Campo Grande-MS 27.05.2017

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Angelo Mendes Corrêa & Itamar Santos

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SEG, 25.04.2016

Pery Ribeiro: o equilíbrio da maturidade

Artista pisou no palco pela primeira vez aos quatro anos de idade

+Cultura

Para o Portal Top Vitrine

Poucos sabem que foi Pery Ribeiro quem pela primeira vez gravou Garota de Ipanema e que sua discografia, com mais de 60 títulos, o projetou mundo afora. Filho de dois mitos da música popular brasileira: Dalva de Oliveira e Herivelto Martins, pisou no palco pela primeira vez aos quatro anos de idade e em quase sete décadas de carreira, construiu sólida carreira marcada por larga consagração junto ao público e à crítica.

 

A entrevista que segue, publicada pela extinta revista Verbo21, de Salvador, foi uma das últimas que Pery concedeu à imprensa, em novembro de 2011, três meses antes de falecer, aos 74 anos.

 

O desejo de ser cantor surgiu em que momento de sua vida? Algum estímulo de seus pais neste sentido?

 

Quando eu era cameraman da TV Tupi e comecei a trabalhar nas apresentações de grandes vozes masculinas da época, como Cauby Peixoto, Orlando Silva, Silvio Caldas, Dick Farney e Lúcio Alves. Meus pais nunca me estimularam, apesar de minha mãe sempre dizer “Pery nasceu pra ser artista”. E meu pai, pelo contrário, queria que eu fosse militar (risos).

 

Seu nome é sempre associado aos primórdios da Bossa Nova, sobretudo ao fato de ter sido o primeiro cantor a gravar Garota de Ipanema. O que considera a maior contribuição da Bossa Nova para a música popular brasileira?

 

A Bossa Nova foi - e continua sendo - o maior movimento musical de todos os tempos em nosso país. E colocou com seus talentosos compositores a música do Brasil em total destaque no mundo inteiro.

 

Aspecto importante em sua carreira tem sido divulgar nossa música no exterior. Conte-nos um pouco de suas experiências cantando fora do Brasil, desde os anos 60.

 

Foram experiências enriquecedoras e me mostraram o respeito e a admiração das plateias e de importantes músicos estrangeiros pela nossa música, principalmente pela Bossa Nova.

 

Foi a Bossa Nova que me deu a oportunidade de ir para o México, onde vivi por dois anos cantando música brasileira. E depois aos EUA, onde vivi por quatro anos, nos anos sessenta, trabalhando com nomes como Henri Mancini, Burt Bacharat, Johnny Mathis e Sergio Mendes, com quem montei o grupo Bossa Rio, onde eu e Gracinha Leporace éramos os solistas, e juntos excursionamos pelos EUA, Europa e Japão. Dessa época, tenho discos lançados no México, Estados Unidos e Japão.

 

Como foi lidar com a dura experiência de vida de seus pais? Alguma marca que lhe tenha ficado para sempre? Escrever um livro sobre eles foi alguma necessidade de exorcizar lembranças dolorosas?

 

Depois de tudo que vivi, não me presto a qualquer julgamento de meus pais. Com eles aprendi a ver a beleza da vida. A ver música em cada som. Em meio ao sofrimento deles, aprendi a ter e oferecer perdão. Talvez, esta seja a palavra mais importante em toda a minha vida com os dois: perdão.

 

Tem alguma explicação para as coincidências trágicas nas vidas de artistas excepcionais como Edith Piaf, Dalva de Oliveira, Maysa, Elis Regina e, mais recentemente, Emy Winehouse, dentre tantas outras tão prematuramente desaparecidas?

 

Não sei se são coincidências. O que percebo é que um ingrediente básico para compor um mito é a tragédia. E isto sim, é um ponto em comum na vida dessas estrelas.

 

Concorda que a mídia tem destinado grande espaço a figuras de pouco relevo e talento no campo musical e esquecido de nomes de fato relevantes, contribuindo para um crescente empobrecimento de nosso cenário musical? Se positivamente, a que atribui isso?

