Campo Grande-MS 27.07.2017

Eliane Oliveira

Na Itália com Eliane Oliveira

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SEG, 25.04.2016

Aos olhos da Itália, os escândalos e a crise brasileira

Uma crise de igual proporção os italianos viveram nos anos 90

Eliane Oliveira

Para o Portal Top Vitrine

Não é lá todo dia, mas ultimamente não há uma semana em que os jornais italianos não falem da grave crise brasileira e dos escândalos. Citam uma corrupção em constante aumento, falam como o escândalo Petrobrás não serviu de lição para a classe dirigente. Explicam, claramente, o mensalão, o caso Pasadena, e quantificam o dinheiro desviado dos cofres públicos em propinas. Contam os fatos de um jeito que quem não sabia de nada pode bem entender. Quem sabe, e acompanha, vê crescer a indignação dentro de si. A última matéria, publicada no Jornal “Il fatto quotidiano”, fala que o governo brasileiro, nos fatos, continua negando a retórica das suas declarações, e que a imprensa minimiza toda a questão.

 

Um escândalo e uma crise de igual proporção os italianos viveram nos anos 90. Foi designado como “Mani Pulite”, Mãos Limpas. O termo indica uma série de processos judiciários caracterizados por uma, também, série de investigações em toda a Itália, envolvendo políticos, instituições e setores da economia. Tudo trouxe à luz um grande sistema de corrupção, extorsão e financiamento ilícito aos partidos nos mais altos níveis do mundo político e financeiro do País.

 

As investigações, conduzidas por um grupo de magistrados da Procuradoria da República de Milão, estenderam-se por todo o território italiano. Deram vida a um suceder-se de protestos, suscitaram a opinião pública criando bases para uma revolução na política italiana. Alguns partidos históricos, como a Democrazia Cristiana, o Partito Socialista italiano, PSDI – Partito Socilaista Democratico Italiano foram aniquilados depois do processo “Mani Pulite.” Da série: eliminar tudo para recomeçar.

 

"Mani Pulite é a história de uma revolução e como todas as revoluções produz vítimas. O processo durou menos de três anos. De 17 de fevereiro de 1992 a dezembro de 1994. Neste período foram dezenas de suicídios"

 

O balanço final, atualizado pela Procuradoria de Milão até 2002, dá conta de 1.233 condenas por corrupção, extorsão, financiamentos ilícitos dos partidos, fraudes contábeis e falsos balanços empresariais. É preciso acrescentar, ainda, outros 448 sentenças, que não são nem condenações nem absolvições. São réus que não puderam ser punidos por anistia, morte e, na maioria dos casos, 423, por prescrição.

 

Mani Pulite é a história de uma revolução e como todas as revoluções produz vítimas. O processo durou menos de três anos. De 17 de fevereiro de 1992 a dezembro de 1994. Neste período foram dezenas de suicídios. E aconteceram não como consequência da detenção e da vida em cárcere. Quase todos os envolvidos tiraram a própria vida já fora da cadeia. Alguns depois de serem absolvidos. De 1992 a 1994, biênio de grande investigação do sistema tangentopoli (nome dado ao esquema de propina), 32 pessoas suicidaram-se. O clima da opinião pública era insuportável para quem carregasse com si a marca da investigação judiciária.

 

Hoje, a política italiana não é nem um exemplo de honestidade e transparência, mas a crise dos anos 90 serviu de lição. Na medida em que se descobre esquemas de corrupção se interfere imediatamente. Algumas vezes com resultados positivo, outras não. Aqui, também, algumas coisas acabam em pizza. Com uma diferença: há mais cuidado e empenho em sanar o problema.

 

Como aconteceu depois de Tangentopoli e Mani Pulite, o que ficou e que vai ficar para o Brasil, se tudo não acabar em pizza, é um custo e uma conta enorme. Um débito difícil de ser saldado. Em 1992, o economista italiano, Mario Deaglio, calculou a queda econômica do Estado causada pelo esquema de propinas e, em definitivo, o prejuízo no bolso dos italianos. Calculou-se que o aumento dos valores das licitações para se obter as propinas repercutiu diretamente nos custos que o Estado teve que arcar na administração da coisa pública. Em tantos projetos o valor das obras públicas era duas, três, quatro e mais vezes maior do que obras públicas análogas realizadas em outros países europeus. É, no mínimo, assustador.

