Campo Grande-MS 28.06.2017

Breno Rosostolato

Psicólogo e Terapeuta Sexual

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TER, 08.03.2016

Ah... mais explícito do que isso, só sendo pornô

A pornografia é antiga e existe desde os primórdios da existência humana

Breno Rosostolato

Para o Portal Top Vitrine

Vamos falar de pornografia? Acho pertinente e oportuno uma vez que a pornografia vem a cada dia ditando comportamentos sexuais, estabelecendo regras e padrões de conduta e que possui uma das mais rentáveis, milionárias e influentes indústrias de entretenimento, a indústria dos filmes adultos.

 

Os números são significativos. Existem mais de 26 milhões de sites pornôs, os mais acessados, ‘Pornhub’ e o ‘Redtube’, que recentemente divulgaram uma pesquisa em que afirmam que o Brasil e as Filipinas estão em primeiro lugar em consumo de conteúdo erótico, inclusive, pelo público feminino.

 

O domínio dos sites pornôs é tamanho que se estima que 37% da internet é pornografia e só nos Estados Unidos, são 40 milhões de assíduos usuários. A Califórnia, exatamente na cidade de Tampa, é onde mais cresce a competitiva indústria pornográfica e que fatura 3.000 dólares por segundo, informações da BBC que conversou com Lance Hart, modelo e ator pornô que acabou de abrir sua própria produtora.

 

Acontece que a questão é mais delicada e garanto que o buraco é ‘bem mais embaixo’. A questão da pornografia é antiga e existe desde os primórdios da existência humana e partindo desta premissa, não serei falso moralista em querer execrar a pornografia. Vejamos. A cada ano são lançados mais de 13.000 filmes pornôs e este dado revela um forte impacto no comportamento das pessoas que são doutrinadas por estes filmes. Algo que não podemos desconsiderar.

 

E o que de fato não devemos desconsiderar é que a pornografia é bem diferente da indústria pornográfica. Esta indústria que começou sua trajetória em 1953, com a primeira edição da revista Playboy e que trouxe na capa da primeira edição Marilyn Monroe. A indústria como negócio é comercial e quer vender. Ganhar o mercado e faturar. Para tal, massifica, manipula. Com conteúdos misóginos, a mulher é uma figura relegada à ‘coisificação’ e ‘objetificação’ dos caprichos e desejos do homem. Este é o tal efeito doutrinador.

 

Filmes que acentuam o ‘falocentrismo’, ou seja, o prazer é pensado em prol dos homens em detrimento da subserviência das mulheres. Esta concepção cria caminhos tortuosos no imaginário das pessoas e reforça a cultura do abuso, do estupro e da violência contra a mulher.

 

A pornografia na tentativa de explorar outros caminhos se reinventa. Vai desde cenas de bukkake, em que vários homens ejaculam na boca da mulher ou cenas de gangbang, na qual a mulher é penetrada por vários homens, com direito a tapas, hematomas, enforcamento e todo o tipo de agressões.

 

O que se vê ultimamente são filmes mais extremos e uma espécie de filmes estilo ‘pornô infantil’ – procure na sessão teens - com títulos chamativos como: ‘A puta do papai’ ou ‘Tudo bem ela é minha enteada 7’. Filmes que incentivam o sexo com crianças e que abrem precedentes. Homens que não consideravam sexo com crianças e que passaram a fazê-lo.

 

Não existe mais soft-porn ou hardcore. O que existe são filmes sem história, improvisadas e que não possuem limites. Seja o feature-porn, longa metragem para atrair casais, os vídeos mais acessados são curtos e sem nenhum script ou roteiros, o gonzo-porn. Ambos são violentos, tendo como precursor deste tipo de filme o ator chamado Max Hardcore que exibe-se afirmando que faz das mulheres seus objetos sexuais e expõe todo um lado sádico, cuja encenações humilha as atrizes, dizendo que mulheres são ‘putas’ e ‘vadias’.

