Campo Grande-MS 26.04.2017

Cinema, Diversão & Arte

Mario Masetti

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QUI, 11.02.2016

Teje preso

Artêmio Siqueira teve uma carreira com altos e baixos

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Artêmio Siqueira era um ator das antigas, sistemático, metódico. Levava a profissão com seriedade, daqueles que estudam seus papéis com profundidade, sem inventar nada fora dos parâmetros dados pela direção do espetáculo. Chegava no teatro pelo menos três horas antes do início da função, organizava a sua contraregragem, checando todos os objetos que usaria em cena, verificava o figurino, material de maquiagem e relaxava até o horário da sessão, deitado no palco do teatro, olhando os refletores e as varas com os cenários. Levava uma vida modesta, porém feliz. Fazia o que gostava. Não rejeitava papéis, o que viesse lhe estava bom. Por isso teve uma carreira com altos e baixos, às vezes representando personagens protagonistas, outras vezes, pequenas pontas. Fazia o que fosse, com o mesmo empenho e dedicação.

 

Dizem que o Teatro é uma profissão de fé. Para alguns, sem dúvida. Pessoas que dedicam suas vidas à arte de interpretar, o que os transformam em sabedores das mais diversas coisas, de acordo com os personagens que estarão representando naquela oportunidade, estudando, para que seus desempenhos se aproximem ao máximo do famoso tom que dê a impressão da verdade. Em período de ensaios, se transformam. Passam a viver diariamente como o personagem que estão trabalhando naquele momento. Copiam os trejeitos característicos daquela profissão. Passam a falar com as eventuais  deformações que a atividade do personagem exige. Mancam, andam curvados, forçam graves e agudos em suas vozes, tudo com a intenção de chegar perto da perfeição em seus desempenhos profissionais. E viram médicos, caixeiros viajantes, ditadores, guerrilheiros, deuses, faunos, enfim, uma gama de atividades e fazeres, que só essa profissão de fé permite.

 

Naquela temporada, Artêmio estava fazendo um papel pequeno. Uma peça francesa, de época, perucas, saltos Luiz XV, rendas e dourados. Maquiagem branca, próprias da nobreza. Ele fazia um assassino, objeto do enredo do espetáculo, que se desenvolvia na dificuldade de encontrá-lo e prendê-lo, o que acontecia no final. O espetáculo tinha uma peculiaridade. O personagem de Artêmio entrava em cena apenas no início e no final da peça, ou seja, no primeiro e no terceiro ato,o que lhe propiciava mais de uma hora e meia fora de cena. No início da temporada, tudo bem. Artêmio fazia sua entrada inicial, apunhalava uma mulher e saia sorrateiramente de cena. Ia para seu camarim e lá ficava. Lia, muito. Cansava, ia até uma área externa na parte detrás do Teatro e fumava um cigarro. Voltava para o camarim, lia mais um pouco, jogava paciência e então, com muita folga, voltava para a coxia e se preparava para a sua segunda entrada. Nela, também apunhalaria uma outra mulher, só que desta vez era barrado e preso pelo detetive da peça. O espetáculo era um sucesso estrondoso e já estava há dois anos em cartaz. Sim, houve um tempo em que espetáculos de teatro ficavam muitos anos em cartaz. Aquela rotina, começava a incomodar nosso ator. Um dia, se utilizando de uma porta lateral, Artêmio se aventurou até a frente do teatro, comprou um saco de pipocas e voltou para o camarim. Num outro dia, relógio em punho, saiu novamente, comprou a pipoca e comeu lá mesmo. Voltou bem antes, para fazer sua segunda entrada. E assim foi ousando, cada dia mais, porém sempre responsável, voltava com tempo de sobra para sua última cena. Aquilo foi lhe dando coragem. Da carrocinha do pipoqueiro, instalada na frente do Teatro, via na esquina, iluminado, um botequim. Seria sua próxima conquista. Metódico que era, calculou tempos, x minutos até o bar, mais x minutos para uma cervejinha e mais x minutos para voltar e se posicionar para entrar em cena. Um belo dia, arriscou. Saiu, atravessou a rua chegou no bar e pediu uma cerveja. Estranhou que todos o olhavam espantados e só então se deu conta que estava com o figurino de cena, a peruca e a maquiagem carregada. Achou graça da situação, mas não deu bola. Tomou a cerveja, gole a gole. Não sabia por que, se sentia livre, feliz pelo ato proibido que estava fazendo. Sempre olhando o relógio e ainda dentro do tempo calculado, Artêmio levantou-se, pagou a cerveja e, sem perceber, se despediu com um até amanhã.

 

Alguns meses depois, já mais relaxado, Artêmio continuava com a sua saida do teatro para o bar. Agora bem mais folgado, pois percebeu que o tempo era mais que suficiente para duas cervejas acrescidas de uma partida de dominó. Havia feito novas amizades no bar e o jogo das pedras pretas, realmente ajudava a passar o tempo. Jogava a partida e voltava para o Teatro, para esfaquear sua colega de trabalho e ser preso pelo detetive.

 

O tempo foi passando e aquela rotina continuava, sem problemas. Até que um dia... Era um sábado, teatro lotado, realmente a peça era um sucesso. Artêmio fez sua entrada inicial impactante. Quando apunhalava a personagem, o teatro reagia com um ohhhhhhh sincero. Saiu de cena e rapidamente se dirigiu para o boteco ao lado. Sua cerveja e seu lugar na mesa já o esperavam. E o jogo começou. As pedras batendo e os gritos eufóricos não permitiram que Artêmio escutasse o ruído das sirenes de um carro de polícia. Quando levantou a cabeça, já era tarde. Seus colegas, a maioria, tinha caído fora. Ouviu um “mão na cabeça e encosta na parede”, seguido de “documento!” E ficou ali, esperando sua vez, de costas para o bar com as mãos para cima. O Policial, ao se deparar com aquela figura estranha, com rendas nos punhos, peruca e maquiagem, não resistiu: “Ô Dama das Camélias, vira de frente e mostra o documento”. “Tô sem”. “Então entra no camburão”. “Eu posso explicar, sou um ator, estou em cartaz naquele teatro ali ao lado.”