 

É um fenômeno mundial, não acontece somente no Brasil. Há realmente um crescente empobrecimento da arte musical e, consequentemente, os novos e bons talentos não vem à tona, o que impede a renovação de nomes brilhantes como os dos anos 50, 60 e 70. É bem claro que, a partir dos anos 80, começamos a nos ressentir de novos valores à altura dos ídolos das gerações anteriores. É um assunto muito complexo, mas basicamente vemos que a partir dos anos 80, a massificação da mídia passou a nivelar por baixo toda  expressão musical brasileira. Nos anos 90, assistimos à mudança do eixo musical do Rio para Salvador, com a forte chegada das bandas baianas, época do estouro da ótima Daniela Mercury, trazendo o que brincamos ao chamar de “música pra pular brasileira”. Em meio a tudo isso, a tecnologia nos trouxe facilidades para uma produção mais independente, o que beneficiou bastante a música instrumental, que vem crescendo e ganhando um espaço de destaque no Brasil.

 

Como analisa a minissérie da Rede Globo que biografou seus pais? Não teria o gênio artístico dos dois cedido mais espaço aos conflitos conjugais que viveram?

 

Com certeza, e é natural que num veículo que tem cinco novelas diárias, o drama - e o apelo que ele contém - tenham deixado em segundo plano a maravilhosa criação musical de meus pais. Considero que o resultado geral foi muito digno e bem realizado, tendo emocionado o Brasil inteiro e trazido para agora os nomes de Dalva e Herivelto, despertando nos jovens a admiração por esses grandes ídolos. A minissérie recebeu um grande investimento na sua produção musical: a abertura onde canto com minha mãe teve arranjo especialmente desenvolvido com orquestra. E os shows mostrados foram gravados no tradicional Hotel Quitandinha, em Petrópolis, com direção da aclamada dupla dos grandes musicais da atualidade: Charles Moeller e Claudio Botelho. A interpretação da Adriana Esteves foi comovente e a do Fabio Assunção, como de todo o elenco, foi excelente. Por tudo isso, é que a minissérie foi indicada ao Emmy, o mais importante prêmio internacional de TV. Fico muito feliz por ter detonado esse processo de resgate ao ter lançado, anos atrás, o meu livro "Minhas duas estrelas", dedicado a minha vida com meus pais, e escrito em parceria com Ana Duarte.

 

Com que projetos está envolvido atualmente? Por que razão o musical Viva Dalva!, de cujo elenco faz parte, ainda não teve temporadas mais extensas no país?

 

Atualmente os artistas brasileiros estão sempre envolvidos com projetos e em busca de patrocínios para viabilizá-los. E esta é a razão do Viva Dalva! não estar viajando pelo país: falta de patrocínio. É um musical que traz uma boa amostragem do Trio de Ouro, que marcou a carreira dos meus pais. Fico feliz de participar sempre que tenho tempo em minha agenda, a convite da diretora Fátima Camargo. Estamos trabalhando na comemoração dos 100 anos de Herivelto Martins que acontece em 2012. E pretendo gravar um dvd dedicado a meus pais, Herivelto e Dalva, com acompanhamento de orquestra sinfônica, para celebrar essa minha herança maravilhosa.

 

Nota da Redação:

 

Entrevista concedida a Angelo Mendes Corrêa.

O Portal Top Vitrine não se responsabiliza por artigos assinados ou de origem definida.

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Pery Ribeiro

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Pery Ribeiro, o primeiro a gravar Garota de Ipanema

Divulgação/Globo

Minissérie Dalva e Herivelto está disponível em DVD

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Trio de Ouro-Cassino Urca-show Vem a Bahia te espera-1942

Reprodução/Capa

Minhas duas estrelas, de Pery Ribeiro e Ana Duarte

SAB, 16.04.2016

João Signorelli: o ator e a leitura crítica de seu tempo

O maior problema do cinema brasileiro é a falta de bons roteiros

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Em 45 anos de carreira, João Signorelli construiu extenso currículo como ator, atuando no teatro, cinema e televisão. Participou de montagens antológicas, como O Homem de La Mancha, ao lado de Bibi Ferreira e Paulo Autran. Na televisão, dentre as dezenas de novelas e minisséries em que atuou, está Grande Sertão: Veredas, baseada no romance de Guimarães Rosa. Desde 2003 anos tem feito, com grande êxito, pelo Brasil afora, o monólogo Gandhi, de Miguel Filliage e Benne Catanante, com o qual percorreu boa parte do país.

