Campo Grande-MS 26.04.2017

Eliane Oliveira

Na Itália com Eliane Oliveira

compartilhe:

SEX, 25.09.2015

Filme A que horas ela volta? causa perplexidade na Itália

Uma pessoa da família não dorme em um cubículo de pouca ventilação

Eliane Oliveira

Para o Portal Top Vitrine

“A que horas ela volta?” está em cartaz na Itália com o título, em italiano, “E' arrivata mia figlia” (A minha filha chegou). O que o filme trouxe, mesmo, foi surpresa, perplexidade. Choque total! Os italianos me perguntaram: “Mas é verdade? Isto acontece no Brasil?” Que vergonha ter que responder afirmativamente. Vergonha alheia.

 

Poderia aqui enumerar todas as formas e possibilidades de leitura deste filme. Algumas das frases abrem um mundo desconhecido aos europeus: “Ela já faz parte da família.”

 

Só que uma pessoa da família não dorme em um cubículo de pouca ventilação que mal cabe uma cama, perto da cozinha ou da lavanderia. Uma pessoa da família não senta à mesa para comer sozinha o que sobra, depois que todo mundo da casa já fez a refeição. Uma pessoa da família não ordena a outra: “tire a mesa, me traga um copo d'água”. Uma pessoa da família, como diz a personagem Jéssica, não é melhor do que ninguém, mas também não é pior. É igual. Com os mesmos direitos e necessidades.

 

Esta falta de igualdade -, este tratamento colonial de senhor e escravo, o dormir no emprego, o estar sempre à disposição - deixa um italiano estarrecido. Porque um trabalhador precisa ter o intervalo para o almoço, precisa ir para casa dele cuidar da própria vida. Precisa viver! E aqui se vive, e se vive bem, sem empregada, como acontece em todos, todos, os países da Europa.

 

As pessoas que ajudam (note bem: ajudam), com as tarefas domésticas, são pagas por hora. A média, em Milão, é de 10 a 12 euros/hora. Elas chegam em casa com hora pra começar e terminar o trabalho. Terminou dentro daquele horário, ótimo. Não terminou fica para a próxima vez. Se ficar 15 minutos a mais, paga-se 15 minutos a mais. E se a ajudante vier para limpar, ela limpa. Não lava a louça do jantar da noite anterior. Não cuida das crianças enquanto a dona da casa vai ali e já volta. Não passa a roupa. Um trabalho é limpar. Outro é ser babá. Outro, ainda, é passar. É difícil que uma pessoa assuma o compromisso de fazer uma faxina em um horário que interfira na hora do almoço porque aquele é o momento em que ela pára, como todo mundo, para fazer uma refeição. Se por acaso acontecer, como já aconteceu na minha casa, do trabalho estender-se por mais tempo, a ajudante senta-se à mesa e come com a família. E não é ela quem, depois, tira os pratos.

 

É raro encontrar uma família que tenha uma ajudante o dia inteiro em casa, cinco dias por semana. Primeiro porque não é considerado normal e natural ter alguém que cuide do seu lar, dos seus filhos. Segundo pelos custos. Se é um trabalho tão precioso é justo que seja bem pago. Quem o faz precisa ganhar o suficiente para que possa levar uma vida digna, com qualidade, para que possa, por exemplo, viajar de férias, vestir-se bem, frequentar um cinema. Viver! O salário para esta pessoa tão importante equivale a metade e mais um pouco do que ganha um jornalista, um médico do sistema público, um bancário. E é quase o que ganha um professor. Tanto para citar alguns exemplos.

 

A vida, sem uma empregada doméstica é, sem dúvida, mais corrida. Muito mais corrida. Médicos, empresários, professores, engenheiros, jornalistas, cientistas... Todos, depois de um dia inteiro de trabalho, ao chegar em casa, cuidam do lugar onde vivem. Limpam os banheiros, colocam as roupas na máquina pra lavar, passam as roupas, cozinham e cuidam dos filhos. E no sábado, em dias de sol, é comum ver os pais nos parquinhos com as crianças enquanto as mães fazem a limpeza que não foi possível fazer durante a semana. Tudo normal. O anormal para um europeu é que alguém cozinhe para você e limpe o que você sujou. Porque são coisas que todos nós podemos fazer. É vergonhoso delegar.

