Campo Grande-MS 27.05.2017

+Cultura

Angelo Mendes Corrêa & Itamar Santos

compartilhe:

SAB, 02.04.2016

Caio Porfírio Carneiro: o escritor e suas raízes

Sou escritor porque nasci, para o bem ou para o mal, escritor

+Cultura

Portal Top Vitrine

1 comentário(s)

Romancista, contista, cronista, poeta e crítico literário com mais de três dezenas de livros publicados, em seis décadas de vida literária intensa, Caio Porfírio Carneiro narra nesta entrevista um pouco de sua rica experiência no campo das letras, iniciada ainda na juventude, em sua Fortaleza natal.

 

Sua memória invejável, aliada ao talento extraordinário de contador de casos saborosos e ao fato de ter sido interlocutor de figuras legendárias de nossas letras, faz com que ouvi-lo seja sempre imenso deleite, mas sobretudo uma aula informal de literatura e dos bastidores de nossas letras.

 

De onde a paixão pela leitura? Que autores constituíram a base de sua formação como leitor e, mais tarde, como escritor?

 

Meu pai foi um intelectual frustrado. Autodidata, lia muito, tinha boa biblioteca, relacionava-se com intelectuais da terra, Fortaleza, mas nunca publicou nada. Do lado da minha mãe, o meu avô era também muito letrado, parente próximo do escritor Adolfo Caminha. De sorte que me vi perto de livros, desde que abri os olhos para o mundo. Desde muito moço, fazia poesias de pé quebrado e crônicas. Lia tudo o que podia e, sem falsa modéstia, fui me destacando entre os que, da minha geração, se metiam com literatura. Terminei o colegial e arranjei emprego como revisor de um jornal. Um dos redatores, o poeta Aluísio Medeiros, viu alguns contos meus que lhe mostrei e, com o apoio da diretoria do jornal, passou-me para a redação. Ficou mais fácil de me aproximar dos jovens escritores e começar a aparecer. Eu escrevia sem parar. Até quando deixei o jornal e entrei para a agência da Companhia de Aviação Panair do Brasil. Escrevia e guardava. E lia muito. Tudo. Até em francês, valendo-me do meu avô materno, que era bilíngue. Escrevi um romance, "Roteiro de um Órfão", um amontoado de lutas e aventuras. Mas o que me atraía mesmo era o conto. Sentia-me meio à vontade escrevê-lo. Pois um dia, fiquei tuberculoso. Perdi emprego, tudo, até amigos, que fugiam de mim, com medo do contágio. Eu jogava razoavelmente bem xadrez. O mestre enxadrista Hélder Câmara visitava-me muito e jogava comigo. Escrevi, então, um conto, O Enxadrista, e por insistência dele mandei-o para o concurso de contos da revista A Cigarra, uma das maiores do país. Para surpresa minha e aplausos dos amigos, tirei o primeiro lugar. O conto foi publicado com destaque e ganhei o primeiro prêmio, de mil cruzeiros. Então, fui em frente. O conto O Enxadrista está incluído no meu livro "A Última Viagem", que antecede Trapiá e nunca foi publicado. Estou pensando em publicá-lo agora, em edição pequena, para distribuir aos amigos e eles verem como comecei nas letras.

 

O fato de ter nascido no Nordeste tem algum significado especial para sua trajetória de escritor?

 

Ninguém foge das suas raízes. Soma valores, adapta-se a novas realidades, evolui, mas a latência primeira, que são as suas raízes, está lá, fundo na alma e no coração, e disto ninguém foge, escritor ou não. Eis porque o poeta Manuel Bandeira afirmava: “O menino que não que não quer morrer/que não morrerá senão comigo.” É claro que o escritor, assim como o pintor, o músico, o artista, incorporam à sua vida outras sensibilidades, quando mudam de ambiente. Tenho muito mais tempo de vida em São Paulo do que no Ceará. Nem por isto houve uma transmutação total. Somam-se às minhas criações outros valores que estão até nas temáticas dos meus livros. Mas aquela luz notívaga, que nasceu comigo, ungida na minha terra, continua me piscando.