 

A cada ano são lançados mais de 13.000 filmes pornôs e sabemos que muitos jovens, facilmente, tem acesso a estes sites. Como efeito de ‘educação sexual’, presenciamos homens que buscam recriar as situações do filme com suas companheiras, acreditando que aquela seja a melhor maneira de se relacionarem sexualmente com alguém. Impoem-se de forma agressiva. Exigem de si a mesma performance viril dos atores, sem se darem conta que ali tem jogo de câmeras, posições para ressaltar o tamanho do pênis e toda uma dinâmica que é usada para causar impacto. Mulheres que se sujeitam e são sujeitadas aos padrões estéticos de corpos torneados e esbeltos.

 

Me chama a atenção que sites como ‘Make Love, Not Porn’, idealizado pela consultora de publicidade Cindy Gallop. Ela incentiva que os filmes deveriam retratar cenas de sexo mais reais. Estimula casais a filmarem fazendo sexo e enviar para o site, com o intuito de demonstrar, de fato, o sexo real. Já Shelley Lubben, atriz de filmes eróticos durante quatro anos, hoje é ativista contra a indústria pornô e luta contra os abusos e a violência que não é mostrada nos filmes. Fundadora do site Pink Cross Foundation, acusa a indústria de tráfico sexual e de acobertar estupros.

 

Shelley é enfática no que diz respeito às consequências emocionais desastrosas nos atores que são pressionados para cumprir uma função, estarem sempre bem nas atuações, transgredir limites e aceitar cenas de violência e humilhação. Outra atriz que também afrontou a indústria pornô foi Linda Lovelace, famosa pelo conhecido filme ‘Garganta Profunda’ (Deep Throat). Linda em sua biografia revela que foi vítima de estupro, violência e prostituição.

 

Mas convenhamos, a questão não é se rebelar e negar a existêncioa dos filmes pornôs, tampouco negar os desejos mais íntimos do ser humano. As possibilidades estão aí para serem exploradas. De fato, a querida Marchesa de Sadi, colega aqui do PPQO, está correta. Pornografia não existe, haja vista que o sexo é essencial para a existência humana. O que é questionável são os padroões e a ideia que tenta se passar através dos filmes de que o prazer é de um em detrimento do sofrimento do outro. O que é inaceitável é a satisfação do homem e não da mulher.

 

O sexo é bom se permitir o prazer para os dois e para todos que estão envolvidos, sem ser falacioso ou enganador. Pode até ser agressivo, explosivo, enlouquente, daqueles de inverter os ‘olhinhos’, desde que, entre quatro paredes haja consentimento de todos, sem abusos, como muitas vezes os filmes pornôs retratam.

O Portal Top Vitrine não se responsabiliza por artigos assinados ou de origem definida.

Reprodução

A cada ano são lançados mais de 13.000 filmes pornôs

SEX, 26.02.2016

Casamentos forçados e estupro marital

O amor era um sentimento renegado a ser coadjuvante no casamento

Breno Rosostolato

Para o Portal Top Vitrine

No dia 16 de maio de 2015 foi ao ar o sexto episódio da quinta temporada da série ‘Game of Thrones’ – título original (As Crônicas de Gelo e Fogo) – escrita por George R. R. Martin. A série é transmitida pelo canal HBO. Na ocasião, um casamento forçado seguido de abuso sexual de uma das personagens ocasionou debates e discussões nas redes sociais sobre a exibição da cena de violência. Levo em consideração o período histórico retratado na série. Época medieval, no qual não existia direitos humanos. As cenas de tortura, execução, prostituição, casamentos arranjados e violência sexual são reproduzidos sem rodeios.

 

Acontece que a situação impactante reflete uma dura e delicada realidade nos casamentos e que, além de ser tabu, o assunto causa desconforto e inquietação, o estupro marital. Outra situação retratada na série são os casamentos forçados, como no caso da personagem Sansa Stark, de 17 anos, que é obrigada a casar com Ramsay Bolton, um homem sádico.