 

As crianças crescem vendo que é assim que deve ser. Todo mundo aprende, desde cedo, a contribuir, segundo a idade e a capacidade. Meus filhos, de 10 e 4 anos, ajudam a arrumar e desarrumar a mesa, colocam os brinquedos no lugar quando não os usam mais, veem o pai que cozinha e faz compras de supermercado. Enfim, em uma família divide-se as tarefas de acordo com o tempo disponível e a idade de cada um.

 

Surpreende-me que alguns brasileiros não enxerguem este relacionamento que eu chamo de colonial. Meu marido, italiano, comentou com uma amiga brasileira o choque que levou ao ver na tela o que já havia constatado quando esteve no Brasil. A resposta da amiga foi: “eu realmente sentia muita culpa por deixar os meus filhos ao ir trabalhar.” Ela não colheu o ponto crucial do filme: o relacionamento entre as pessoas da família e a empregada.

 

Há, ainda, o outro lado da medalha. O das empregadas que acreditam que esta condição de inferioridade seja normal. Como diz Val, no filme, respondendo à polêmica da filha quando questiona onde estão escritas aquelas regras restritivas: “Têm coisas que a gente já nasce sabendo.”

 

Hoje, no Brasil, não bastam leis que assegurem mais direitos a estas trabalhadoras. É preciso mudar a mentalidade. E, como em toda sociedade que vive à sombra da escravidão velada, a mudança deve vir de quem trabalha. De quem é explorado. A partir do momento em que as empregadas domésticas começarem a dizer não, aí sim, alguma coisa vai começar a mudar.

 

Eu começaria eliminando das novas casas, em construção, o quarto de empregada e dos prédios o elevador de serviço. E o que dizer do vocábulo patrão, sinônimo de proprietário?!

 

Nota da Redação

 

Confira o trailer oficial do filme “Que horas ela volta?”

 

www.topvitrine.com.br/tv/que-horas-ela-volta

O Portal Top Vitrine não se responsabiliza por artigos assinados ou de origem definida.

Reprodução

Roteiro de Anna Muylaert e estrelado por Regina Casé

QUI, 12.02.2015

Itália, um país de idosos

Hoje, é, de fato, um dos países com o maior índice de idosos do mundo

Eliane Oliveira

Para o Portal Top Vitrine

1 comentário(s)

A Itália é um país de idosos. A cada ano que passa esta realidade torna-se mais visível. Aqui se sofre de desnatalidade. Taxa de fecundidade que, se sustentada, torna cada nova geração menos populosa que a anterior em uma determinada área.

 

Os últimos dados do Istituto Nazionale di Statistica (ISTAT) demonstram que o número de nascimento e de mulheres que dão à luz, na Itália, chegou ao mínimo histórico.

 

Hoje, ¼ das italianas (25%) escolhe não ter filhos contra, por exemplo, 14% das mulheres americanas e 10% das francesas.

 

O recorde absoluto é o de 2013 (o último estudo) quando nasceram menos crianças desde que a Itália existe. Foram 515 mil nascimentos, 11 mil a menos do que o recorde anterior de 1995 e menos do que nos anos das duas grandes guerras.

 

Nunca, como agora, contou-se tão poucos recém-nascidos. A média é de 8,5 bebês para cada mil habitantes. É assim que a Itália chegou ao fundo da lista europeia no item natalidade.

 

Hoje, é, de fato, um dos países com o maior índice de idosos do mundo. Em janeiro de 2013 se contava entre a população residente 151,4 pessoas com idade acima de 65 anos para cada 100 jovens com menos de 15 anos.

 

Pelas estimativas, até 2050 teremos 263 idosos para cada 100 jovens. Entre tantas consequências há o desmoronamento do sistema previdenciário. Quem vai pagar a aposentadoria destes idosos quando vive-se por longo tempo e se tem menos filhos?

 

Sobre as causas deste baixo índice de natalidade há tantas teorias. As mulheres italianas dedicam tanto tempo a um percurso de formação profissional e os principais anos de vida reprodutiva são gastos em bancos de universidades.