 

Tomem qualquer exemplo. Rachel de Queiroz tornou-se universal, mas nunca perdeu de vista as sensações primeiras de nossa terra. Drummond, que viveu a maior parte de sua existência no Rio de Janeiro, nunca perdeu o seu pulsar mineiro. E os exemplos se sucederiam. Sou escritor porque nasci, para o bem ou para o mal, escritor. Esse estigma nasceu comigo. É levá-lo até o fim. Isto, creio eu, não depende do lugar onde nasci. Tivesse eu nascido em outro lugar, até numa caverna, minhas raízes seriam outras, mas seria escritor, preste o que eu escrevo ou não. Eu falaria ou escreveria horas sobre isto. Numa frase: o escritor, o pintor, o músico etc, são suas raízes e tudo o mais que a isto se somou.

 

Em que momento percebeu que era um escritor pronto para ser publicado. Como foi a publicação do seu primeiro livro?

 

Percebi que era um escritor, de fato, quando ganhei o concurso da revista A Cigarra. Escrevi uma série de contos e fiz um livro, "A Última Viagem", que, já residindo em São Paulo, quase publico. A editora Saraiva quis fazer um acordo comigo. Se eu pagasse a metade do valor da edição, lançaria o livro. O meu irmão quis me dar o dinheiro. Eu, porém, sem conhecer ninguém das letras, fiquei na dúvida se receberia flores ou pedradas. E não publiquei o livro. Imaginei partir para outro. Bolei uma vila, de nome "Trapiá", do sertão nordestino. As tais raízes. E comecei a escrever uma série de contos, tendo como geografia essa região. Mas me comportei de outra maneira. Escreveria o conto e mandaria para um concurso literário. É a conta do mentiroso, mas é a pura verdade, pois ganhei sete concursos. Quando ganhei o concurso de contos de Natal, do jornal Última Hora, do suplemente dirigido pelo Ricardo Ramos, filho do Graciliano Ramos, ele próprio me procurou. Então, tudo foi fácil. Ele prefaciou o meu livro, passei a conhecer vários escritores de nome feito. E o escritor Paulo Dantas, com o apoio do também escritor Jorge Medauar, incluíram-me na coleção Alvorada, da editora Francisco Alves, que só tinha cobra. O meu livro "Trapiá" foi lançado logo após o "Laços de Família", da Clarice Lispector. A segunda orelha do livro dela anunciava o meu. Foi uma tiragem de três mil exemplares. Estourou. Já saíram cinco edições. Vários contos foram para antologias e alguns deles para o cinema universitário. Fui em frente e parti para O Sal da Terra. Não parei mais.

 

Você costuma mencionar a influência que teve de dois escritores modernistas que, como poucos, mergulharam no universo psicológico das personagens: Cornélio Pena e Lúcio Cardoso. O que destaca da obra de ambos?

 

Não foi bem influência, foi a surpresa. Eu admirava muito os escritores regionais. O próprio Lúcio Cardoso, no início da carreira, publicou dois livros nessa linha: "Maleita" e "Salgueiro". De repente, ele aparece com "A Luz no Subsolo", um universo ficcional completamente diferente. Uma mudança não só no campo psicológico das personagens, mas aquele drama surdo de desencontros inesperados, indo do amor ao ódio. Quase uma danação, no melhor sentido. Conflitos surdos, encontros, desencontros e repulsas. Uma roldana de sensação pulsantes, que se tornou, daí para frente, a linha literária dele. Isto me encantou, mas senti, ao mesmo tempo, que não era o meu caminho. Passei a ler tudo o que Lúcio publicava. O mesmo se deu com Cornélio Pena. O seu livro "Fronteira" foi para mim um impacto. Por uma razão específica: a presença da solidão. Uma solidão diferente, doída, com palavras mudas. Passei a ler tudo dele também e a admirá-lo.  Para traduzir melhor o que penso dos dois, vai trecho de um pequeno apanhado que escrevi sobre ambos, no meu livro "Mesa de Bar: Um e Outro".