 

No final das contas o economista calculou o prejuízo de 100 trilhões de liras por ano para os italianos. Um débito público entre 150 e 250 trilhões de liras. Entre 15 e 25 trilhões de juros anuais provenientes deste débito. Não é um acaso que 1992 foi um ano dramático para as contas do Estado. A relação entre débito público e PIB superou 105%. Para entrar na Europa a Itália deveria estar abaixo de 60%. O País estava a beira de uma falência como aconteceu com a Argentina.

 

A Moodys, agência de classificação de riscos de crédito, atribuiu à Itália o nível Aa2, ou seja: um risco de crédito muito baixo. Em palavras simples: uma país pouco confiável para negócios. Para tentar pôr um fim a falência, o governo Amato foi forçado a lançar, no outono daquele ano, uma lei orçamental pesada para a época: 92 trilhões de impostos e mais um saque forçado de seis por mil de todas as contas correntes dos italianos. Foi considerada a verdadeira nota fiscal do esquema de propinas e extorsão. Uma conta que todo mundo pagou. Sem escolha.

 

Foram, sim, anos de crise, de prisões uma atrás da outra, de dificuldades econômicas e de descrença nos partidos. Foram, também, anos de grandes esperanças e expectativas de que pudesse nascer, ali, uma Itália melhor. Esperanças que, ao longo dos anos, revelaram-se ilusões. A Itália mudou sim. Não com se esperava e sonhava. A distância de duas décadas, segundo uma pesquisa, realizada este ano, ainda há muito para melhorar. Pelos dados do estudo, para 51% dos italianos a corrupção percebida hoje é maior em relação aos tempos de Tangentopoli. Talvez porque hoje venha à tona mais facilmente.

 

Na opinião de Pier Camillo Davigo, um dos magistrados que participou do processo Mani Pulite, a corrupção na Itália ainda não está sob controle. Isto porque a intervenção judiciária, por si só, não basta.É um fenômeno serial, difundido que dá lugar a sistemas criminais e por isto não deve ser enfrentado como fato e episódios isolados. Além do mais, a burocracia e a falta de transparência nos processos de licitação só facilitam os desvios. De conduta e de dinheiro.

 

Eu quero acreditar que a esperança esteja na nova geração. Nos meus filhos que hoje frequentam a escola primária e a escola da infância. Ou nos filhos  e netos deles. É preciso começar a pensar que corrupção não é só o que acontece nos governos, longe da casa de cada um. Lá nas altas esferas. A corrupção está no jeito de pensar do povo, nas pequenas coisas do dia a dia que vistas como normais simplesmente porque todo mundo faz assim. É hora que todos parem de fazer assim. O percurso é longo. Longuíssimo. Não é tempo de esmorecer. Não é tempo de deixar para depois.

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De Craxi a Berlusconi - As mãos sujas de mãos limpas

DOM, 20.03.2016

Na Itália com Eliane Oliveira: Tudo será como antes

Quanto diminuiu a corrupção no Brasil desde o impeachment de Collor?

Eliane Oliveira

Para o Portal Top Vitrine

Há 24 anos o Brasil viveu o seu primeiro impeachment. O presidente Fernando Collor de Mello, eleito pelo voto direto, caiu depois que uma CPI criada para investigar desvio de verbas públicas, financiamentos ilícitos da sua campanha eleitoral, enriquecimento ilícito e crime de responsabilidade.

 

Na época, Collor tentou enfrentar a maré de denúncias pedindo que a população fosse às ruas vestida de verde e amarelo. O que se viu nas praças e avenidas no domingo seguinte foi um povo de luto. A Folha de São Paulo circulou com uma tarja preta na primeira página. O “caçador de marajás” caiu por 441 votos a favor e 38 contra. O homem que prometeu limpar o Brasil das falcatruas e da corrupção saiu pela porta dos fundos pelos mesmos motivos.

 

Era véspera de eleição para prefeito em todo o Brasil. O que me lembro é de um movimento popular sem a ira e sem os embates pessoais aos quais assisto hoje, vivendo longe do Brasil.

 

Tento imaginar a atmosfera pelo País afora. O que era bem visível em 1992 era a vontade de um povo de passar o Brasil a limpo, de acabar com a corrupção nas esferas do governo. Passaram-se pouco mais de duas décadas e lá estão, de novo, os brasileiros nas ruas pedindo o combate à corrupção, ainda que não saibam qual é a melhor alternativa ao que temos hoje.