 

Desde quando a arte de representar?

 

Desde 1971, ao entrar num grupo de teatro amador, no Colégio Estadual Oswaldo Aranha, em São Paulo. E profissionalmente desde 1972, na peça infantil A Turma da Mônica Contra o Capitão Feio, de Mauricio de Souza, dirigida por Abelardo Figueiredo.

 

Em quase quatro décadas de carreira, que momentos foram mais marcantes?

 

A estreia de A Turma da Mônica e, no mesmo ano, a estreia no teatro adulto, na peça O Homem de La Mancha, direção de Flavio Rangel, com Paulo Autran e Bibi Ferreira no elenco. Também a minissérie Grande Sertão: Veredas, na TV Globo, em 1985, com direção de Walter Avancini. E o encontro, em 2003, com Gandhi, de autoria de Miguel Filliage e Benne Catanante, com direção de Miguel Filliage.

 

A televisão permite que o ator se desenvolva?

 

Permite desenvolver uma esperteza cênica, pois o tempo é curto e são muitas as cenas a gravar. E você precisa estar bem concentrado e focado para realizar o trabalho.

 

Apesar de vir conquistando públicos maiores nas últimas duas décadas, o cinema brasileiro parece longe das massas. A que atribui tal fato?

 

Acho que o maior problema do cinema brasileiro é a falta de bons roteiros. Temos atores e atrizes maravilhosos, assim como diretores fantásticos, ótimas histórias, mas poucos bons roteiros.

 

Seu maior sucesso no teatro, o monólogo Gandhi, surgiu como?

 

De um pedido de Alexandre Garrett para que Miguel Filliage preparasse um espetáculo de teatro para a abertura de um fórum de recursos humanos, cujo tema era liderança. Depois dessa primeira apresentação, assumi a produção e estou até hoje fazendo.

 

Algum caminho para popularizar o teatro, uma vez que mais de 80% dos brasileiros declararam, recentemente, nunca terem visto uma peça?

 

O governo precisaria tirar alguns impostos e as salas de teatro precisariam diminuir seus lucros. Além disso, ingressos subsidiados pelo governo, o que daria para fazermos espetáculos gratuitos nas periferias das grandes cidades.

 

As leis de incentivo ao teatro têm cumprido seu papel?

 

Totalmente não, pois são os departamentos de marketing das empresas que decidem em que companhias eles irão investir. Aí procuram geralmente atores famosos e sempre os mesmos nomes são contemplados, ficando os novos com dificuldade de aparecer.

 

Nota da Redação:

 

Entrevista concedida a Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos.

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Reprodução/Internet

João Signorelli

SAB, 09.04.2016

Daniel Lobo: o teatro e as sincronicidades

Seu primeiro trabalho na TV foi como Pedrinho, no Sítio do Picapau Amarelo

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Em maio de 2012, o ator, diretor e dramaturgo Daniel Lobo, por ocasião da temporada de Nise da Silveira Senhora das Imagens, na capital paulista, nos ofereceu lúcido depoimento sobre suas sensíveis concepções de arte e seu envolvimento com aquela que foi a maior psiquiatra brasileira de todos os tempos.

 

Sua visceral ligação com a vida e a obra de Nise da Silveira pudemos medir muito de perto, pois tivemos a alegria de por várias vezes hospedá-lo em nossa casa, assim como a atriz Mariana Infante, sua companheira nas primeiras temporadas do espetáculo. Comum era avançarmos as madrugadas, em entusiasmadas e enriquecedoras conversas sobre a ilustre alagoana e o papel transformador da arte em nossas vidas.

 

Vítima de um processo tumoral bastante agressivo, Daniel Lobo faleceu, aos 43 anos, em 24 de março último.

 

Seu primeiro trabalho em televisão foi viver o personagem Pedrinho, no Sítio do Picapau Amarelo. Como foi esse início? Por essa época, já existia a consciência de que seria ator quando adulto?