 

“Lúcio é instintivo. Cornélio é poético. Lúcio busca o entrechoque de ódios, a repulsa entre as personagens. Cornélio apenas expõe, com grande apuro no trato literário. Lúcio é o jogo lúcido de luz e sombra. Cornélio é essencial. Lúcio questiona conflitos. Cornélio constata. Lúcio vai às aflições humanas. Cornélio impassivelmente as capta. Lúcio é uma constante interpretação. Cornélio é um permanente tempo de espera. Em Lúcio as palavras são brilhantemente efervescentes. Em Cornélio as palavras são mudas. Há, entre um e outro, um traço de união na busca do cosmo interior. Em Lúcio há a perquirição. Em Cornélio a evidência. Então a distância entre os dois também é muito grande. São caminhos ricamente convergentes e tremendamente divergentes. A arte não é mesmo uma loucura?”

 

De sua obra, hoje com mais de três dezenas de títulos publicados, algum deles lhe é mais caro por alguma razão especial?

 

Gosto de todos, como filhos que são da minha vivência literária. Mas destacaria dois, por motivos diferentes: "Trapiá", porque foi a minha estreia e lá estão plantadas as minhas raízes, está o universo sertanejo da minha infância, da fazenda do meu avô paterno. Lá está “o menino que não quer morrer/que não morrerá senão comigo...”. O outro livro é "Chuva - os Dez Cavaleiros". Um livro diferente, prefaciado pelo escritor Marcos Rey. História de dez cavaleiros, cada um com uma destinação na vida e a realizar. Penso em reeditar esse livro. Até a linguagem narrativa é extremamente apurada. Fico nesses, para uma citação meio aleatória.

 

Pode nos falar de sua experiência como crítico do suplemento literário de O Estado de S.Paulo, entre os anos 60 e 70? Como vê a crítica literária de hoje em nossos periódicos?

 

Comecei a colaborar em O Estado de S.Paulo como contista, a convite do Mário da Silva Brito, que me apresentou ao Décio de Almeida Prado, responsável pelo suplemento. Um dia perguntou-me ele se eu faria algumas resenhas sobre livros enviados ao jornal. Concordei. Foram publicadas, pagas, e não parei mais. Tudo o que era publicado no suplemento, o resenhista ou crítico, era remunerado. Fiz dezenas de críticas de livros dos mais diversos gêneros. Quando o suplemento passou para as mãos do Nilo Scalzo, conservou-me ele entre os colaboradores permanentes. Não havia vínculo empregatício, claro. E não comentávamos livros de amigos. Podia até acontecer. Mas os livros eram entregues pelo jornal. Comentei até livros de escritor de nomeada. O espaço disponível para cada resenha era bem razoável. Não me lembro mais quantas linhas, mas dava para criticar à vontade. O suplemento era grande, de muitas páginas, quase um jornal. Amigos me pediam para comentar seus livros. Eu respondia: tudo bem, mas só publicando em outro jornal, porque para o Estadão só os livros que a direção do jornal me dá. Depois, o suplemento mudou de feição e dispensou muitos resenhistas. Passei a comentar livros para o suplemento do jornal A Gazeta, dirigido pelo poeta Judas Isgorogota. Enquanto ele dirigiu o suplemento, semanalmente saía uma crítica minha. Foi uma experiência maravilhosa. Guardo todos esses comentários. Quem sabe reúna um dia em livro. Mas tudo mudou muito. Hoje praticamente não existem mais tais suplementos na grande imprensa. Sugiram as publicações alternativas, que existem até mimeografadas. E há alguns bons suplementos regionais, com mais espaço para entrevistas do que para crítica verdadeira. E também a internet, que fulgura com muita coisa boa. Aquela crítica minuciosa, detalhista, praticamente desapareceu. O Wilson Martins me dizia: “Caio, somos os últimos mastodontes. Isto vai mudar.” Tinha razão. Tudo se pulverizou muito.

 

É sabido que tem em Machado de Assis seu mestre maior. O que mais lhe chama atenção no gênio machadiano?

 

Tudo. Machado se enquadra bem naquilo que apontava Lukacs: “Ser simples sem ser fácil”. Só uma comparação: Coelho Neto enche meia dúzia de páginas para descrever o Campo de Santana, no Rio. Machado, que também o descreve, valeu-se de meia dúzia de linhas e disse mais do que Coelho Neto. É o grande escritor dos meios-tons. E através dos meios-tons, traz a relevo todas as emoções humanas. É uma das minhas leituras de cabeceira. Dizer mais o quê?

