Campo Grande-MS 27.07.2017

Marli Gonçalves

Jornalista

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SEG, 21.03.2016

Carta aos considerados

Olha bem. Perceba que a situação chegou a um ponto insustentável

Marli Gonçalves

Para o Portal Top Vitrine

Escrevo porque considero muito os meus considerados. E vi muitos deles postando imagens de dentro da manifestação em que se vestiu vermelho e, portanto, em apoio ao atual governo. Se for o seu caso e estiver lendo esta, saiba do meu respeito - não deve estar nada fácil se manter neste apoio, dia após dia. Mas não me chame nem de longe, nem em pensamento, de golpista. E também não vire sua cara comigo, que daqui a pouco, todos juntos, espero: vamos rir muito de tudo isso

 

Estamos respirando política. E política aqui no Brasil não é muito saudável, cheirosa, nem oxigenada, muito menos confiável. Momento tenso, muito tenso, desequilibrado mesmo. Bambolê. Até aqui creio que todos concordamos. É o mínimo.

 

E, cá entre nós, o que é o Aécio? Que é aquilo?

 

Isso dito, deixo claro que também quero ver o Eduardo Cunha pelas costas, e que é um absurdo ser ele o condutor do processo de impeachment. Mas está lá. A mesma Justiça que bate em Luiz, baterá um dia talvez quem sabe logo logo nele. Mas ainda não bateu. Não consigo digerir o esgar irônico de Renan Calheiros. E, cá entre nós, o que é o Aécio? Que é aquilo? Onde foi que ele se perdeu dessa forma? Só fala coisas óbvias, repetitivas, como se ensacasse vento, trêmulo, sem convicção. Ficaria páginas listando alguns outros que se revezam diante de nós nos noticiários. Pauderney. Pauderney! Sibá. O bisonho irmão para baixo do Genoíno, da triste lembrança dos dólares na cueca. Caiado. Bolsonaro. Jaquinho, o baiano, o que diz que quer ser até carregador, atarracado no saco do chefe. Tem coisa mais degradante do que a subserviência? O "rapaz", como chamado nos telefonemas, o Cardozo, que algo me diz estar em intensas manobras. O tenso Mercadante aloprado trapalhão. A lista é gigantesca.

 

Mas, meu considerado, por favor! Não fica aí batendo pé, fazendo biquinho, mimimi, repetindo bordões e falsidades se não estiver muito ligado, ganhando, ou ainda se for mesmo um apaixonado ainda não desiludido (ainda, né?). Se está aí acreditando até que deram Metrô grátis para os que protestaram contra o Governo, e você bem sabe que isso não aconteceu, mas continua no transe do social-golpe-direita-esquerda-etc, posso fazer o quê? Adianta mostrar fotos de como teve, sim, trabalhadores de vermelho na manifestação, e também nas faces, rubras, sim, mas por receber dinheiros, carona, uma camiseta e bandeirinha? Promessa de shows. Aliás, showmício.

 

Óbvio que achei o horror a tal lista de artistas para serem boicotados, assim como, por outro lado, achei o horror a lista negra que foi feita de jornalistas que batem no Governo. Acho simplesmente ridícula essa coisa boba contra a TV Globo - até parece que é tudo por causa dela, ou da Veja! - e os argumentos de vir comparar a corrupção quase trilionária que nos assola a camisetas da Seleção, tirar o pirulito da criança, pisar na grama, não dar esmola e ter babá. Ridículo, gente, arrumem coisa melhor.

 

O que vocês chamam de coxinhas e outras palavras mais pesadas que paneladas se trata de todo um mundo com pressa de olhar o futuro, virar a página, voltar a falar de outras coisas como esperança, parar de passar dias com nós no estômago, amargado com as notícias que não param de chegar. Com as coisas que não param de subir. Com os sonhos adiados como castelo de cartas. Com as dificuldades e falta de assistência. Com a paradeira geral e o soluço dos desempregados, endividados. São os verdadeiros estarrecidos esses que se movimentam confusamente em verde e amarelo. São seus amigos, poupe-se de destratá-los. Sou eu, seu vizinho, seu cliente, seu aluno, seu professor. Não são fascistas. Fascista é a ...! Claro, primeiro, se aprender a escrever certo para xingar, o que é raro, raríssimo.