 

Sim. Desde pequeno sempre tive a consciência de que essa era a minha vocação. Tinha mesmo muita convicção de que seria ator. Ou palhaço! Chorava para minha mãe, pois queria ter um circo. E quando ia aos circos, quanto mais humildes fossem, mais eu me identificava com a energia que pairava no ar. Um misto de ingenuidade e pureza, não sei explicar. Claro que ser Pedrinho foi algo mágico. Mas antes do Pedrinho, eu já tinha feito teatro. O teatro sempre foi minha paixão.

 

Atualmente, o ator deu lugar ao autor e diretor. O que o levou à mudança de posição? Quais os maiores desafios para o dramaturgo e diretor?

 

Dirigir era um desejo antigo, algo que me acompanhava há duas décadas. Tive duas experiências antes de Nise. Um espetáculo dedicado ao público infanto-juvenil, Coisas do Gato da Velha, de Bethe Araújo. Era quase uma metáfora do teatro feita para crianças. E a versão teatral do CD O Amante do Girassol, que realizei em parceria com João Carlos Assis Brasil, um dos maiores pianistas que temos em atividade. Assinei a concepção original da montagem de O Amante do Girassol e chamei o Xarlô para a direção e cenografia, promovendo um diálogo que foi enriquecedor. A encenação foi inspirada no CD homônimo que fiz com poemas e canções de minha autoria, interpretados por diversas personalidades como Zilda Arns, Monja Coen, Amyr Klink, Reynaldo Gianecchini, Mariana Ximenes, Eva Wilma, Paulo Goulart, Diogo Vilela, Chico Anysio, José Mayer, enfim, algo bem eclético e extremamente autoral. A trilha original do CD é de uma renomada orquestra de Santa Catarina, a Camerata Florianópolis, sob a regência do maestro Jeferson Della Rocca. E a direção musical do Mayrton Bahia. Acredito que o processo de concepção de O Amante do Girassol foi uma preparação para a direção de agora em Nise. Existem vários desafios. No meu caso, que assino também a dramaturgia, com a importante colaboração da atriz Mariana Terra, um dos desafios é: será que o que imaginamos no papel terá sentido cênico, vida própria? E é realmente um alívio ver plena e viva esta matemática humana acontecer, ou seja, perceber a plateia reagindo quase que nos mesmos momentos, com a mesma intensidade, e nas texturas que foram projetadas originalmente. Trabalho muito com a intuição (ou inconsciente?). Não tenho profunda formação acadêmica. Ou melhor, nenhuma. Minha formação foi a vida quem deu e a prática de meu ofício. Acho que a função do diretor é observar. E sentir que material humano está ali, à disposição. Transformar sempre. Saber mudar de rota sem perder a concepção que originou aquela partitura cênica, que só se completará no encontro com a plateia. Importante também experimentar o desapego. Saber dizer não às suas próprias ideias. Mas ser firme e acreditar com fé nas escolhas que forem feitas ao longo do processo de criação, que, é importante salientar, jamais finda. Um espetáculo jamais estará pronto. Como a vida, sempre será uma partitura aberta. Para um ator/diretor outro desafio é saber olhar o intérprete com pureza, sem vícios, sem tentar adaptá-lo ao estilo ou performance que você faria. Erro que todos os diretores/atores cometem. Eu também, claro. Mas o importante é isso. Estar aberto e atento a tudo. E humildade para aceitar e reconhecer o erro e escolher novos caminhos. Eterno lapidar.

 

Como surgiu a ideia de escrever a peça Nise da Silveira Senhora das Imagens?

 

Em meados de 2008, li uma reportagem que dizia da importância da doutora Nise e que completaríamos uma década de sua partida. Já conhecia sua obra, assim como o legado que deixou não só na busca por uma psiquiatria mais humanitária, mas também às artes em geral. Pouca gente sabe, mas a Nise foi a responsável por um dos maiores sucessos do teatro brasileiro que foi Artaud, feito pelo saudoso Rubens Corrêa. Foi ela quem incentivou o Rubens e o Ivan de Albuquerque a encenarem a obra de Antonin Artaud. E este acabou sendo o espetáculo emblemático do Rubens, que ele fez até o final da vida.