 

Apesar do histórico descaso institucional de nosso país com o escritor, ainda vale a pena o mergulho na escrita? Como vê as políticas para o incremento da leitura?

 

Não vejo praticamente nada. Exerci a secretaria administrativa da União Brasileira de Escritores de São Paulo por 48 anos. Teria muito a dizer. Faria um tratado. O descaso é grande. Ainda aparece uma luzinha aqui, acolá. Uma ajudazinha aqui, acolá. Mas não há uma norma definitiva. Há uma burocracia enorme. E não culpo diretamente nenhum governo. Isto está inserido na própria evolução cultural do país. Tenho tanta coisa a dizer que não sei nem por onde começar. Veja o há de divulgação cultural nos meios de comunicação, as televisões em especial. Políticas para o incremento da leitura? Onde? É uma coisinha aqui, outra acolá. Não dá para me estender aqui. Eu citaria um monte de exemplos negativos e algumas coisinhas pontuais positivas. Em síntese: pouco se fez e se faz pela cultura. Quanto a mergulhar na escrita, isto é o destino de qualquer escritor. E nada o matará, desde as belezas rupestres. Um exemplo apenas, a peça Hamlet, de Shakespeare, foi encenada um milhão de vezes. E sempre que é lida, deseja-se levá-la novamente ao palco, porque a arte escrita dá sugestões infinitas. Outro exemplo: escrevi, na faculdade, um trabalho longo sobre a peste negra, que avassalou a Europa no século XIV. Li, depois, as poucas páginas que Boccaccio escreveu sobre ela, porque a viveu e não a contraiu. E penso que a conhecia bem. Pois as poucas páginas de Boccaccio sobre essa peste tirou-me o sono depois de quase setecentos anos. A arte escrita, ao lado das demais, acompanhará a caminhada do homem na Terra, enquanto ele existir. Creio que é mais ou menos por aí.

 

Você conviveu e foi amigo de alguns dos maiores nomes da literatura brasileira do século XX. Desse convívio e amizade, o que pode nos contar?

 

Publiquei um livro, "Perfis de Memoráveis", onde traço o perfil de 60 nomes importantes das nossas letras. Como os vi de perto e como me relacionei com eles. Olhando apenas o lado humano de cada um. Fiz isto porque, lendo um livro sobre José de Alencar descobri, só então, que era um tipo brigão, orgulhoso, altaneiro. Pois esse homem sentou-se e escreveu um livro poético e doce, "Iracema". Eu disse comigo: “Meu Deus, o homem é um, o escritor é outro”. O Mário Quintana tinha um humor inigualável. O quanto se perdeu do outro lado de escritores notáveis que já se foram. Todos nós temos um lado humano que não vem a relevo nos livros. Estou pensando, se der tempo, em trazer ao vivo uma segunda série. Convivi com tanta gente. E aprendi, de vida vivida, com todos eles. Não fiz crítica, porque todos temos nossos defeitos. Retratei como os via e retratarei outros se puder, como afirmei. Lembrei-me agora que perguntei ao Érico Veríssimo como pôde ele escrever "O Tempo e o Vento", uma obra de mais de mil páginas, que percorre 200 anos da vida gaúcha. Ele me respondeu: “Foi fácil.” Admirei-me: “Mas fácil como?” Ele me bateu no ombro e exclamou: “Nem me pergunte.” Era um tigre. Tenho saudade de todos eles, que se foram e deixaram o seu testemunho de arte escrita. Quanto aos vivos, são amigos do coração.

 

Em seis décadas de intensa vida literária, algum balanço a fazer?

 

Continuarei nessa sina até que a magra me leve, para melhor ou para pior. Não sei. Não saberia viver de outra maneira. O que não quer dizer que faço da literatura uma obsessão. O quê! Vivo a vida. Sou são-paulino e sofro quando o meu time perde. Adoro uma roda de amigos e solto piadas, algumas delas, bem, você sabe... (rs). É por aí.