 

Quem protesta? Quem está sentindo na pele. No geral, gente que quer que essa política que tanto envolve vocês em briguinhas de lé com cré simplesmente exploda, boom, daí o rancor. São alguns dos milhões de desempregados. Gente que não está podendo suportar mais o desgoverno, o governo malfeito, trapalhão, despreparado. É de baixo a cima. É total, está sem pé nem cabeça, sem projeto, sem ministros (?!?) sérios, tudo negociado, sem ações positivas, com as casas que dá, caindo, enquanto se constroem arranjos de sítios e triplex. Estradas parecendo campos de guerra. Um mosquito faz zueira e espalha o terror. O conceito cidadão é desvirtuado, trocado por apupos. As obras paradas, as cidades se deteriorando a olhos vistos.

 

Querem o quê? Aparece um candidato a imperador romano tentando atrapalhar as investigações - e, portanto, assinando com firma reconhecida a culpa no cartório. Com a mesma caneta, assina, promovido a ministro. Uma esculhambação geral, Casa da Mãe Joana - se já era esquisito ter um presidente dentro e um fora, dois dentro só pode ter sido ideia de um gênio do Mal, coisa que grassa nesse governo que confunde o tempo inteiro o Estado com as suas gavetas de roupas íntimas, quer usar a nossa escova de dentes. Vocês não podem não estar vendo isso.

 

Eles, esses que batem no peito se agarrando no galho, mudaram; talvez, se você for jovem, não saiba, mas eles mudaram muito do tempo quando apareceram com propostas de mudanças, e eu também os apoiei. Agora estão sambando na corda bamba porque temem apenas deixar o Poder no qual se atarracaram para sugar tal qual carrapatos. Olha bem. Perceba que a situação chegou a um ponto insustentável. Deixaram digitais em todos os lugares, que são muitos, e que se encontram numa pororoca que estourou foi o país de nós todos.

 

A proposta é #vamosnosuniroparanaotergolpenenhum. Bandeira branca, amor.

 

Quer ficar nessa, fica, mas repito, sem me virar a cara nem torcer o nariz que daqui estou só assistindo. Mas uma hora vocês precisarão trocar de líderes se quiserem voltar a ser respeitados. Esses aí têm pés de barro, e a água já passou da canela. Nós, juntos, precisaremos encontrar novos homens de bem, de bem mesmo, se é que me entendem. Digo o mesmo aos exaltados do lado de cá: parem de ignorâncias, por favor, querer atear fogo na caldeira e se mostrando piores do que o que combatem. Sejam mais razoáveis, que os fatos já são bem claros, não precisam salivar.

 

Considerado, usando uma expressão cativada pelo querido Moacir Japiassu, que a todos chamava de considerado. Considerado é uma daquelas palavras completas em sentido, gorda de significados.

 

Considerado, considere considerar que todos nós temos alguma boa dose de razão.

 

Sem mais, cordialmente, eu juro, um forte abraço,

 

Marli Gonçalves, jornalista - Ah, tô na rua sim, porque nunca fui de esperar que ninguém lute por mim, porque bem sei que ninguém lutará. Desejo algo como a lavagem do Bonfim, um novo tempo. Apesar dos pesares.

 

SP, março, 2016

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SEG, 22.02.2016

Vergonha desse país

Vergonha. Se não chove, não tem água. Se chove, acaba a luz

Marli Gonçalves

Para o Portal Top Vitrine

A gente fica meio assim, encabulado, tímido, introspectivo. Às vezes nem comenta, porque já está até chato, mas fica ali matutando, com o assunto na cabeça. Tem sido assim nesse nosso país já faz mais de ano, parece que entramos numa espiral

 

Qual vai ser a próxima? Qual será a frase que nossa presidente dirá e que passaremos a semana inteira ironizando e sacaneando? Será que ela vai citar de novo a volátil mosquita?

 

Quem vai aparecer da tumba, para não morrer deitado, e virá com mais revelações picantes de caráter pessoal? A famosa Rose, do Lula? Daria tudo para conseguir essa entrevista, nesse momento o poço dourado dos jornalistas que cobrem política. Se pudesse estaria no rastro dela - instinto de repórter na veia.

 

Mesmo se eu não a encontrasse, tenho certeza que boas pistas no caminho não falhariam. Guerra é guerra e está visível que nesse momento está deflagrada uma fantástica batalha de ódio e comunicação, uma interessante maratona para ver quem consegue levar o Barba à linha de chegada, aliás, para bem além dela. Ou encontrar quem consegue anular a prova.

 

Será que essa semana, além do constrangimento de ver o senador Delcídio do Amaral, o preso-solto-morto-vivo, adentrar o Senado, vamos ter o Japonês da Federal lá dentro para buscar algum outro? Ou será que o Japonês da Federal vai ter o ego subindo pra cabeça e vai voltar lá só para fazer selfies, inclusive posando pimpão com os investigados?