 

Pergunto-me o que mudou nestes últimos 24 anos entre o impeachment de Collor e a tentativa de impeachment de Dilma. Quanto diminuiu a corrupção no Brasil? O quanto o povo é capaz de entender que não é só a Dilma, o Collor ou o Lula. É o sistema. E não só: é a índole dos brasileiros, e dos latinos em geral, de querer levar a melhor, cada um no seu mundo, cada um na sua esfera. É isto, também, que faz o Brasil ser o que é hoje. Como faz a Itália ser o que é hoje. Depois da Operação Mãos Limpas o País não mudou tanto assim como se sonhava. A corrupção não foi extirpada como se gostaria e se acreditava. Há, sim, mais mecanismos de controle, porém não bastam. Ainda não há um mecanismo de controle do caráter de cada um. É a velha história da cultura de quem pensa primeiro em levar a melhor. Diferente dos brasileiros, os italianos ainda se indignam com algumas coisas e o nível de escolaridade é muito maior. Não há como negar. Isto faz a diferença.

 

Com um problema cultural mudar o sistema não basta. É preciso mudar a mentalidade. Esta é a tarefa mais difícil. Eu diria quase impossível. Falo da mentalidade de reconhecer que o erro é erro. Seja grande ou pequeno. Falo da mentalidade que leva um parlamentar alemão a renunciar ao cargo porque se descobriu que a tese de conclusão de doutorado foi copiada. Está nos princípios e este princípio o povo brasileiro não tem.

 

A história que vivemos hoje é a mesma porque o brasileiro é o mesmo

 

Lá onde ele pode se dar bem ele não pensa duas vezes. É a mentalidade de quem vê como corrupção só o que acontece na esfera política, nos governos. É a mentalidade de quem dá um jeitinho para tudo e ainda descreve este jeitinho como parte de “ser brasileiro”. É a mentalidade de quem vai ao banco com uma criança (que não é sua) no colo só pra entrar na fila preferencial. De quem estaciona na faixa de pedestre porque é rapidinho. É a mentalidade de quem considera ter uma empregada doméstica com todos os direitos trabalhistas pagos uma coisa justa, sem se questionar se o valor pago é justo. É a mentalidade de quem não quer pagar hora extra para a empregada, mas exige o pagamento de horas extras na empresa onde trabalha.

 

É a mentalidade de quem não vê o conceito de justiça como algo mais importante do que qualquer indivíduo. É a mentalidade de quem não vê o público e coletivo como de todos. O povo não é ele. O povo é os outros quando convém. Não é só, só, e só a democracia e o Estado de Direito que vão resolver os impasses. Tanto é que não resolveu. A história que vivemos hoje é a mesma porque o brasileiro é o mesmo.

 

Conheci um alemão que durante uma pesca, ao mover a lança para jogar a isca, quebrou uma lâmpada à beira do lago. Chegando em casa ele comunicou via e-mail ao órgão competente dizendo que pagaria pelo dano. Por quê? Porque aquela lâmpada é da casa dele, ainda que não esteja dentro da sua sala. Qual seria a reação do brasileiro? Avisaria ou iria embora bem quietinho?

 

Os brasileiros falam tanto em justiça social, desenvolvimento e igualdade para todos. Quantos, destes brasileiros, estão dispostos a abrir mão do que têm por uma distribuição de renda mais equilibrada?

 

Desenvolvimento e igualdade é isto: é avisar que quebrou a lâmpada na rua, é pagar 4/5 vezes mais para a empregada doméstica, é considerá-la uma pessoa que pode sentar à mesa com você. É não ocupar a vaga dos portadores de necessidades especiais em um estacionamento, é não furar a fila no banco.

 

Não acredito que o brasileiro esteja pronto para isto. Não acredito que a elite esteja pronta para perder uma parcela dos seus lucros e privilégios em nome da igualdade social. Não acredito que a elite esteja disposta e ganhar menos para que outros ganhem mais. Porque é disto que se trata.

 

Mudemos o governo, se tivermos nas mãos algo melhor, mas mudemos também o sistema e a mentalidade. E não venham me dizer que o Brasil não é a Itália. Até porque os italianos ainda não são um grande exemplo entre os países mais desenvolvidos. Não venham dizer que é fácil argumentar porque vivo na Europa. Isto é desculpa para permancer neste limbo mental. E neste passo, mesmo que o governo caia, daqui a alguns anos os brasileiros se encontrarão de novo nas ruas para protestar contra a corrupção. A história se repetirá.

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SAB, 27.02.2016

Buon viaggio Umberto Eco!

