Campo Grande-MS 22.07.2017

Frei Betto

Frade Dominicano e Escritor

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TER, 12.04.2016

A velha Bíblia e a nova arqueologia

Os hebreus nunca conquistaram a Palestina. Sempre viveram ali

Frei Betto

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Os relatos bíblicos do Antigo Testamento são históricos? Abraão, Isaac, José, Moisés e Davi existiram de fato ou são criações literárias como Ulisses, Dom Quixote e Hamlet?

 

Até meados do século XIX, pastores, sacerdotes, teólogos dedicados à pesquisa com a picareta em uma mão e a Bíblia na outra eram a maioria dos arqueólogos... Desde então, as investigações sobre a historicidade dos relatos passou a depender de uma arqueologia descomprometida de interesses religiosos.

 

Novas técnicas são, agora, utilizadas, como o carbono 14, a fotografia aérea, o geo-radar (que revela dados do subsolo), o paleomagnetismo (baseado na inversão da polaridade da Terra), os métodos de potássio árgon, datação radiométrica, medição da idade da matéria orgânica, termoluminiscência (para calcular a antiguidade da cerâmica), e a interpretação de idiomas antigos, o que quebra a mudez de inúmeros documentos.

 

Hoje se questiona se houve, de fato, a suposta migração de tribos provenientes da Mesopotâmia rumo ao oeste, com destino a Canaã. A arqueologia ainda não encontrou nenhum indício daquele deslocamento massivo de população.

 

As histórias dos patriarcas bíblicos (2000-1700 a.C.) estão repletas de camelos (Gênesis 24, 10). Ora, o dromedário só foi domesticado no fim do 2º milênio antes da nossa era e teve de esperar mais mil anos para ser utilizado como animal da carga no Oriente Médio.

 

É fato histórico o êxodo, a travessia do deserto, ao longo de quarenta anos, pelos hebreus libertados do Egito? Desde o século XVI a.C. o Egito ergueu, das margens do Nilo até Canaã, fortes militares. Nada escapava àquelas guarnições. E quase dois milhões de israelitas em fuga não lhes poderiam passar despercebidos. No entanto, nenhuma estela da época registra aquele movimento migratório. Tal multidão não poderia ter atravessado o deserto sem deixar vestígios. O que se encontram são ruínas de casarios de 40 a 50 pessoas, nada mais. A menos que a horda de escravos libertos, alimentada pelo maná que caía do céu, jamais tenha se detido para dormir e comer...

 

Os hebreus nunca conquistaram a Palestina. Sempre viveram ali. Os primeiros israelitas eram pastores nômades instalados nas regiões montanhosas de Canaã desde o século XII anterior à nossa era. Ali, umas 250 comunidades, muito reduzidas e isoladas uma da outra, viveram da agricultura. Eram tribos que passavam, com facilidade, do sedentarismo ao nomadismo.

 

Supõe-se que, em fins do século VII a.C., funcionários da corte hebraica foram encarregados de compor uma saga épica, composta de uma coleção de relatos históricos, lendas, poemas e contos populares, para servir de fundamento espiritual aos descendentes da tribo de Judá. Criou-se, assim, uma obra literária, em parte elaboração original, em parte releituras de versões anteriores.

 

O conteúdo do Pentateuco ou da Torá teria sido elaborado 15 séculos depois do que se supõe. Os líderes de Jerusalém iniciaram uma intensa campanha de profilaxia religiosa e ordenaram a destruição dos santuários politeístas de Canaã. Ergueu-se o Templo para que fosse reconhecido como o único local legítimo de culto do povo de Israel. Daí resulta o monoteísmo moderno.

 

No período persa (538-330 a.C.), o povo hebreu, após o exílio na Babilônia, viveu na pequena província de Yehud. Estava fragilizado econômica e politicamente. Seu Deus havia sido derrotado pelo do império babilônico. Como conciliar tamanha frustração com o sonho de ser o único povo eleito de Javé? Graças ao persa Ciro, que os libertou, os hebreus recuperaram a autoestima ao criar uma coletânea de relatos sobre as façanhas do Deus único, histórico, supranacional e senhor do Universo.