 

Quando li essa matéria tive um insight e decidi montar o espetáculo. A ideia veio realmente com muita força e muita convicção. Eu, que até ali tinha uma carreira mais como ator, tive a certeza de que faria um solo multimídia em que eu não atuaria, cabendo a mim a concepção geral do espetáculo, dramaturgia, direção e concepção multimídia.

 

Acredito profundamente na lei da sincronicidade. Assim como na espiritualidade do ato que fazemos ao evocar um personagem de nossa história que já se foi, no caso a grande Nise da Silveira. Em nosso projeto, a história já estava sendo escrita antes mesmo de termos consciência e colocarmos em prática. O Carlos Vereza, grande ator e querido amigo que faz a voz do Jung (ou a voz do inconsciente) no espetáculo, é que disse ao nos conhecer: “Isso não é mais um espetáculo. É um evento espiritual. Está tudo pronto. Vocês só precisam acreditar.” E é verdade. Só essa ligação profunda com o mistério, o desconhecido, é que explica um espetáculo como o nosso se transformar nesse sucesso absoluto. Talento só não basta. Acredito ainda que estamos falando aquilo que o coração das pessoas quer ouvir.

 

Evocamos a voz de um inconsciente profundo. Por isso, o público se identifica, se emociona e mergulha tão fundo. Sobre a sincronicidade e a elaboração da montagem, eu diria que foi a própria Nise que me apresentou a Mariana. Nise e a sincronicidade junguiana. Eu e Mariana nos conhecemos no Rio de Janeiro. Éramos alunos da academia do mestre Orlando Cani. Um dia, comentei que estava criando um espetáculo multimídia sobre a vida e obra da doutora Nise.

 

Mariana, na mesma hora, falou de seu pai, o psiquiatra Raffaele Infante, discípulo de Nise. Aí começaram as sincronicidades. Eu havia conhecido o pai de Mariana 20 anos atrás. No momento em que nos conhecemos, Mariana estava retornando da Itália, após longa temporada, e tinha decidido viver na casa deixada pelo pai. Porém, foi atingida pelo destino. A casa, na Ilha Grande, em Angra dos Reis, foi soterrada no desabamento que acorreu no ano novo de 2010. Foram sete casas atingidas. Todas com vítimas. Exceto a casa de Mariana. Ela tinha combinado de passar o ano novo por lá. Filha de pai italiano e mãe baiana, celebraria a entrada do novo ano oferecendo um vatapá para a comunidade. Quis o destino que ela sonhasse com o pai e decidisse, dias antes da tragédia, sair de lá e ir visitar a mãe no interior da Bahia. Dos escombros, quase nada restou. Exceto seus estudos de ioga, uma foto em que ela medita na natureza, uma imagem em gesso de Iemanjá e uma máscara recebida de presente de um grande mestre da commedia dell'arte. E é justamente essa máscara que dá vida à Nise em sua fase final. Essa ideia de renascimento, de criação a partir do caos, está presente em nossa obra cênica e é fiel ao caminho que Nise trilhou, sempre transformando sombras em luz, caos interno em arte, em criação. Em, como ela gostava de dizer, “emoção de lidar”.

 

“Vai Mariana, pega o cajado, legado de teu pai. E dá vez à voz do coração”. Estas são as palavras que abrem a montagem, na voz do Jung/Vereza. O espetáculo é fruto disso, do nosso inconsciente. Dessa costura sutil de nossas histórias pessoais que se juntam para dar vida cênica à Nise e à sua obra pioneira. E as sincronicidades não pararam por aí. O pai de Mariana se foi com a mesma idade do pai de Nise, 47 anos. E Mariana nasceu no mesmo dia em que Nise fez sua passagem, 31 de outubro. Um Dia das Bruxas. Ah! A máscara que falei acima chama-se La Strega, que representa a Bruxa na commedia dell'arte. Ou seja, estava escrito. Era nossa missão estarmos juntos.

 

Nise da Silveira – Senhora das Imagens é um espetáculo multimídia, envolvendo teatro, dança, cinema e canto. Tal multiplicidade de linguagens exige do diretor um conhecimento amplo de cada uma das linguagens envolvidas. Pode nos contar como foi esse processo?