Os italianos despediram-se do grande escritor com um funeral laico

Eliane Oliveira

Para o Portal Top Vitrine

Umberto Eco foi embora. Partiu, aos 84 anos, da sua casa, no coração de Milão. Janelas de frente para o Castello Sforzesco. O que o levou foi um câncer no pâncreas. Umberto Eco morreu dia 19 de fevereiro, mas deixou a sua última obra pronta para publicação.

 

Neste sábado chega, antecipadamente, às livrarias o seu último livro: “Pape Satan Aleppe”, uma obra sobre temas atuais. O título é um verso escrito por Dante Allighieri no início do Canto VII sobre o Inferno, na obra “A Divina Comédia”.

 

O significado das três palavras é, ainda hoje, um mistério. Para alguns estudiosos trata-se de um grito de maravilha, de dor, de invocação à Satanás, de ira e de ameaças. Para outros é, meramente, uma expressão inventada. Nos resta esperar e ler para, quem sabe, poder tirar uma conclusão.

 

A fama de Umberto Eco é ligada, particularmente, ao romance “O nome da Rosa”, publicado em 1980. Foi o debuto literário com o qual conquistou sucesso mundial. O apogeu veio, mesmo, em 1988, com “O Pêndulo de Focault”, mas para a cultura italiana, as coisas mais importantes Eco as fez antes do sucesso com os romances.

 

Nos anos 60, através de livros como ‘La struttura assente’ e il famoso ‘Diario Minimo’, levantou uma discussão sobre a realidade da Itália através da semiologia. Umberto Eco analisava com estes instrumentos qualquer produto cultural, do design de automóveis e grandes obras da literatura às histórias em quadrinhos. Deu uma nova chave de leitura do seu País. Mesmo sendo um homem de esquerda e anti-capitalista, olhava os méritos e os defeitos da sua Terra com amor. Porque para um semiólogo as coisas que os homens fazem devem ser analizadas e não julgadas. Uma avaliação como “isto é bom" ou  “isto é ruim” extrapola os limites da semiologia.

 

Críticos e intelectuais são unânimes ao afirmar que a grande herança de Umberto Eco é ter intuído, com 40 anos de antecedência, que a mídia teria abolido todas as diferenças tradicionais de valor. De fato, nos dias de hoje uma competição de chefes de cozinha na TV pode influenciar a fantasia e a vida das pessoas tanto quanto ouvir Mozart ou uma música do Festival de San Remo. E disto Eco já havia falado.

 

A obra e o pensamento de Eco foram uma revolução. Era um homem que cultivava particular interesse pela realidade e a analisava pelo que era, sem exprimir um julgamento. Com uma ironia culta. O seu método de leitura foi usado em outras ciências e este instrumento de análise foi, é, e sempre será o seu grande ensinamento.

 

Os italianos despediram-se do grande escritor, pensador, filósofo e semiólogo com um funeral laico, como foi o desejo de Umberto Eco. Coerente como a sua vida: profundamente laica. “Buon viaggio Umberto Eco!”

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Reprodução/Capa

Livro chega este sábado às livrarias

Reprodução

Filme foi sucesso mundial, assim como os livros do escritor

de 5

Eliane Oliveira

É jornalista formada pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). É autora do livro “Português do Brasil", o primeiro curso de português específico para italianos (Editora Hoepli/2014). No Brasil passou boa parte do tempo dentro de uma redação ou de um estúdio de TV. Foi repórter, editora, editora-chefe, apresentadora de telejornal, roteirista e editora de texto de documentários e informes publicitários. A cada dois anos parava tudo pra dedicar-se à comunicação nas campanhas políticas. Sempre dentro de uma redação ou de um estúdio. Criou, em sociedade, a Midianova Assessoria em Comunicação, desenvolvendo projetos de assessoria de imprensa em vários setores. Em novembro de 2000, depois de dois anos de vai e vem, mudou-se para Milão, na Itália, de mala, cuia e CDs. Tudo por amor. Mora em Milão e hoje a quem pergunta define-se assim: brasileira de nascimento, italiana por escolha, jornalista de profissão, tradutora e professora de português por paixão. Criou um programa e um método de ensino de português específico para italianos. Desde que vive na Itália ministra cursos de formação de português como língua estrangeira e trabalha como tradutora. Ainda que fora das redações e dos estúdios, continua escrevendo para manter o idioma aceso na mente e por vício. Eliane Oliveira escreve artigos para o Portal Top Vitrine desde junho de 2013.

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