 

De Abraão a Davi, a narrativa bíblica é um mito fundacional, assim como Virgílio, em sua Eneida, criou a fundação mítica de Roma por Eneias. Os vencidos reescreveram a história, destacaram-se em uma epopeia acima de todos os povos e resgataram a própria identidade.

 

Portanto, a Bíblia não caiu do céu. É obra de um povo sofrido, cujo sentimento religioso o levou a se empenhar em descobrir um novo rosto de Deus e recriar sua identidade histórica. Isso, sim, foi um milagre.

 

Tais descobertas científicas não abalam a fé, exceto a daqueles que baseiam suas convicções históricas nos relatos bíblicos. A fé, como o amor, é uma experiência espiritual, um dom divino, e quando madura não se apoia nas muletas da ciência, assim como a matemática e a física não dispõem de equação que possa explicar o que une duas pessoas que se amam.

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TER, 05.04.2016

Cooperação ou competição?

A bússola da ciência é a ética, como bem demonstrou Aristóteles

Frei Betto

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A universidade deve nortear seu objetivo pedagógico para impedir que se torne uma torre de marfim e seja capaz de criar vínculos efetivos entre os alunos e professores e os vários setores da nação que refletem as demandas mais urgentes da população. Buscar respostas a essas perguntas: como a universidade se relaciona com os sindicatos, as cooperativas, os movimentos sociais, os novos empreendedores? Como se prepara para as reformas econômicas e sociais?

 

Tanto no mundo capitalista quanto no mundo socialista as universidades trafegaram do humanismo regado a água benta ao racionalismo cientificista abraçado ao mito positivista da neutralidade científica. Ora, a bússola da ciência é a ética, como bem demonstrou Aristóteles. E a ética é o leque de valores que incorporamos para tornar mais digno e feliz nosso breve período de vida a bordo desta nave espacial chamada Planeta Terra.

 

Eis a questão central de um projeto estratégico pedagógico verdadeiramente revolucionário, capaz de deter as graves contradições da razão instrumental que, em nome de acelerados avanços científicos e tecnológicos, ainda provoca devastação ambiental, a ponto de a natureza em nosso planeta perder a sua capacidade de autorregeneração, a menos que haja intervenção humana.

 

Em tempos de pós-modernidade ameaçada de ter como paradigma, não a religião do período medieval, nem a razão do período moderno, mas o mercado, a mercantilização de todos os aspectos da vida humana e da natureza, tão bem denunciada pelo papa Francisco em sua encíclica socioambiental Louvado sejas – sobre o cuidado da casa comum, a universidade é interpelada por uma questão ontológica: como lidar com a experiência subjetiva de mundo de seus professores e alunos?

 

A experiência subjetiva de mundo de cada ser humano é uma questão que jamais a ciência poderá equacionar. Nem mesmo a linguagem é capaz de traduzi-la, embora haja formas de expressão que tentam aprender o alfabeto dos anjos, como a filosofia, a religião e a arte. Em fase de transição civilizacional, como a atual, precisamos de uma nova ontologia ecossocialista.

 

É aqui que se coloca o desafio ideológico para o projeto estratégico pedagógico da universidade. Os profissionais que ela forma fazem uma experiência subjetiva do mundo centrada em valores alheios à universidade? Esses valores estão ancorados na solidariedade, no altruísmo, na cooperação, ou na ambição egocêntrica, no individualismo, na competitividade?

 

Esse humanismo deveria ser a estrela-guia de nossas universidades, capaz de nortear todas as pesquisas científicas, os inventos tecnológicos, a formação de profissionais e de homens e mulheres devotados à política e à administração pública.

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SEG, 04.04.2016

PMDB: Hay gobierno, soy a favor!

A família peemedebista se perpetua nas instâncias do poder

Frei Betto

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Ei-lo: o Partido do Movimento Democrático Brasileiro à frente do poder legislativo brasileiro: o Senado (Renan Calheiros) e a Câmara dos Deputados (Eduardo Cunha). Os dois, investigados pela Lava-Jato! Nem na Roma antiga, republicana, tal fenômeno parecia possível. Em nome da divisão de poderes, as famílias nobres cultuavam a diversidade como antídoto ao absolutismo. Aqui não; a cobra fuma e engole a fumaça.