 

A alma do teatro é o ator, o intérprete. Na prática, não precisa de mais nada, além disso. Mas acredito que os recursos existem e devam ser utilizados se de fato existe uma sincronia com a obra, se auxiliarão o próprio intérprete cenicamente. E é isto que temos em Nise. Todos os recursos estão integrados. Mesmo a escolha dos depoimentos em vídeo projetados, do escritor Ferreira Gullar e do diretor José Celso Martinez Corrêa, tem uma coerência com o tema e com Nise.

 

A palavra que Nise mais gostava era liberdade. De minha parte, sempre acreditei no teatro como uma arte total que abraça todas as outras artes. Vivemos num mundo com rótulos e Nise era contra isso. Acho que a multimídia deve ser utilizada quando tem algo a somar. No nosso caso, achei importante contextualizar para as pessoas a dimensão das pinturas que nasceram nos ateliês que Nise desenvolveu dentro do hospício do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. E que veio depois a se chamar Museu de Imagens do Inconsciente, instituição criada por ela e que completa 60 anos agora em 2012.  Projetamos as imagens do inconsciente e assim dimensionamos ao olhar dos que estão na plateia a força dessas imagens, seu poder de cura e também sua potência enquanto arte. Embora Nise não tivesse como foco revelar artistas, mas sim provocar um processo terapêutico, através da manifestação da psique, por meio das artes.

 

A dança se abriu a nós como ideia, a partir de uma frase de Nise que não me saiu da cabeça. Ela dizia que a comunicação com a esquizofrenia teria pouco êxito se fosse iniciada no nível verbal. Que era preciso partir de expressões simbólicas. A dança entra no espetáculo como forma de atingir justamente essa comunicação simbólica, sem o auxílio da palavra. Justamente no instante em que Nise descobre as artes como processo terapêutico riquíssimo é que projetamos as imagens do inconsciente, as pinturas. É como se a Mariana dançasse as imagens do inconsciente. Além do mais, eu e Mariana temos enorme interesse por um teatro físico. E somos igualmente admiradores profundos da Ana Botafogo, que faz sua estreia coreografando para teatro em Nise.

 

Ana foi uma de nossas principais colaboradoras e incentivadoras.

 

Em seu livro Jogar, representar, Jean-Pierre Ryngaert, diretor teatral e professor da Universidade de Paris III, afirma que “...a pesquisa do código acompanha a elaboração do discurso; ambos nascem do mesmo movimento e participam da mesma necessidade. O código não é determinado em meio a um arsenal de possibilidades; ele faz parte da essência do espetáculo.” A seu ver,  em que códigos se funda e qual a essência de Nise da Silveira Senhora das Imagens?

 

Penso que é justamente o que falávamos acima. Sobre a essência de Nise, poderia destacar três pontos: 1) ser um documentário cênico, ou seja, uma obra que vai além da ficção, que se propõe a se debruçar na vida de Nise, mas também na vida da intérprete Mariana Terra e do legado que ela representa ao estar no palco renascendo em Nise e em sua própria história de vida. Particularmente, a ficção pela ficção me interessa muito pouco ou nada; 2) a espiritualidade, a verticalidade que emana de uma obra como Nise. Existe uma evocação, uma celebração da vida, a partir de pessoas que não estão mais nesse plano. E acredito profundamente que estamos intimamente ligados. Nise escolhe seus pares; 3) o caráter multimídia, assim como a soma das linguagens artísticas, colabora para o que eu chamaria de uma espiral. Um mantra. Acho que é isso. Levamos a plateia a um outro plano. E é nesse mergulho que reside a essência de Nise. Mas é claro que se trata de um pacto em que todos tem que fazer a sua parte. Cada plateia tem o espetáculo que merece. Afinal, Nise é um mosaico construído a partir de Nise, de Jung, de Artaud, de Raffaele e também de cada ser que integra a equipe, principalmente da Mariana Terra, claro. Mas também de cada um que está ali, na plateia. Um sonho dentro de um sonho. Feito do inconsciente, das imagens e dos sonhos que habitam em cada um de nós. A leveza dos sonhos que vem dos pés firmes na terra, da fé na humanidade. Em uma humanidade que possa inventar um futuro onde a exclusão das pessoas denominadas como loucas ceda lugar à convivência, ao elogio da diferença. A transformação precisa começar em nós.