 

Nota da Redação

 

Entrevista concedida a Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos.

O Portal Top Vitrine não se responsabiliza por artigos assinados ou de origem definida.

Reprodução/Capa

Uma Luz no Sertão - Caio Porfírio Carneiro

SAB, 26.03.2016

Marcos Felipe e o teatro como incêndio da consciência

Tenho como principio não fazer qualquer coisa no palco

+Cultura

Portal Top Vitrine

Revelação do teatro paulista que tem ganhado os palcos do Brasil inteiro, Marcos Felipe nos traz, com equilíbrio, envolvimento e maturidade, um pouco de sua bem-sucedida e premiada carreira.

 

Fundador da Cia Mungunzá de Teatro, recebeu, pela encenação de Luis-Antonio Gabriela, alguns dos prêmios mais importantes do teatro brasileiro, levando aos palcos oportuno debate sobre o preconceito e a opressão às minorias sexuais em nosso país.

 

Em que momento o teatro passou a fazer parte de sua vida?

 

Acho que desde que nasci. Sempre caminhei para o lado artístico das coisas. Lembro que quando era criança, já no primário, eu gostava de representar e sempre estava envolvido nos “teatrinhos” de final de ano. Em 2005, eu entrei numa escola de teatro e, desde então, comecei a fazer minhas manifestações artísticas com mais propriedade e mais próximo do profissionalismo.

 

Luis-Antonio-Gabriela foi a segunda encenação da Cia Mungunzá, da qual você é fundador. A Criança Cozinha na Polenta foi a primeira É possível um paralelo entre as duas montagens? Como foi o encontro com os dois textos?

 

Sim, ambas foram levantadas pelos mesmos criadores. Há um estudo estético de manifestação artística por de trás da criação. O Nelson Baskerville, diretor artístico do grupo, já estudava essa forma de fazer teatro há bastante tempo. Logo, não há como desconectar uma da outra. A Polenta foi uma espécie de degrau para chegarmos a Luis Antonio-Gabriela. Claro, na segunda montagem, o estudo estava mais verticalizado, mais apropriado como linguagem e mais impregnado no corpo do ator/criador. Contudo, é a mesma forma de contar uma história da primeira peça. Encontramos o romance Porque a Criança Cozinha na Polenta, nos apaixonamos por ele e o adaptamos para o teatro. Já no segundo trabalho, o Nelson nos contou sua história e nós achamos que seria pertinente levá-la ao palco.

 

Como se deu a construção do seu personagem em Luis-Antonio-Gabriela? Na busca de referências para compor o personagem, alguma preocupação especial?

 

Sim, muita preocupação! Não apenas minha, mas de todos. Não queríamos reproduzir nosso próprio preconceito, por isso precisamos de um tempo para errar e partir do próprio erro. Enxergar a figura da travesti com um olhar diferente e dissonante do que até então estávamos acostumados. Fiquei sabendo que faria o Luis Antonio pouco tempo antes da estreia. As divisões de personagens aconteceram naturalmente e eu tentei me embebedar da história para poder fazê-la com leveza e doçura. Procurei não ficar parecido com ninguém, não imitar ninguém.

 

Atualmente, a maioria das pessoas procura entretenimento e riso fácil quando sai de casa para ir ao teatro. Acredita no teatro como entretenimento?

 

Acredito. O teatro deve ter diversas facetas. O problema é quando se estipula um segmento como único e predominante. O teatro precisa alegrar, informar, questionar, fazer chorar, ir, fazer com que sua cabeça, seu corpo, sejam tomados por sensações. O teatro é único! É ali, na hora!  Eu tenho como principio não fazer qualquer coisa no palco. Nada contra quem faz do teatro uma extensão da novela global, mas eu jogo noutro time.

 

Ao longo de dois anos de apresentações de Luís-Antonio-Gabriela, em algum momento ocorreu alguma reação inusitada por parte do público?   


Várias. Cada noite é uma noite, cada cidade carrega consigo sua cultura, seu jeito de ver a peça, sua maneira de enxergar, visualizar, escutar o que está sendo apresentado. Fizemos, por exemplo, uma apresentação no Rio de Janeiro, para alunos de escolas públicas. Foi estranho, mas foi lindo. Especialmente pela espontaneidade do público, sem o que chamo de regras cult.

