Campo Grande-MS 28.06.2017

Paulo Renato Coelho Netto

O animal político

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QUI, 09.06.2016

As curvas da Serra Mogi-Bertioga

Mogi das Cruzes ganhava vida na chegada do trem e dos ônibus

Paulo Renato Coelho Netto

Portal Top Vitrine

As viagens de universitários para Mogi das Cruzes estão entre as melhores lembranças que guardo do tempo de faculdade. O trem só de estudante - que saía do Brás às 18h08 -, e os ônibus que brotavam na cidade vindos de todas as regiões: São Paulo, Santos, Osasco, Guarulhos, Grande ABC, São José dos Campos, Jacareí...

 

Era uma festa, um desafio aos limites do cansaço. Quase todos saíam de casa muito cedo, trabalhavam o dia todo e ainda tinham coragem para encarar trilhos e estradas para se formar.

 

O percurso tinha de tudo, até festinha de aniversário com bolo, doces e refrigerantes. Amigo secreto. Algumas com o ônibus decorado com balões coloridos.

 

Mogi das Cruzes ganhava vida na chegada do trem e dos ônibus e perdia o charme quando eles iam embora.

 

Eu ficava em frente à faculdade esperando a chegada dos amigos nesses ônibus. Morava em república, mas para chegar lá também encarava 1.200 quilômetros de estrada, quatro vezes ao ano, de Campo Grande (MS) para estudar em Mogi.

 

Ninguém reclamava! Era uma aposta no futuro, um desafio à preguiça, ao preço da mensalidade, às leis da física. Um passo diário, de formiguinha, rumo a um futuro melhor.

 

Cada um que descia de um daqueles ônibus chegava sorrindo. Em um minuto, não sei como, deixavam a condição de zumbis que vinham dormindo - ninguém é de ferro - para encarar a sala de aula praticamente até dez da noite.

 

Deveria valer no currículo como diferencial. Alguém que encara duas viagens à noite, sob chuva, neblina na serra, frio e curvas perigosas, tinha que ser analisado de outra forma pelo RH na hora de conseguir um emprego.

 

Alguém que se submete a uma odisseia assim é forjado a encarar os trancos da vida de outra forma. E isso o ano todo, de segunda a sexta-feira. Aulas inclusive aos sábados de manhã, das oito às onze e meia.

 

Hoje bem cedido, a primeira notícia que li foi sobre o acidente com um ônibus de universitários que voltavam de Mogi para o Litoral Norte paulista. São 18 mortes, muitos feridos, alguns ainda em cirurgia e em estado grave.

 

Fiquei e ainda estou sem palavras. O que imagino é que, assim com há mais de vinte anos, certamente o clima deveria ser semelhante nesse ônibus que virou um grande ferro retorcido na serra Mogi-Bertioga.

 

Havia sonhos ali: um pedreiro que estudava engenharia civil, acadêmicos de administração, psicologia, farmácia, enfermagem. Sonhos individuais e de famílias inteiras. Gente jovem reunida.

 

Sinto por eles, sem demagogia alguma. Sinto muito. Pela vida que acabou bestamente no escuro, numa curva fechada, em um capotamento.

 

Sinto tanto ainda pelos pais. Deveria existir alguma lei irrevogável na natureza que proibisse qualquer filho, em qualquer lugar do mundo, de morrer antes do pai e da mãe.

 

Vivemos em um país cujo sistema político e social, por consequência, está falido, esgarçado pela corrupção. Usurpado por filhos da puta de tudo quanto é jeito, região e escalão.

 

Parasitas debiloides, arrogantes. Muitos dos quais ignorantes que não estudaram.

 

Um país que sequer dá condições para que recém-formados tenham acesso ao mercado de trabalho, que desconhece o sacrifício (até de perder a vida) que muitos se impõem para se formar e crescer socialmente, ho-nes-ta-men-te.

 

Um país que não dá a mínima para a educação, que tem gente que rouba até merenda escolar de crianças, que paga salários ridículos por hora-aula aos professores.