 

Ao fazer uma retrospectiva da trajetória de Nise da Silveira, sua peça, à maneira de um documentário, revive várias figuras importantes de nossa história, na primeira metade do século passado. Como é lidar com isso num país onde a memória é costumeiramente ultrajada?

 

É missão. Estamos fazendo a nossa parte. Porém, apesar dos elogios de todos que conheceram Nise, todo espetáculo sobre um personagem real tem que ser uma releitura. Algo que seja fiel e ao mesmo tempo voe, vá além da mera biografia. Caso contrário, não tem porque existir, não justifica encenar. Um livro sempre contará de maneira mais completa a biografia de alguém. Uma peça é um recorte da vida. E este recorte, paradoxalmente, precisa ser maior que a própria vida do biografado. Uma epifania cênica, eu diria.

 

Um espetáculo é uma licença poética em si. E as licenças são inevitáveis. Não vejo problema se são poéticas e feitas com a pena da paixão sem perder fidelidade à alma do personagem biografado. O que chamamos de licença poética nada mais é do que um exercício de plena criação.

 

Como foi a relação de amizade entre Nise da Silveira e Jung e o que ele significou na formação dela como psiquiatra?

 

A história diz que Freud abriu a porta do inconsciente, mas foi Jung quem entrou! Acho que é isso. Jung entrou e conduziu Nise. Que em perfeita sincronia com o destino já desenvolvia um trabalho profundamente ligado ao inconsciente em seus ateliês dentro do hospício do Engenho de Dentro. Nise se aprofundou nos arquétipos e na mitologia, após conhecer seu mestre C. G. Jung. Se hoje sabemos da existência de Jung no Brasil, isto se deve a ela.

 

Sabemos do interesse de Jung pelos fenômenos espirituais e percebemos em sua peça um leve toque místico.  E a própria Nise da Silveira, em certo momento da vida, revê suas posições materialistas, em decorrência de várias comprovações de fenômenos extra-sensoriais. Acredita que a ciência deva dialogar com a transcendência?

 

A arte tem que dialogar com transcendência. A ciência também. E a medicina e tantas outras áreas. O diálogo tem que ser constante. Existe um todo. As partes não têm função se não coexistirem.

 

Que lugar ocupa o teatro em nosso país, haja vista a imensa influência exercida pela televisão?

 

O lugar ocupado pelo teatro em nossa vida é infinitamente menor do que poderia ser. Mas acho que isso é fruto de um sistema mais complexo, que envolve também os mecanismos de incentivo à cultura viciados e muito de entretenimento que é produzido com fins meramente comerciais. E que deveria existir, claro, mas não sob o telhado do estado, do incentivo público. Num país sem educação, saneamento, segurança, enfim, sem nada, só deveriam existir editais de baixo orçamento. A importância que o teatro tem em nossas vidas é a mesma que a transcendência ou a necessidade dela temos. Por aí se mede a força de um povo, de um país, de uma cultura.

 

Pode nos contar sobre os projetos futuros?

 

Não costumo fazer muitos projetos. Somente aqueles que me falam ao coração. Estou no início de uma pesquisa detalhada para a criação de um espetáculo sobre a vida e obra do pintor Candido Portinari. Foi um convite especialíssimo que recebemos, eu e Mariana, do João Candido Portinari. Ele foi nos assistir em Nise e ficou profundamente emocionado, o que gerou o convite que muito nos honra. Acredito que seja um espetáculo para estrear no final de 2013 ou início de 2014. Ainda em 2012, deveremos estrear no SESC SP Nise da Silveira – Guerreira da Luz. Trata-se da versão do espetáculo atualmente em cartaz com as participações especiais do pianista João Carlos Assis Brasil, executando ao vivo a trilha sonora original, e da bailarina Ana Botafogo, que estará em cena junto com a atriz Mariana Terra.

 

Nota da Redação:

 

Entrevista concedida a Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos.

