Campo Grande-MS 27.05.2017

Carlos Brickmann

Política

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DOM, 20.03.2016

Carlos Brickmann: Uma guerra sem fim

Liberdade de expressão, sim; mas só para amigos e aliados

Carlos Brickmann

Para o Portal Top Vitrine

Sua história, seu comportamento, nada importa: a qualquer frase que desagrade a qualquer lado deste Fla-Flu imbecil, uma máquina de demolir reputações começa imediatamente a funcionar. De um momento para outro, fãs de Lobão passam a detestá-lo, antigos admiradores de Chico Buarque o acusam de não saber rimar, personalidades de impecável trajetória são atacadas por pessoas que, convenhamos, não chegam a seus pés. Fernando Gabeira, quando achou que era o caso, pegou em armas contra a ditadura, foi ferido, preso, torturado e exilado. Foi companheiro de Lula e seu candidato a vice. Hoje acredita que Lula e o PT estão errados – e por isso passa a ser alvo de difamação. Um jornalista que nem mora no Brasil ameaçou o excelente chargista Chico Caruso de “escracho”: militantes ensandecidos às portas de sua casa, berrando dia e noite contra ele. A rede de lanchonetes Habib’s, cujos proprietários apoiaram a passeata Fora Dilma, sofre ameaças de boicote (e seus salgadinhos, apreciados, são acusados falsamente de provocar azia). Liberdade de expressão, sim; mas só para amigos e aliados.

 

O mais grave acaba de acontecer: um colunista divulgou uma lista de pessoas famosas que, acha, devem ser boicotadas porque são petistas. A lista é incompleta; e delirante, já que aponta como petista até Delfim Netto. O autor diz que não se importa de ser o McCarthy brasileiro – cita Joe McCarthy, o senador americano que perseguiu gente como, por exemplo, Charlie Chaplin. Nem isso ele consegue: McCarthy, um radical perigoso, enlouquecido, foi pelo menos original.

 

Eles contra nós

 

O autor da lista de boicote a petistas não é o único doido que quer matar de fome os adversários (“não assistam a seus programas, não leiam suas colunas, não comprem seus livros (...)”. A esquerda já fez isso com um dos grandes cantores brasileiros, Wilson Simonal, patrulhado até a morte. Recentemente, esquerdistas pediram, para fins de perseguição, a lista de estudantes israelenses na Universidade Federal de Santa Maria (as autoridades preferiram deixar pra lá). Mas está na hora de acabar com isso: um dia, o Brasil terá de conversar para sair do caos dilmista. Como conversar se cada lado patrulha o outro e tenta eliminá-lo? Imitando um slogan idiota, de comício, país desunido sempre será vencido.

 

Tiro livre

 

O caro leitor acha que a situação está confusa? Tem toda a razão, mas ainda vai piorar: o deputado Pedro Corrêa, do PP de Pernambuco, envolvido em nove de cada dez casos de grande repercussão, acaba de revelar os alvos de sua delação premiada, aprovada nesta semana. Atinge Lula, que Corrêa coloca no topo da pirâmide (auxiliado por José Dirceu, este apenas como operador), em obras como Belo Monte, Angra 3 e outras. No total, são 118 pessoas citadas, entre deputados federais, senadores, governadores, ministros e o então presidente Lula.

 

A marcha do impeachment

 

Toda essa discussão sobre delações, grampos, vazamentos é importante, mas mais importante ainda é a votação do impeachment. A comissão da Câmara que analisa o tema já está instalada e o prazo para sua manifestação está correndo. O presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha, acha que teremos novidades em abril ou maio. Dilma precisa reunir um sugestivo número de deputados – 171 – para derrubar o impeachment. Mas está difícil: com os grampos de Lula, a bancada do Governo está se desmanchando. PMDB, PR e PP preparam a despedida (têm, juntos, 145 parlamentares). Logo estarão na bancada só o PT e o PCdoB. Será necessária uma imensa negociação para conseguir o número mágico, 171.

 

Bons de bico

 

Os tucanos amaram as delações premiadas. Mas, quando Delcídio Amaral denunciou Aécio Neves, do PSDB, silenciaram. Delcídio disse que Aécio foi beneficiado pelo esquema de Furnas. As acusações podem ser falsas: mas, no caso, Delcídio perderia os benefícios da delação premiada. E como explicar que, para os tucanos, as denúncias contra petistas sejam verdadeiras e as demais, falsas? Conta Delcídio, ex-tucano que se converteu ao PT: “Quem comandava o esquema em Furnas era Dimas Toledo, nomeado no governo tucano. Numa viagem, Lula perguntou quem era Dimas”. Delcídio disse que era “um companheiro do setor elétrico, muito competente.” Lula completou: “Eu assumi e o Janene veio me pedir pelo Dimas, depois veio o Aécio e pediu por ele. Agora o PT, que era contra, está a favor. Pelo jeito ele está roubando muito.” Mas nada fez. Ou fez.