 

Um país que já teve um presidente que se orgulhava da própria ignorância e que declarou, solenemente, que estudar não é importante.

 

No entanto, o Brasil não é feito dessa gente escroque.

 

O Brasil que tem alguma esperança de sucesso é construído por jovens como estes que morreram na serra Mogi-Bertioga, às 23 horas de uma baita quarta-feira, voltando da faculdade para casa em uma estrada escura, cheia de curvas e pegadinhas sinistras, depois de mais um dia de trabalho.

 

A eles, o meu respeito.

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QUI, 14.04.2016

Em qual lugar do mundo?

Onde mais podem acontecer excrescências assim?

Paulo Renato Coelho Netto

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15 comentário(s)

Onde mais o povo convive diariamente com termos como vantagens ilícitas, associação criminosa, propina, formação de cartel, frustração à licitação, corrupção ativa e passiva, evasão fraudulenta de divisas, uso de documento falso, sonegação de tributos federais, lavagem de dinheiro, fuga, passaporte falso, caixa dois e pixuleco?

 

Em qual lugar do mundo o vice-presidente faz um discurso chegar aos ouvidos da população comemorando sua chegada ao poder, sem que o atual presidente sequer tenha sido afastado, seja por crime de responsabilidade ou corrupção?

 

Em qual lugar do mundo um cidadão comum se encastela em um hotel de luxo e passa, dali, a negociar pelo governo sem que um único fio da sua barba faça parte oficialmente do governo? Um cidadão que pode ser preso por diversos crimes de uma hora para a outra?

 

Onde mais podem acontecer excrescências assim?

 

Em qual lugar um parlamentar revela que estão oferecendo entre R$ 400 mil a R$ 2 milhões de reais para se ausentar ou votar contra o impeachment do presidente e a declaração não é investigada na mesma hora pela polícia?

 

Onde um cidadão precisa pagar por uma vacina contra gripe porque o governo - que cobra dele os impostos mais caros do mundo – não tem vacina para todos e assim decide quem vive e quem morre?

 

Em qual lugar do mundo um presidente não consegue nomear um ministro?

 

Onde um borra-botas qualquer declara, dentro do palácio do governo, que vai invadir, quebrar e queimar casas e fazendas, diante da própria presidente, em cerimônia oficial?

 

Onde mais o compadrio e a incompetência individual valem tanto ao ponto que quanto mais incompetente, bajulador e subserviente o inepto aumenta suas chances de receber uma boquinha?

 

Em qual lugar do mundo valem tão pouco ou quase nada o talento individual, o esforço, a criatividade, o estudo e a meritocracia?

 

Onde o nepotismo é tão arraigado ao ponto de o Estado ter que sustentar parentes, filhos, amantes, noras, genros, netos e ex-mulheres de pessoas que se acham importantes e que desconhecem o que é uma República?

 

Onde mais a Justiça precisa de controle externo?

 

Onde um ex-presidente já se gabou tanto de sua ignorância ao ponto de afirmar que estudar não é importante?

 

Entre investir em infraestrutura e redes de esgoto e construir estádios superfaturados, qual país do mundo opta sem pestanejar pela segunda opção?

 

Em qual lugar do mundo um ex-deputado, condenado a mais de sete anos na prisão por corrupção - tendo cumprido apenas 14 meses - sai do pátio da cadeia direto para as principais televisões e páginas dos jornais para voltar a falar com tanta propriedade sobre política e... corrupção?

 

Onde mais no mundo um eleitor que não vota, que defende o voto em branco e nulo, reclama tanto da péssima qualidade dos políticos que ele não elege?

 

Onde mais condenados por roubar dinheiro público e quadrilheiros são agraciados com indulto de Natal e passam a ser, novamente, cidadãos limpos, leves e soltos?

 

Onde mais, em sessão oficial, parlamentares levam patinhos amarelos e joões-bobos para adornar a mesa durante os debates?

 

Em qual lugar do mundo existe um parlamentar que responde na Justiça a 111 processos - por corrupção passiva e lavagem de dinheiro - e ainda continua na vida pública e livre da cadeia?