 

Pode ser que na nossa tevê apareça algum comercial novo, vindo da lama, como se a lama envenenada já não falasse mais alto a cada dia que passa; comercial variado e com outros funcionários sorridentes, bonitinhos, assumindo a culpa e a desculpa. Não tem jeito: você também ainda vai ter de ouvir a propaganda de um vampiro de tez bem branca falar que não devemos aceitar propaganda enganosa dos partidos, e que o dele é que é legal. (!)

 

Por falar nisso, quantas criancinhas não estão comendo nem o lanche que atrai para a educação, porque alguém está abrindo a lancheira no caminho para surrupiar o leitinho, morder a maçã, quebrar o biscoito? Quantos olhinhos cabisbaixos eles mostrarão jurando que não, que merenda escolar é sagrada e aliás eles nem sabiam que existia, como é que iriam roubá-la? O que mais não vamos poder saber enquanto não se passarem 50 anos? Inovador: governo inventa Cápsula do Tempo. Um buraco, as informações dentro de uma caixa, e que só daqui a 50 anos será aberta. Imaginando, né? - a grande importância que coisas deste governo medíocre terão daqui a 50 anos. Ou mesmo hoje.

 

Vergonha.

 

Nós nos rebaixaremos tanto que mostraremos os fundilhos ao mundo que nos observa, num misto de pasmo com curiosidade? Quanto mais se abaixa, diz o provérbio português, mais o fundilho se lhe vê. Aliás, não é exatamente fundilho a palavra que usam. Nem mesmo muitos brasileiros temos ainda capazes de encantar. Jogadores também nos envergonham, e era uma de nossas artes.

 

Que números mostraremos às mães? Quantas serão as crianças doentes? Que acontece que somente agora viram o que a mosquita carregava em seus voos, sem ser incomodada por nada, nem fumaças, nem autoridades sanitárias, ou outra autoridade qualquer, e a lista aumenta, ameaçando severamente a nós todos? Qual bobagem dirá o ministro, se é que ele não vai precisar ir até ali por algumas horas participar de alguma votação importante - para ele?

 

Vergonha. Se não chove, não tem água. Se chove, acaba a luz. O lixo entope os bueiros, água sobe, as árvores caem, as pessoas se desesperam e nada acontece e assim por diante já sabemos o que vai acontecer assim que o céu ruge.

 

Que faremos? Se de um lado nos divertimos com os Trapalhões, de outro temos de ver como substituir esse espetáculo dantesco, e o que se vê diante de nós é tosco demais, filme-B, Z.

 

São Paulo, 2016, sonhos de uma noite de verão

 

Marli Gonçalves, jornalista - Só cantando, com o grande Nélson Cavaquinho, porque tem coisas que a gente não pode falar. (...) "É o juízo final. A história do bem e do mal. Quero ter olhos pra ver. A maldade desaparecer" (...)

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SEG, 15.02.2016

Rolezinhos e rolezões

A classe média empunhando bandeiras pela mesma avenida

Marli Gonçalves

Para o Portal Top Vitrine

O povo sai às ruas, ordeiro, em multidões para cantar, dançar e seguir o trio elétrico em um movimento que é preciso, sim, parar, para ver e entender. Algo novo está se formando e pode ser bom, pode ser que sim, pode ser que não. Estamos gostando de ficar nas ruas gastando o menos possível, escuta só

 

Eu fui ver. E achei muito interessante e esclarecedor. Lembrem que estou em São Paulo, não falei em Banda de Ipanema, nem em Salvador, nem em Ivete, nem no Galo da Madrugada. Aqui os blocos de verdade só saíam de alguma forma meio tímidos, como os históricos esfarrapados, ou para lascar como os que se enturmam em uma alcoolizada Vila Madalena. Com algum famoso até tinha mais divulgação.

 

Este ano, não. A coisa estourou. O fim da semana do Carnaval e as pessoas ainda estavam nas ruas centrais "enterrando ossos" num movimento meio desorganizado, mas muito real. Foram dias que bastava um caminhãozinho com um alto-falante, e lá se vai atrás o grupo cantando sucessos muito antigos, outros muito novos, marchinhas, mesclando com funk, rock n´roll, sertanejo. Até bloco de música eletrônica vi passar. Impressionante o número de blocos e grupos, interessante a criatividade de seus nomes, de suas motivações, fantasias e - preciso dizer - diversidade. Todas as opções, inclusive sexuais, todas as raças, todos os credos, todos os tamanhos, altura e largura.