 

Vivemos num país onde boa parte da população nunca entrou numa sala de espetáculos. Como mudar tal realidade? E o que dizer das leis de incentivo à cultura?

 

Há uma parcela grande de culpa na má formação educacional no país, porém, acredito que nossos gestores não são os únicos culpados. O teatro se afastou da população. Quase sempre olhando para o próprio umbigo e muitas das vezes levando ao palco histórias que não causam empatia em seu povo. Talvez, o teatro documentário seja uma saída para a identificação imediata. Como já comentei, se o teatro for somente uma extensão da novela global, em nada vai ajudar. Com relação às leis de incentivo, só tenho muitas ressalvas com a Lei Rouanet. Há um equívoco na liberação dessa verba federal que, por falhas, está sendo destinadas apenas para grandes produções, negócios e empresas.

 

O ator e diretor francês Jacques Copeau defendia a idéia de uma encenação praticamente sem objetos de cena, pois para ele a ação no palco se torna mais enriquecida quando não há cenário. “Quanto mais nua estiver a cena, tanto mais a ação poderá fazer aí nascer sortilégios. Quanto mais austera e rígida for, tanto mais a imaginação aí trabalha livremente. É sobre o constrangimento material que a liberdade de espírito se apoia.” Concorda com ele?

 

Não! (risos). Acho ingênuo não somar ao teatro tudo que a mundo contemporâneo pode trazer.  Se para contar uma história bem contada temos mil coisas ao alcance das mãos, não sejamos ingênuos em não usá-las. Todas as manifestações artísticas caminharam com o passar dos anos. O teatro também precisa caminhar!

 

Qual o maior desafio para atingir uma estética teatral mais atuante e crítica de nossa sociedade, num mundo norteado pelas leis de mercado?

 

Difícil, mas não impossível. Fazer um teatro pensando nos seguintes pilares: festa; conhecimento; desenlace solene após um dia laborioso; incêndio da consciência.

 

Dizem que somente atores com talento permanecem, mas, infelizmente, isso nem sempre ocorre. Há um número razoável de atores sem talento algum no mercado, principalmente na televisão. O que leva a esta situação? A televisão está em seus planos?

 

Eu não saberia dizer sobre a televisão, pois não tive oportunidade de trabalhar com esse veículo. Acredito que na televisão há outra vertente para se manter como artista, pois não necessariamente você precisa ser talentoso. Acredito que sejam necessárias outras qualidades, assim como ser bonito ou se enquadrar no que a mídia enxerga como bonito. A televisão não é meu foco. Não fecho a porta, mas não é meu objetivo de vida. Eu gosto mesmo é do cheiro de poeira das coxias.

 

Melhor espetáculo de 2011 pela APCA, Prêmio Shell de melhor direção, indicações para o prêmio Governador do Estado e Bravo. Qual o segredo para tanto sucesso com Luís-Antônio-Gabriela?

 

Quem me dera saber essa resposta. Acredito que tenha sido uma comunhão de fatores: uma boa história, bons artistas envolvidos, coração aberto, profissionalismo, Ser conduzido pela batuta de Nelson Baskerville etc...

 

Nota da Redação

 

Entrevista concedida a Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos.

O Portal Top Vitrine não se responsabiliza por artigos assinados ou de origem definida.

Divulgação

Marcos Felipe

SAB, 26.03.2016

Ruy Affonso e os Jograis de São Paulo

Autor de oito livros de poesia, escritor respeitado, diretor e professor

+Cultura

Para o Portal Top Vitrine

Por quase seis décadas, Ruy Affonso, que dentre tantos méritos foi um dos fundadores do Teatro Brasileiro de Comédia e o criador dos Jograis de São Paulo, deixou marca definitiva em nosso cenário artístico, não apenas como ator, mas também escritor, diretor e professor.