 

Por fim, onde no mundo roubar descaradamente do povo ganha o poético nome de desvio de dinheiro público?

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Paulo Renato Coelho Netto

Campo Grande (MS) está assim ou daí para muito pior

QUI, 07.04.2016

Dia do Jornalista - 7 de abril

Fiquei na minha, no fundo, quase pedindo para ser invisível

Paulo Renato Coelho Netto

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2 comentário(s)

Trabalhava na editoria de polícia em um jornal em São Paulo. Uma hora da tarde toca o telefone na redação.

 

Havia uma manifestação de moradores na periferia da periferia pelo atropelamento e morte de uma criança por um ônibus.

 

Não tinha carro e chamaram um táxi. Chega um fusca, com um cara aflito. Entro e sinto um cheiro de bosta no ar. Meu banco estava úmido. Calor infernal.

 

Perguntei ao motorista o que havia acontecido ali, com aquele cheiro estranho. Ele contou que tinha acabado de levar um idoso a um posto de saúde, que estava nas últimas.

 

A morte era o prato do dia.

 

Senti um arrepio pelo corpo inteiro, já úmido e untado com aquele cheiro. Não tinha como descer e pegar outro táxi. Era aquele que o jornal ia pagar.

 

Meia hora assim até chegar onde precisava.

 

Em frente ao velório vi a fumaça preta de pneus incendiados no meio da rua. Havia centenas de pessoas. O menino atropelado tinha apenas cinco anos.

 

Fiquei na minha, no fundo, quase pedindo para ser invisível. Só queria anotar o que precisava e ir embora. E a bosta do fusca, literalmente, me esperando.

 

No entanto, alguém disse para a família do garoto que havia um jornalista ali.

 

O pai, então, me encontrou e disse: "Vem aqui comigo. Faço questão que você veja meu filho dentro do caixão para você não escrever que ele era menino de rua. Pelo contrário: ele foi atropelado porque nunca saiu sozinho de casa. Você tem que ver a cara dele".

 

Agradeci mas o pai fez questão, insistiu. E lá fui eu, com uma caneta e um bloco nas mãos.

 

Foi o pior dia da minha vida como jornalista.

 

Lá se foram 24 anos.

 

Hoje vejo muita gente nova querendo ser jornalista para ser apresentador de televisão.

 

Não é assim. Jornalismo é vida real.

 

É a bosta no táxi, o menino morto, o velho que sentou no mesmo banco que eu e que daria, para um repórter, outra excelente história para contar.

 

Até hoje não esqueço de outro menino, com seis ou sete anos, me oferecendo um restinho de iogurte de morango que ele encontrou no lixão de Itaquaquecetuba. "Qué tio? Tá gostoso".

 

Eu lá com ele naquele lixão, entre dezenas de famílias inteiras esquecidas pela sorte...

 

Entrevistei tudo quanto é tipo de gente. Até apresentação de sexo ao vivo, em um cinema só para peão de fábrica, eu fui.

 

Chegou a mulher pelada e os caras entraram em êxtase coletivo na plateia. Gritavam como se fosse final de Copa do Mundo.

 

O ator, vendo aquilo, broxou.

 

Ao perceber a falta de ânimo do ator pornô a peonada veio abaixo. O cara virou alvo e a piada da noite.

 

O show, encomendado e pago por uma fábrica, foi cancelado.

 

A muralha?

 

Considerado indefectível e fiel pelos companheiros, José Dirceu começa a apresentar fraquezas na prisão em Curitiba, seu endereço desde setembro de 2015, onde é réu na Operação Lava-Jato.

 

A defesa apresentou atestado médico apontando que Dirceu é idoso, tem quadro de cefaleia sem melhora há quase um mês, hipertensão arterial de difícil controle, hipercolesterolemia (aumento da concentração de colesterol no sangue), distúrbio de ansiedade e faz uso de medicamentos controlados.

 

Precisa de cuidados médicos não disponíveis no atual endereço, o Complexo Médico Penal, em Pinhais, Região Metropolitana de capital paranaense.