 

Arquivos implacáveis

 

Do Espaço Vital, www.espacovital.com.br: “O deputado Silvio Costa (PTdoB-PE), vice-líder do governo na Câmara, deu entrevista, no dia 4 deste mês, à Rádio Jornal de Pernambuco. Falou sobre a Lava-Jato e garantiu que ‘não pegarão o Lula, porque ele não tem crime nenhum’. E arrematou, profético: ‘Se Lula achasse que iam pegar ele, logo virava ministro da Dilma’.”

 

A grande frase

 

Também do ótimo portal jurídico Espaço Vital: “A música ‘Travessia’, de Milton Nascimento, passa a integrar a biografia de Lula. É que tem um verso que canta assim: ‘Minha casa não é minha, e nem é meu esse lugar’.”

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QUA, 16.03.2016

Ali Babá e os 40 alopradões

Os tesouros ficam num cofre de banco ou num sindicato

Carlos Brickmann

Para o Portal Top Vitrine

Dilma pensava em salvar seu Governo tirando o gênio da garrafa. Mas, fã de Alice no País das Maravilhas, não conhece as Mil e Uma Noites. Nos tempos de Ali Babá, os tesouros ficavam numa caverna, que se abria com a senha Abre-te Sésamo. Hoje, os 40 ladrões se multiplicaram. Os tesouros ficam num cofre de banco ou num sindicato e parte é alopradamente usada para comprar silêncios. Mas quem vende silêncio costuma delatar os compradores para sair da cadeia.

 

O problema, para o Governo, é que as delações saem aos poucos. Se todas surgissem ao mesmo tempo, daria para inventar uma história boa, que arrumasse os fatos. Não está dando: inventa-se uma história bonitinha, eu não sabia, a casa era emprestada, toma que o filho é teu, e aí surge nova delação, desmentindo tudo. As denúncias de Delcídio, agora liberadas, são de arrepiar. E atingem, com gravação e tudo, o mais fiel dos fiéis, Aloízio Mercadante. Na sexta, quando Dilma disse que ia renun..., quer dizer, que não ia, ou sabe-se lá, quem era o único ministro a seu lado? Ele: Aloízio Mercadante. Que propôs a um assessor de Delcídio tudo o que fosse pedido, em troca de não haver delação premiada. Algum promotor mal-humorado pode entender isso até como obstrução à Justiça.

 

Delcídio cita Lula, Dilma, políticos do PP, PMDB, PT, PTB. E Delcídio pode ser fichinha: o deputado federal Pedro Corrêa, do PP, também decidiu falar. É do ramo, sabe como as coisas são feitas. Ele nunca quis aparecer: nomear e dividir, era disso que gostava. Pelo jeito, a Federal terá de importar japonês.

 

Aloprem-se

 

Lula deve favores a Mercadante – que, entre outras coisas, desistiu de uma eleição garantida para a Câmara Federal para ser vice de Lula, que não tinha chance. Mas, apesar disso, Lula não quer Mercadante por perto. Considera-o afoito, incapaz de um projeto que dê certo. Foi Lula que chamou a equipe de Mercadante de “os aloprados” numa eleição estadual, em que José Serra já estava eleito. Os petistas acharam que valia a pena comprar um dossiê falso contra ele e foram apanhados. Por pouco não atrapalharam a reeleição de Lula em 2006.

 

Recordando

 

Pedro Corrêa está condenado a 20 anos e sete meses de prisão (e preso desde 10 de abril do ano passado), por recebimento de propina de R$ 11,7 milhões, 72 crimes de corrupção passiva, mais 328 operações de lavagem de dinheiro.

 

Mercadante, antes de buscar o assessor de Delcídio, tentou contato com a família do senador. Mas a esposa Malka recusou qualquer conversa com ele. Desde o início, irritada com o comportamento dos antigos companheiros de Delcídio, que o abandonaram, defendia que o marido optasse pela delação premiada.