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TV Globo/João Miguel Júnior

Daniel Lobo, o terceiro da esquerda para a direita

Arquivo de família

"O teatro sempre foi minha paixão"

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Angelo Mendes Corrêa nasceu em São Paulo, SP. É mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), onde cursou bacharelado e licenciatura em Letras. Na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP), fez Direito e Jornalismo. Desde 1987 é professor de Português, Literatura Brasileira, Literatura Portuguesa, Teoria Literária e Produção de Textos, nos níveis médio e superior. Começou no Jornalismo em 1985 e colaborou na Folha de S.Paulo (S.Paulo,SP), Jornal da Tarde (S.Paulo,SP), Linguagem Viva (S.Paulo,SP), São Paulo Review (S.Paulo,SP), Protexto (S.Paulo,SP), Revista de Literatura Brasileira (S.Paulo,SP), Revista Bibliográfica e Cultural (S.Paulo,SP), Veredas (S.Paulo,SP), Meiotom (Atibaia,SP), Verdes Trigos (Presidente Prudente,SP), O Boêmio(Matão,SP), Gazeta do Rio Pardo(S.José do Rio Pardo,SP), Jornal de Letras(Rio de Janeiro,RJ), Arte de Fato(Rio de Janeiro, RJ), Revista da Academia Mineira de Letras (Belo Horizonte, MG), A Semana (Divinópolis, MG), Jornal da Cidade (Poços de Caldas,MG), Brand News (Poços de Caldas,MG), Jornal da Associação Nacional de Escritores (Brasília, DF), Hoje em Dia (Brasília, DF), Opção Cultural (Goiânia, GO), Letra&Fel(Vitória,ES), Fronte Cultural (Chapecó,SC), Diário da Manhã (Pelotas,RS), Verbo21 (Salvador,BA), Diversos Afins(Ilhéus,BA), Correio das Artes(João Pessoa, PB) e Alto Madeira (Porto Velho,RO). Coautor dos livros Um Poeta Brasileiro em Portugal; (Temas Originais,Coimbra/Letra Selvagem,S.Paulo) e Tecendo Literatura: Entre Vozes e Olhares (Humanitas,S.Paulo). Ator bissexto, participou dos curta-metragens Através dos Bosques e Os Sonhos, ambos do diretor Otávio Mendes. 

Itamar Santos nasceu em São Paulo, SP. É mestrando em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP). Licenciado em Artes pela Faculdade Belas Artes de São Paulo e em Desenho pela União das Faculdades Francanas (UNIFRAN). Cursou Administração de Empresas na Universidade Cidade de São Paulo (UNICID) e Teatro no Teatro Escola Macunaíma. Fez cursos de especialização na York University, Seneca College e The Bickford Centre, em Toronto, Canadá, onde viveu por mais de uma década, trabalhando como tradutor. Professor de Artes, Desenho e Inglês, nos níveis médio e superior. Como ator atuou nas peças A Exceção e a Regra (Bertold Brecht), Em Nome do Teu Coração (William Butler Yeats), O Berço de Ouro (Erasmo Caldas), Romeu e Julinha (Oscar Von Pfhul), Vamos Falar de Amor Sem Dizer Que Eu Te Amo (Heiner Müller) e nos curta-metragens Através dos Bosques, Irremediável e Os Sonhos, do diretor Otávio Mendes. É autor do argumento do curta-metragem Os Sonhos, de duas peças teatrais, Passagens de Tempo (baseada no livro homônimo do psiquiatra e filósofo Mauro Maldonato) e Eutanásia, bem como dos livros infantis O Pequeno Don e O Ladrão de Sonhos e da novela Tobias, todos inéditos. Como jornalista, colaborou na São Paulo Review (S.Paulo, SP), Linguagem Viva (S.Paulo, SP), Protexto (S.Paulo, SP), Meiotom (Atibaia, SP), Arte de Fato (Rio de Janeiro, RJ), Letra&Fel (Vitória, ES), Verbo 21 (Salvador, BA), Diversos Afins (Ilhéus, BA) e Correio das Artes (João Pessoa, PB). É membro do Grupo de Pesquisas de Produções Literárias e Culturais para Crianças e Jovens da Universidade de São Paulo (USP). A Coluna +Cultura é veiculada no Portal Top Vitrine desde 3 de julho de 2015.

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