 

“E eu sou o Tony Ramos e tou na Globo! Entra no camburão!”. “Não posso, tenho que voltar pro teatro pra matar uma mulher, agora, daqui cinco minutos”. “Tá se complicando, boneca. Quem mata aqui somo nós, autoridades policiais.” “Bem feito, quem mandou não estudar.“ E entrou, debaixo de porrada, no camburão.

 

No teatro, chegara a hora de sua cena. A atriz que seria assassinada esperou um tempo e... nada. Improvisou, “Essa hora que não chega!” Na coxia, o ator que representava o detetive, olhava para todos os cantos e falava baixinho, entredentes. “Artêmio, Artêmio. Onde é que voce se meteu... desgraçado”. A atriz, percebendo que Artêmio não chegara e não chegaria, improvisou mais ainda: “Acho que estou com vontade de me esfaquear”. E tirou da cabeça um prendedor de cabelos que serviria de punhal. Num último extertor o detetive entrou em cena e, mais canastrão que nunca,  falou: “Consegui prender o miserável nos jardins do palácio. Pronto. Você já não corre mais perigo. Venha para os meus braços.” E com a mão, sorrateira, sinalizou para a coxia, implorando para que as cortinas fossem fechadas. O público não entendeu nada. Aplausos xôxos se misturaram a algumas tentativas de vaias.

 

No dia seguinte, Artêmio foi solto, depois de dormir na delegacia. À noite, no teatro, ninguém falou com ele. Uma única coisa diferente foi notada. Um reluzente cadeado trancava a porta que dava saída para a rua.

 

Nota da Redação:

 

O conto inédito "Teje preso", de Mario Masetti, faz parte do livro "O Urso terrorista e outras histórias de Cinema, Teatro e Televisão", que será lançado em março pela editora Sá Editora.

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Divulgação/Yuri Pinheiro

Cena do filme (piloto) Teje preso

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Cinema, Diversão & Arte

Com atuação reconhecida em cinema, televisão, teatro e propaganda, Mario Masetti iniciou sua carreira em 1967 como assistente de direção de Augusto Boal, no Teatro de Arena de São Paulo (SP). Estreou como diretor teatral em 1975 com "Porandubas Populares", ganhando o prêmio APCA como Diretor Revelação. Além de sua atuação como realizador teatral, Masetti tem trabalhado como produtor e diretor assistente em mais de vinte filmes de longa metragem com os mais importantes realizadores do cinema brasileiro, entre eles Maurice Capovilla (O Jogo da Vida), Leon Hirszman (Eles Não Usam Black Tie), João Batista Andrade (A Próxima Vítima, País dos Tenentes), Ugo Giorgetti (Boleiros, O Príncipe, Boleiros 2, Uma Noite em Sampa e A Cidade Imaginária). Masetti integrou a equipe de diretores da produtora Blimp Film, tendo realizado vários documentários para o programa Globo Repórter. Realizou ainda os programas de Televisão "Os Brasileiros e a Música" Série: Os Brasileiros - TV Manchete, "Os Brasileiros e a Saudade" Série: Os Brasileiros - TV Manchete, "PCN na Escola - Português" Série de 18 programas para a TV Escola – MEC - "Mão na Forma" - Série de seis programas sobre Geometria para a TV Escola – MEC – "Telecurso-Tec", Série de 140 programas de teleeducação para a Fundação Roberto Marinho. Série "Ofício de Professor na TV", TV Cultura/Fundação Vitor Civita. "Telecurso 2000 +10" – Fundação Roberto Marinho e a série "Teatro Rá-tim-bum" para a TV Cultura de São Paulo. Para a mesma emissora, dirigiu os programas "Cambalhota, Profissão Professor" e "Almanaque Educação". Dirigiu em 2010, para a TV Brasil, a série "Almanaque Brasil" e para a mesma emissora a série "Resistir é Preciso", em coprodução com o Instituto Vladimir Herzog. Atualmente, é diretor dos programas do "Canal Educar", da Abril Educação. Foi, nos anos 80, um dos sócios da Tatu Filmes, empresa importante para o desenvolvimento do cinema em São Paulo, que produziu vários filmes, destacando-se "Janete", "A Marvada Carne", "A História de Vera" e "Feliz Ano Velho". Ocupou vários cargos públicos, como o de Diretor do Centro Cultural São Paulo, Conselheiro da Cinemateca Brasileira, professor de interpretação na Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo (USP), professor na Escuela Internacional de Cine y TV (Cuba), professor da disciplina Direção Cinematográfica no curso de Audiovisual na Escola de Comunicações e Artes da USP, Membro da Comissão Estadual de Cinema, diretor artístico da APAA – Associação Paulista dos Amigos da Arte, Organização Social ligada à Secretaria de Estado da Cultura - São Paulo. Em 2013 escreveu e publicou pela Sá Editora o romance Por Amor. Paralelamente à sua atividade cultural, é diretor de filmes publicitários desde os anos 70, tendo realizado uma infinidade de filmes para as principais agências do País. Mario Masetti é articulista do Portal Top Vitrine desde fevereiro de 2016.

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