 

Efeitos colaterais da Lava-Jato

 

Após passar praticamente noventa dias preso, a Lava-Jato também não fez muito bem à saúde do senador Delcídio do Amaral (ex-PT/MS). Desde fevereiro ele está de licença médica. Termina uma de 15 dias, pede outra. Alega sofrer de angústia, insônia e ansiedade.

 

Na terça-feira (5) Delcídio foi submetido a uma cirurgia na vesícula no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.

 

É sabido que Nestor Serveró, o diretor da Petrobras que Delcídio do Amaral queria ajudar na fuga do Brasil por questões humanitárias, também precisa de fortes medicamentos controlados na prisão em Curitiba.

 

Outros envolvidos no maior esquema de corrupção brasileiro também têm apresentado problemas semelhantes, como ansiedade, síndrome do pânico e depressão.

 

Alguns sentem ainda uma enorme vontade de falar, falar muito, tudo que sabem. Contar o que sabe será o único remédio para ficar alguns anos a menos na cadeia, que tanto mal faz à saúde.

 

Segundo Roberto Jefferson, delator do mensalão, “cadeia não faz bem a ninguém”.

 

Nem Dilma, Nem Temer

 

“Nem Dilma, Nem Temer, Nova Eleição é a Solução” é o slogan da campanha lançada na terça-feira (5) pela Rede Sustentabilidade, pedindo por nova eleição presidencial.

 

Grito de guerra no Palácio do Planalto

 

“A forma de enfrentar a bancada da bala contra o golpe é ocupar as propriedades deles ainda lá nas bases, lá no campo. E é a Contag, é os (sic) movimentos sociais do campo que vão fazer isso. Ontem dizíamos na passeata: vamos ocupar os gabinetes, mas também as fazendas deles. Porque se eles são capazes de incomodar um ministro do Supremo Tribunal Federal, nós vamos incomodar também as casas, as fazendas e as propriedades deles”.

 

A fala é do secretário de administração e finanças da Confederação dos Trabalhadores da Agricultura (Contag), Aristides Santos, em cerimônia oficial no Palácio do Planalto, dia 1º de abril.

 

Será mentira?

 

Detalhe: entre os ouvintes estava a presidente Dilma.

 

O que mais falta neste país?

 

Relatos Selvagens

 

Filmaço argentino passando na Rede Telecine. Fique atento.

 

É excelente. Daqueles que você pensa “é assim mesmo!”, se emociona, ri e fica aflito.

 

Na Argentina, Relatos Selvagens levou três milhões de espectadores ao cinema.

 

Dirigido por Damián Szifron, o filme é dividido em seis episódios. Todos excelentes.

 

O foco principal é a vingança que toma proporções inimagináveis a partir de fatos comuns do dia-a-dia.


Não perca.

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Reprodução/Filme Relatos Selvagens

O casamento, um dos episódios de Relatos Selvagens

de 23

Paulo Renato Coelho Netto

Criador do Portal Top Vitrine, Paulo Renato é jornalista com pós-graduação em Marketing pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), em Campo Grande (MS). É autor de nove livros, entre os quais "Mato Grosso do Sul", obra em português e inglês e “Minha Vida Até os 40 – Uma biografia de João Leopoldo Samways Filho”. É coautor do livro “Campo Grande, Imagens de Um Século”, obra em português e francês. Foi roteirista dos filmes “Pantanal – Um Olhar sobre o Patrimônio da Humanidade”. Publicou seu primeiro livro aos 19 anos, “Ciência do Beijo”. Trabalhou como repórter no jornal Diário do Grande ABC, em Santo André (SP), e na sucursal em Campo Grande do jornal Gazeta Mercantil. Foi diretor e editor-chefe na TV Morena (Rede Globo) e TV Educativa de Campo Grande. Idealizou e implantou a TV UNAES - Centro Universitário de Campo Grande. Na mesma Instituição de Ensino Superior foi diretor da TV UNAES, responsável pelo site, pelo jornal O Centro e a Assessoria de Comunicação do Centro Universitário.

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