 

Na cidade que ficava vazia meio fantasma no Carnaval, pelas ruas, no metrô, nas estações, nos pontos de ônibus, os bloquinhos: víamos homens musculosos com vestidos justos - homem, sempre que se veste de mulher, vai no fetiche e pensa que é preciso sair bem no tipo chamado periguete; perucas coloridas, muitas bailarinas e seus frufrus, algumas havaianas (desde menina, sempre gostei de fantasia de havaiana), asas de anjo, véu, grinalda e buquê; outros resolveram ir de "redes sociais". Vi gente fantasiada de perfil de Tinder, de Instagram. De super-heróis. Fantasias baratas, leves. Muitos carregavam pesadas sacolas de supermercado, bolsas térmicas e mochilas abastecidas, repletas de cerveja. Na outra ala da crise, uma onda enorme também se espalhou, de novos e oportunos vendedores no mercado, e que apareceu empurrando carrinhos com isopor repletos de cerveja e uma recém descoberta bebida de catuaba, sucesso que só de olhar já deixa meio tonto.

 

Vivemos outros carnavais. Não consigo concluir se foi só retrato desse ano duro que passamos e do ano duríssimo que viveremos, em uma outra forma de manifestação, com todas as cores livres e misturadas e sons muito além de hinos cantados a capella. Precisaremos esperar os próximos movimentos desse tabuleiro, mas algo me diz que é sim continuidade, expansão de uma nova forma de extravasar. Os meninos ocupando as escolas e parando as avenidas, desafiando os policiais com um certo e irônico sorriso já era um sinal. Os aposentados ocupando a Paulista com uma comissão de frente formada por macas já era prenúncio. A classe média empunhando bandeiras pela mesma avenida.

 

É para desopilar o tal do grito engasgado? A vontade de nos alienarmos de vez diante da súcia que se nos apresenta, dessa matula que temos de ver às nossas custas; dessa farândola, da corja. Da choldra. Coletivos que uso para não xingar e não parecer deselegante como tem hora dá vontade, e como resmungamos vendo o noticiário da tevê anunciando impostos para resolver erros, e a realidade de como os desvios nos atrasam.

 

Há vários rolês marcados já para os próximos dias. Chamamos de rolezinhos os dos grupos de garotos de periferia invadindo shoppings, liderados por um famosinho, feito em redes sociais e vídeos.

 

Haverá, enfim, bons rolezões? Rolê é ir dar uma volta, um passeio, um giro. É o bife enrolado, enrolados igual estão nossos governantes, ex-governantes e até os ex-futuros governantes que já ficam pelo caminho e não conseguirão nem alçar voo, derrubados por revelações surpreendentes do que fizeram nos carnavais passados.

 

A programação será mesmo intensa.

 

São Paulo, ano bissexto, 2016

 

Marli Gonçalves, jornalista - Só para lembrar: rolê é diferente do footing, aquele do interior, feitos nas praças onde os rapazes giram em um sentido enquanto as moças passam em outro, cruzando apenas olhares furtivos. Aqui a gente já está precisando chegar nas ruas e praças de mãos dadas e andando todos em uma mesma direção.

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Arquivo pessoal

A jornalista Marli Gonçalves

de 60

Marli Gonçalves

É jornalista e atual Diretora da Brickmann&Associados Comunicação, B&A. Tem 35 anos de atuação na profissão. Na área de consultoria e comunicação empresarial foi, de 1994 a 1996, gerente de imprensa da multinacional AAB, Hill and Knowlton do Brasil (Grupo Standart. Ogilvy & Mather). Foi do Jornal da Tarde, da Rádio Eldorado, com passagem pela Veja SP. Participou ainda, nos 80, de várias publicações, entre elas, Singular & Plural, Revista Especial, Gallery Around (com Antônio Bivar), Novidades Fotóptica, A-Z, Vogue. Na área política, entre outros, foi assessora de Almino Affonso, quando vice-governador de São Paulo, e trabalhou em campanhas para Fernando Gabeira e Roberto Tripoli, PV. Na B&A, tem cuidado de Gerenciamento de Crises, ao lado de Carlos Brickmann. Desde 2008 escreve crônicas semanais que são publicadas em jornais, revistas e sites de todo o país. Blog no HTTP://marligo.wordpress.com Twitter: @MarliGo. marli@brickmann.com.br Os artigos são publicados originalmente nos sites www.brickmann.com.br e no marligo.wordpress.com. É colaboradora do Portal Top Vitrine desde setembro de 2012.

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