonha de citar. Como escritor, acha que é o maior leitor de si mesmo. Sob essa perspectiva, subscreve atenciosamente, sem assinar. Desde julho de 2011 é articulista semanal do Portal Top Vitrine.

pedromattar@uol.com.br

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