 

Depois do diploma espera-se por uma estabilização econômica. Junto com este momento chega, inevitavelmente, a enorme dificuldade em conciliar trabalho e família.

 

Trabalhar, para muitas mulheres, significa sustentar um custo econômico e pessoal muito alto. As italianas, também, são bem mais escrupulosas nos cuidados com os filhos. De fato, só a metade das mulheres com crianças trabalha.

 

A ideia de que um filho cresça nas mãos de uma babá não é vista como natural. Sem pesar os gastos que isto implica. Por estas bandas, onde a diferença social entre as classes é bem menor do que no Brasil, os custos para manter uma pessoa trabalhando em casa durante todo o dia representam a metade de um bom salário. Fator que considero mais do que justo.

 

Os anos de crise que tardam a passar trazem, ainda, uma preocupação com o futuro e, cada vez mais, os italianos demonstram menos confiança nos governos que deveriam tutelar a maternidade e a paternidade.

 

Segundo a pesquisa, 61% da população acredita que os casais seriam mais propensos a terem filhos se o Estado fizesse a sua parte introduzindo detrações fiscais segundo o número de filhos, mais escolinhas e políticas de sustento às famílias, como acontece em alguns países europeus.

 

Eu estou entre as mulheres que contribuem para ampliar o alto índice de quem renuncia a um trabalho formal para cuidar das crias.

 

Filho é de pai e mãe e, sinceramente, tenho dificuldades em pensar que outra pessoa, que não seja eu ou o pai deles, os acompanhe todos os santos dias, das atividades mais banais às crises existenciais naturais de quem descobre o mundo.

 

Por sorte, por mérito, por escolha, por determinação, por sacrifício, ou por tudo isto junto, eu pude, e ainda posso estar ao lado dos meus filhos. Sempre.

 

O Estado italiano? Quando os nossos governantes começarem a olhar para os investimentos públicos em prol das mães e filhos, então, e só então, teremos menos berços vazios na Itália.

O Portal Top Vitrine não se responsabiliza por artigos assinados ou de origem definida.

QUA, 22.10.2014

Confissões de uma brasileira na Itália

A primeira delas: as manicures não sabem fazer as unhas

Eliane Oliveira

Para o Portal Top Vitrine

Vivo na Itália há anos, adoro este país, mas há algumas coisas com as quais eu não me acostumei. Ou melhor: me acostumei, mas não gosto.

 

A primeira delas: as manicures não sabem fazer as unhas. Não têm ideia do que é tirar uma cutícula. Tão menos conhecem o nosso alicate. Aliás, eu acho que elas nem poderiam ser chamadas de manicures.

 

Nestes anos todos de vida na Itália, eu tentei fazer as unhas uma única vez. A moça só empurrou a cutícula e deixou tudo lá. Ela leu nos meus olhos a minha perplexidade mas não sabia o porquê e nem perguntou.

 

E o esmalte?! Elas passam só no meio deixando tudo em volta sem pintar.

 

- Mas você não vai pintar tudo?

 

- Tudo o quê? Eu já pintei!

 

- Mas por que fica assim?

 

- Pra unha respirar, claro.

 

- Claro! Eu respiro pelo nariz!

 

Foi o bastante pra desistir e começar a arrancar os meus bifes sozinha e até hoje é um vai e vem de alicates pra amolar no Brasil.

 

Ah! A sensação de dever algo sem nunca ter pedido emprestado!

 

Quando recebo um presente de alguém, sinto como se estivesse fazendo um débito. Se este presente vier da Sicília, então, onde mora a família do meu marido, é ainda mais comprometedor. Sim, porque quando for a minha vez de presentear terei que levar em consideração o que eu recebi daquela pessoa antes. Ou seja, o presente tem que ser, mais ou menos, do mesmo valor.

 

Observando o lado positivo, penso que quando presenteio alguém estou fazendo uma caderneta de poupança. Mais cedo ou mais tarde o que eu gastei volta pra mim. Só espero, sempre, que não seja em dobro porque, assim, a aposta aumenta cada vez mais.