 

O PMDB pulou fora do barco do governo e se joga nos braços da oposição. De fato, é um partido repartido em tendências inclusive antagônicas. Nele há de tudo, desde o testemunho ético de um Pedro Simon às recorrentes denúncias de corrupção que historicamente pesam sobre alguns de seus líderes. Ele pratica, mais que a democracia, a demoarquia, originária do verbo grego archein, que significa ser o primeiro, estar à frente, no sentido de comandar processos.

 

Quem diria que o PT seria politicamente atropelado pelo trator do partido dirigido por aqueles que aprenderam a conjugar assim o verbo poder: eu posso, tu podes, ele pode; nós podemos, vós não podeis e eles não podem, a menos que rezem pela nossa cartilha e favoreçam nossos interesses corporativos. É a corporocracia.

 

Ora, pra que debater a alternativa parlamentarista? Ou quem sabe estamos, sem nos dar conta, em plena monarquia! A família peemedebista se perpetua nas instâncias do poder com direito a conceder a correligionários e aliados cargos e prebendas.

 

Haja o que houver, estamos em mãos do mais despudorado fisiologismo, cujos discursos sobrevoam eloquentemente as práticas do clientelismo e do compadrio. Se o mundo gira e a Lusitana roda, os governos se sucedem e o PMDB impera. Hay gobierno, soy a favor, grita a ala dos peemedebistas acostumada a mamar nas tetas da máquina pública...

 

E o que tanto aspira este partido que jamais soçobra nas turvas águas da conjuntura? Como é possível contracenar com a ditadura e celebrar a democracia? Ora, basta dar a presidência do antigo partido de suposta oposição à ditadura, o MDB, ao presidente da Arena, José Sarney, partido de defesa da ditadura...

 

O PMDB persegue uma só meta, um só objetivo, tem uma só ambição: o poder. Se muitos sucumbem às tentações do poder, do dinheiro e do sexo, a ala fisiologista do PMDB, se vivesse no Paraíso, não teria caído no conto da maçã, e sim tentado convencer Javé de que o mundo seria melhor tendo-a como braço direito.

 

Coitado do doutor Ulysses! Conta Homero, na Odisseia, que Ulisses encontrou, na Ilha das Sereias, curiosas criaturas com cabeças e vozes de mulheres, mas com corpos de pássaros que, com doces canções, atraíam marinheiros ao encontro das rochas. Quando o barco se aproximou, uma calmaria se abateu sobre o mar, e a tripulação utilizou os remos. De acordo com as instruções de Circe, Ulisses tampou os ouvidos da tripulação com cera, enquanto ele próprio foi amarrado ao mastro, de modo que pudesse ouvir a canção e passar a salvo pelo perigo. "Aproxime-se Ulisses!", cantavam as sereias. Ulisses resistiu, mas quantos, a bordo do transgoverno chamado PMDB, são capazes de tampar os ouvidos ao canto das sereias?

 

Narra ainda Homero que Penélope, fiel esposa de Ulisses, resistiu a todos os pretendentes, até que surgisse um homem capaz de atirar com o arco que Ulisses tendeu. Nenhum deles o conseguiu. Até o dia em que um mendigo pediu para atirar e, na mesma hora, Penélope reconheceu nele seu amado Ulisses.

 

A democracia brasileira espera, como Penélope, o dia em que possa reconhecer sua plenitude na inclusão social daqueles que, hoje, se nos apresentam como maltrapilhos e oprimidos.

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Frei Betto

Doutor honoris causa pela Universidade de Havana, Frei Betto é frade dominicano, conhecido internacionalmente como teólogo da Libertação. É autor de 60 livros de diversos gêneros literários, –romance, ensaio, policial, memórias, infanto-juvenis e temas religiosos. Em duas oportunidades - 1985 e 2005 - recebeu o Jabuti, prêmio literário mais importante do Brasil. Em 1986 foi eleito "Intelectual do Ano" pela União Brasileira dos Escritores. É assessor de movimentos sociais como as Comunidades Eclesiais de Base e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Frei Betto participa ativamente da vida política do Brasil nos últimos 50 anos. Desde maio de 2012 é articulista semanal do Portal Top Vitrine.

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