 

Formado em Direito pela Universidade de São Paulo, onde cursou também Filosofia, seu aprendizado teatral deu-se com a colaboração de destacados diretores estrangeiros que vieram ao Brasil na primeira metade do século XX, como Adolfo Celi, Luciano Salce e Ziembinski. Teve ainda o privilégio de ser orientado por Verá Korène Rognoni, da Comédie Française e pelo mímico Marcel Marceau.

 

Em 1955 criou os Jograis de São Paulo, conjunto formado por quatro atores, pelo qual passaram, em suas diversas formações, nomes como Rubens de Falco, Armando Bogus, Raul Cortez, Ítalo Rossi, Carlos Vergueiro, Homero Kosac e Fúlvio Stefanini, apresentando poesia, seja através de coral ou solos encadeados. Com o grupo excursionou por todo Brasil, Portugal, Angola, Moçambique e México.

 

Professor de Dicção e Interpretação, ministrou cursos em mais de uma dezena de instituições brasileiras, como Universidade de São Paulo, Universidade de Campinas, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e Fundação Armando Álvares Penteado.

 

Na condição de conferencista passou pela New York University, Università di Roma, Universidade de Coimbra e Universidad Autonoma de Mexico, sempre difundindo a cultura luso-brasileira.

 

Autor de oito livros de poesia, - Rumo Enxuto (1950), Cinco Canções para Elizabeth (1975), Epigramas (1959), Romance da Rosa (1962), Sombra e Vento (1966), Contraponto Paulistano (1969) e Cancioneiro de um Jogral de São Paulo (1985), que reúne os anteriores -, despertou significativo interesse da crítica.

 

Sobre Rumo Enxuto afirmou Miguel Torga tratar-se de "autêntica poesia". Cecília Meireles, ao referir-se a Cinco Canções para Elizabeth disse: "Eu que conheço Elizabeth, sei que ela merece. Mesmo assim fiquei com muita inveja dela: nunca ninguém escreveu Cinco Canções para Cecília... meus parabéns a você, Ruy Affonso, e todo meu carinho para sua musa".

 

Péricles Eugênio da Silva Ramos destacou a "concisão lapidar" de Epigramas.

 

Para Guilherme de Almeida, "Romance da Rosa é dos poemas mais belos já surgidos em nossa língua".

 

Manuel Bandeira viu em Sombra e Vento "um coroamento poético, laboriosamente conquistado".

 

Almada Negreiros, enfático, disse: "Deslumbrei-me com o Contraponto Paulistano, com ele Ruy Affonso levou-me às mesmas paragens que me haviam levado a Ode Marítima do Fernando Pessoa e o Coup de Dès do Mallarmé." E Cassiano Ricardo, a respeito de Burlas Burlescas, destacou "sua agilidade de espírito, seus ritmos, seus efeitos e todo seu artefazer levam o leitor a um paroxismo lúdico."

 

Por muitos anos foi colaborador do Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo, tendo publicado ainda o ensaio Padronização da Prosódia Brasileira, pelo Ministério da Educação e Cultura, em 1958.

 

Atuando ou dirigindo, esteve presente em dezenas de importantes montagens como O Mentiroso, de Goldoni, Ralé, de Gorki, Amadeus, de Peter Shaffer, O Santo Milagroso, de Lauro César Muniz, Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto e As Bocas Inúteis, de Simone de Beauvoir. Na Companhia Vera Cruz foi dirigido por Luciano Salce em Uma Pulga na Balança.

 

Integrando os Jograis de São Paulo ou sozinho, gravou doze discos, o primeiro intitulado Moderna Poesia Brasileira, em 1956 e o último, Ruy Affonso diz Ruy Affonso, em 2000, comemorando seus 80 anos.

 

Em plena atividade até o final da vida, a revista Cult publicou seu último trabalho, sobre o amigo Pedro Nava, em junho de 2003, logo após seu falecimento.

 

Nota da Redação

 

Artigo de Angelo Mendes Corrêa.

O Portal Top Vitrine não se responsabiliza por artigos assinados ou de origem definida.