 

Prevendo

 

Não dá para jurar que o autor dessas frases seja o citado. Mas é de ambos que me lembro. De Pedro Malan, ministro da Fazenda: “No Brasil, até o passado é imprevisível”. De Joelmir Beting, um dos maiores jornalistas do país: “Prognóstico bom só depois do jogo”. Mas arrisquemos: Lula pode ir (ou não) para o Governo. Mas não irá nem para a Fazenda nem para a Casa Civil, porque as empreiteiras e os amigos ainda não terminaram de reformá-las. Se for para o Governo, e der certo, teremos, como nunca dantes neste país, uma ex-presidente em exercício (todas as manhãs, alguns quilômetros de bicicleta). Se não der certo, teremos dois ex-presidentes em exercício, até que o vice Temer os convide a descansar.

 

Vale tudo

 

A entrada de Lula no Governo é a última tentativa de sobrevivência de Dilma. Lula sem dúvida é politicamente mais competente do que ela e qualquer dos seus ministros. Pode fazer algumas indicações interessantes – uma boa aposta seria Henrique Meirelles, que foi seu presidente do Banco Central, para o Ministério da Fazenda – isso se ele estiver disposto a aceitar as teses de Meirelles, que não assumirá pasta nenhuma para perder sua reputação. Mas os riscos são altíssimos: primeiro, a discussão jurídica, se a nomeação tem ou não o objetivo de salvá-lo do juiz Sérgio Moro; segundo, a superexposição a que ficam submetidos sua esposa e três de seus filhos, que não têm foro privilegiado; terceiro, os resultados a curto prazo. Lula assumiu em 2003 como esperança e hoje está longe de ter o apoio de que já desfrutou. E, alvo de delação premiada (Delcídio o aponta como responsável por providências que podem causar problemas), sobreviverá?

 

O PMDB como é

 

OK, o PMDB decidiu, mais ou menos, afastar-se de Dilma, mas deu 30 dias de prazo para efetivar o rompimento – em outras palavras, espremer o resto do leite das tetas quase secas do Governo. Ninguém precisa deixar seu cargo até lá. Em compensação, nenhum membro do partido pode aceitar um convite – menos, naturalmente, o deputado Mauro Lopes, que esperava há tempos ser nomeado ministro da Aviação Civil. Como não disse Sua Excelência, o PMDB sempre lutou por cargos; vai mudar justo quando a vez dele chegou? Então, tudo bem, nada de inflexibilidade. E, se mais cargos houver, mais exceções haverá.

O Portal Top Vitrine não se responsabiliza por artigos assinados ou de origem definida.

DOM, 13.03.2016

O ex-Governo e seus ex

Se Lula virar ministro Dilma terá deixado de ser presidente

Carlos Brickmann

Para o Portal Top Vitrine

Mais uma vez, o mundo se curva ante o Brasil: nunca dantes na História universal um país teve a oportunidade de ser governado ao mesmo tempo por dois ex-presidentes. Se Lula virar ministro – de qualquer Ministério, até mesmo o da Pesca – Dilma terá deixado de ser presidente, embora continue no palácio, com mordomias, dieta Ravenna, passeios de bicicleta com seguranças e avião oficial. Lula, o ex-presidente, vira o governante de fato. Se a Bolívia não tem mar mas tem ministro da Marinha, se no Gabão há Ministério da Justiça, por que não podemos ser governados por dois ex-presidentes, ou por apenas um, ou nenhum?

 

Pode ser – mas só amanhã saberemos se o atual ex aceitou o convite da futura ex para assumir algum Ministério. Por que a demora? Porque, claro, a opinião pública maldosa talvez conclua que Lula terá sido nomeado ministro para ganhar foro privilegiado e assim escapar da caneta do juiz Sérgio Moro. Se a nomeação saísse nos últimos dias, a manifestação Fora Dilma, Fora PT deste domingo, que mostra potencial para ser a maior de todas, cresceria ainda mais. Melhor esperar.

 

Vladimir Putin governou a Rússia como presidente, ex-presidente e presidente de novo. Mas a Rússia é parlamentarista, tem primeiro-ministro, e o Brasil é presidencialista. Lula não é Putin. O preposto de Putin na Presidência, Dmitri Medvedev, não é Dilma. Aceitou bem seu papel de poste e não tentou escantear o líder. Claro, prepostos sempre têm algo em comum: os discursos de Medvedev também são incompreensíveis. Mas só porque são em russo. É diferente.