 

E quando alguém convida para um jantar ou um almoço? Mais cedo ou mais tarde, é preciso retribuir este convite com um outro almoço ou um outro jantar e depois a pessoa vai retribuir o convite que você retribuiu e você retribui de novo. Por vezes um italiano já sai da casa da pessoa dizendo: “a próxima vez é lá em casa.” Detesto este débito.

 

Nos restaurantes é o garçom ou o responsável pela organização quem decide onde o cliente senta. Entra-se, espera-se alguém, diz quantas pessoas são e o cara indica a mesa. Se for um lugar que pouco agrada é preciso pedir se não é possível escolher uma outra mesa e esperar a resposta. Nada de ir entrando e sentando.

 

"Ninguém se abraça quando se encontra"

 

Fare bella figura que nada mais significa do que causar boa impressão. Não. Ótima. Ter sempre um bom aspecto, uma elegância, na Itália, é um estilo de vida. Precisa ser muito íntimo, mas muito mesmo, para abrir a porta de casa a alguém de chinelos nos pés.

 

Qualquer coisa que se faça é preciso fazer o possível para que pareça o melhor enquanto se está fazendo. É o inato senso de beleza formal que parece quase determinado pela genética. Acho que vem do Renascimento e que hoje se manifesta na moda, na arquitetura e no design. Até aí tudo bem. O duro é quando toca os pequenos hábitos do dia a dia.

 

Entre os europeus, o italiano, junto do espanhol, não é o tipo dos mais frios. Coloque-o junto com um suíço ou um alemão pra ver quem é mais gelado. Porém compare-o com o brasileiro e o italiano vira um suíço.

 

Tudo muito relativo. Relativo ou não, ninguém se abraça quando se encontra. Só mesmo, e olhe lá, os italianos do sul. A menos que você esteja chegando de uma longa viagem, é um parente ou um amigo, muito amigo, íntimo íntimo, e já entendeu que tem na frente uma brasileira que adora o toque, o abraço apertado. Eu até ensinei o abraço longo, bem brasileiro, para uma (veja bem: uma) amiga italiana. Melhor do que nada!

 

Menos assustador é pensar que a gente se acostuma a tudo. Tudinho! Lá se vão 15 anos que eu mesma faço as minhas unhas, que pago débitos que não contraí, que, por vezes, sento onde o garçom me indica e que me esforço pra causar boa impressão até quando não seria necessário.

 

O abraço? Ah! Este vem dos meus filhos e assim eu começo e termino todos os meus santos dias. Pra pra não ceder próprio em tudo, contrariando as regras, eu continuo abrindo a porta de chinelos nos pés. E se for havaianas é quase chique por estas bandas!

O Portal Top Vitrine não se responsabiliza por artigos assinados ou de origem definida.

de 5

Eliane Oliveira

É jornalista formada pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). É autora do livro “Português do Brasil", o primeiro curso de português específico para italianos (Editora Hoepli/2014). No Brasil passou boa parte do tempo dentro de uma redação ou de um estúdio de TV. Foi repórter, editora, editora-chefe, apresentadora de telejornal, roteirista e editora de texto de documentários e informes publicitários. A cada dois anos parava tudo pra dedicar-se à comunicação nas campanhas políticas. Sempre dentro de uma redação ou de um estúdio. Criou, em sociedade, a Midianova Assessoria em Comunicação, desenvolvendo projetos de assessoria de imprensa em vários setores. Em novembro de 2000, depois de dois anos de vai e vem, mudou-se para Milão, na Itália, de mala, cuia e CDs. Tudo por amor. Mora em Milão e hoje a quem pergunta define-se assim: brasileira de nascimento, italiana por escolha, jornalista de profissão, tradutora e professora de português por paixão. Criou um programa e um método de ensino de português específico para italianos. Desde que vive na Itália ministra cursos de formação de português como língua estrangeira e trabalha como tradutora. Ainda que fora das redações e dos estúdios, continua escrevendo para manter o idioma aceso na mente e por vício. Eliane Oliveira escreve artigos para o Portal Top Vitrine desde junho de 2013.

Filtrar Resultados

Utilize a busca avançadas do site para encontrar o que deseja.

Blogs & Colunas

Utilize a busca avançadas do site para encontrar o que deseja.