Arquivo pessoal

Ruy Affonso

Arquivo de família

Jograis de São Paulo

de 17

+Cultura

Angelo Mendes Corrêa nasceu em São Paulo, SP. É mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), onde cursou bacharelado e licenciatura em Letras. Na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP), fez Direito e Jornalismo. Desde 1987 é professor de Português, Literatura Brasileira, Literatura Portuguesa, Teoria Literária e Produção de Textos, nos níveis médio e superior. Começou no Jornalismo em 1985 e colaborou na Folha de S.Paulo (S.Paulo,SP), Jornal da Tarde (S.Paulo,SP), Linguagem Viva (S.Paulo,SP), São Paulo Review (S.Paulo,SP), Protexto (S.Paulo,SP), Revista de Literatura Brasileira (S.Paulo,SP), Revista Bibliográfica e Cultural (S.Paulo,SP), Veredas (S.Paulo,SP), Meiotom (Atibaia,SP), Verdes Trigos (Presidente Prudente,SP), O Boêmio(Matão,SP), Gazeta do Rio Pardo(S.José do Rio Pardo,SP), Jornal de Letras(Rio de Janeiro,RJ), Arte de Fato(Rio de Janeiro, RJ), Revista da Academia Mineira de Letras (Belo Horizonte, MG), A Semana (Divinópolis, MG), Jornal da Cidade (Poços de Caldas,MG), Brand News (Poços de Caldas,MG), Jornal da Associação Nacional de Escritores (Brasília, DF), Hoje em Dia (Brasília, DF), Opção Cultural (Goiânia, GO), Letra&Fel(Vitória,ES), Fronte Cultural (Chapecó,SC), Diário da Manhã (Pelotas,RS), Verbo21 (Salvador,BA), Diversos Afins(Ilhéus,BA), Correio das Artes(João Pessoa, PB) e Alto Madeira (Porto Velho,RO). Coautor dos livros Um Poeta Brasileiro em Portugal; (Temas Originais,Coimbra/Letra Selvagem,S.Paulo) e Tecendo Literatura: Entre Vozes e Olhares (Humanitas,S.Paulo). Ator bissexto, participou dos curta-metragens Através dos Bosques e Os Sonhos, ambos do diretor Otávio Mendes. 

Itamar Santos nasceu em São Paulo, SP. É mestrando em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP). Licenciado em Artes pela Faculdade Belas Artes de São Paulo e em Desenho pela União das Faculdades Francanas (UNIFRAN). Cursou Administração de Empresas na Universidade Cidade de São Paulo (UNICID) e Teatro no Teatro Escola Macunaíma. Fez cursos de especialização na York University, Seneca College e The Bickford Centre, em Toronto, Canadá, onde viveu por mais de uma década, trabalhando como tradutor. Professor de Artes, Desenho e Inglês, nos níveis médio e superior. Como ator atuou nas peças A Exceção e a Regra (Bertold Brecht), Em Nome do Teu Coração (William Butler Yeats), O Berço de Ouro (Erasmo Caldas), Romeu e Julinha (Oscar Von Pfhul), Vamos Falar de Amor Sem Dizer Que Eu Te Amo (Heiner Müller) e nos curta-metragens Através dos Bosques, Irremediável e Os Sonhos, do diretor Otávio Mendes. É autor do argumento do curta-metragem Os Sonhos, de duas peças teatrais, Passagens de Tempo (baseada no livro homônimo do psiquiatra e filósofo Mauro Maldonato) e Eutanásia, bem como dos livros infantis O Pequeno Don e O Ladrão de Sonhos e da novela Tobias, todos inéditos. Como jornalista, colaborou na São Paulo Review (S.Paulo, SP), Linguagem Viva (S.Paulo, SP), Protexto (S.Paulo, SP), Meiotom (Atibaia, SP), Arte de Fato (Rio de Janeiro, RJ), Letra&Fel (Vitória, ES), Verbo 21 (Salvador, BA), Diversos Afins (Ilhéus, BA) e Correio das Artes (João Pessoa, PB). É membro do Grupo de Pesquisas de Produções Literárias e Culturais para Crianças e Jovens da Universidade de São Paulo (USP). A Coluna +Cultura é veiculada no Portal Top Vitrine desde 3 de julho de 2015.

Filtrar Resultados

Utilize a busca avançadas do site para encontrar o que deseja.

Blogs & Colunas

Utilize a busca avançadas do site para encontrar o que deseja.