 

Lembrando

 

Terminada a Segunda Guerra Mundial, em 1945, com a derrota das ditaduras, o ditador Getúlio Vargas balançou no poder, mas ainda tinha apoio para manter-se. Tentou reforçar sua posição: nomeou para o cargo mais importante da segurança pública, a chefia de Polícia do Rio, seu irmão, Benjamin “Beijo” Vargas. Os generais rejeitaram a tentativa de golpe presidencial. Getúlio foi deposto.

 

Novidade

 

No PT, anunciou-se que Lula poderia ir para a Casa Civil, de onde comandaria o esforço para reerguer o Governo (Jaques Wagner iria para outro posto importante). Só que a Casa Civil carrega uma maldição: José Dirceu foi preso, Erenice Guerra foi demitida após acusação de favorecimento de parentes e amigos, Antônio Palocci foi demitido depois que se apurou a multiplicação de seu patrimônio. Lula seria uma novidade: já assumiria submetido a várias investigações.

 

A hora da xepa

 

Como está o clima em Brasília? Ricardo Kotscho, que gosta pessoalmente de Lula, que foi seu secretário de Imprensa na Presidência, eleitor fiel do PT, define a situação do Governo como “fim de feira”. E tudo tende a piorar. Jornalistas políticos, como José Nêumanne, batem pesado: “Faltar à manifestação”, diz Nêumanne, “será favorecer o crime organizado”. Lojas se associam à convocação, como a rede de lanchonetes Habib’s. Há as delações do pessoal da Odebrecht, a homologação da delação de Delcídio, o interrogatório do marqueteiro João Santana e de sua esposa. Na política, Renan Calheiros se uniu a Michel Temer, reunificando o PMDB, e o comando do partido decidiu agir de acordo com o PSDB. Nem chega a ser traição: o PMDB crê que Dilma não tem como se sustentar e é preciso cuidar do futuro. Se Dilma sofrer impeachment (ou renunciar), assume Temer. Se a chapa for cassada pelo TSE, quem assume é Eduardo Cunha, para convocar eleições. Não dá (veja abaixo: Cunha tende a enfrentar novos problemas). Temer, num grande acordo partidário, seria a saída menos traumática.

 

Tiro ao Cunha

 

Lembra das contas na Suíça, com US$ 5 milhões, que alimentavam as despesas de Eduardo Cunha e família? São só o começo. O Supremo investiga, no total, 13 contas na Suíça e em outros países, nas quais, supõe-se, foram parar pouco mais de 50 milhões de acarajés. Quem indicou o caminho foi a Carioca Engenharia, responsável pelas obras do Porto Maravilha, no Rio. Cinco contas abastecidas com dinheiro de propina, dizem os delatores da Carioca, seriam com certeza de Cunha; sobre outras quatro não há certeza, mas a probabilidade é alta. E há as quatro já identificadas, das quais Cunha diz receber apenas os rendimentos.

 

Liberdade, liberdade

 

Mas, apesar de tudo, não há apenas más notícias para os petistas mais próximos de Lula e Dilma. A Turma do Mensalão vai sendo silenciosamente liberada das punições a que foi submetida nos velhos tempos, quase esquecidos, do ministro Joaquim Barbosa. João Paulo Cunha, que foi presidente da Câmara, e o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares acabam de ter a pena extinta pelo Supremo Tribunal Federal. José Genoíno, ex-presidente do PT, e Jacinto Lamas, ex-tesoureiro do PL, receberam o benefício há um ano. Os próximos condenados, com boa chance de ter a pena extinta, são os ex-deputados Valdemar Costa Neto, ex-presidente do PL, Roberto Jefferson, ex-presidente do PTB (que fez a denúncia do Mensalão), Bispo Rodrigues, Pedro Henry e Romeu Queiroz; o advogado Rogério Tolentino; e o ex-vice-presidente do Banco Rural, Vinícius Samarane. O ex-chefe da Casa Civil José Dirceu pediu o benefício, mas não foi atendido.

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Carlos Brickmann

É jornalista, consultor de comunicação. Foi colunista, editor-chefe e editor responsável da Folha da Tarde; diretor de telejornalismo da Rede Bandeirantes - prêmios da Associação Paulista de Críticos de Arte, APCA, em 1978 e 1979, pelo Jornal da Bandeirantes e pelo programa de entrevistas Encontro com a Imprensa; repórter especial, editor de Economia, editor de Internacional da Folha de S. Paulo; secretário de Redação e editor da Revista Visão; repórter especial, editor de Internacional, de Política e de Nacional do Jornal da Tarde. Desde setembro de 2012 é articulista semanal do Portal Top Vitrine.

 

carlos@brickmann.com.br
www.brickmann.com.br

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