 

Em outro momento da mesma série, uma menina de 13 anos é utilizada como moeda de troca pelo próprio irmão que a obriga a se casar com o líder de um povo selvagem. Casamento consumado sem o consentimento dela, lógico.

 

Primeiro que, casamentos arranjados e forçados eram comuns no passado por conta de arranjos familiares, interesses dos pais, ampliar e adquirir bens de propriedade, expansão territorial e até mesmo, meio para se obter a paz entre os povos. Da ficção para a realidade. Estes fatos que extrapolam os limites da fantasia se concretizam ainda hoje através da concepção de tradições religiosas e aspectos socioculturais.

 

Assim acontece na Índia, população de maioria mulçumana. O casamento forçado é pautado na inferioridade e submisso da mulher ao homem e a figura do pai e irmãos substituída pelo marido. Na África e alguns países da América Latina, no qual a situação de pobreza e miséria são as bases destes casamentos impostos pelos pais às filhas, que nada podem fazer.

 

Em um estudo recente da UNICEF, Fundo das Nações Unidas para a Infância, mais de 100 milhões de meninas poderão ser vítimas de casamentos forçados durante a próxima década, ou seja, relacionamentos assim, bem como o estupro marital, são violência de gênero e são cada vez mais frequentes. As taxas de casamento de menores atingem 65% em Bangladesh, 48% na Índia e 76% no continente Africano.

 

A definição do que seria estupro marital ou conjugal e a falta de uma lei específica para tipificá-lo reforçam a ignorância sobre o tema e a prática, além, lógico, do conceito normativo do casamento que possui concepções generificadas e que coisificam a mulher, que fica relegada a objeto de manipulação do marido.

 

A celebração e os votos solenes do casamento, baseados na Santa Eucaristia fomentaram novas mentalidades e transformaram radicalmente o modo de pensar da sociedade. Lapidada através de conceitos que, na Idade Média, eram considerados algo sagrado e indiscutível, o casamento se consolida como uma instituição através de três pilares: oposição aos conceitos pagãos, a obediência divina e por fim, interesses materiais e políticos.

 

O sexo e o prazer encarado como normal e inerente à natureza humana, tinha como principal propósito a procriação e, portanto, apaziguar a concupiscência, ou seja, a libertinagem e a lascividade carnal. Amor? Somente a Deus.

 

O amor era um sentimento renegado a ser coadjuvante no casamento. Inclusive, demonstrações de afeto em público eram consideradas vergonhosas e desrespeitosas, sinal de fraqueza dos homens que não sabiam ter autoridade e não se impunham à mulheres levianas e desonradas.

 

A concepção de indissolubilidade do casamento é o grande marco na metamorfose social que as pessoas sofreriam. O amor não era cogitado entre o casal, no máximo poderia ser manifestado em casa de forma superficial e sem maiores envolvimentos íntimo.

 

Os conceitos que embasam o casamento criaram visões, atitudes, comportamentos e condutas através da repressão. Muitas pessoas sacrificam suas vidas em prol de uma relação idealizada e pagam altos preços pelo suposto conforto conjugal, afinal, casamento sempre foi entendido como sinônimo de felicidade, segurança e dignidade.

 

A questão do estupro marital, na atmosfera jurídica, causou grandes discussões e revelou a complexidade do assunto. Existiam duas correntes a respeito do assunto. Uma dizendo que o homem pode constranger sua esposa à pratica de ato sexual e outra dizendo o oposto.

 

Em uma delas afirmava-se que não era possível que o marido cometesse estupro contra a própria esposa, partindo do princípio que o sexo seria uma obrigação matrimonial, logo, o marido tinha o direito de exigir que a mulher tivesse conjunção carnal com ele e, portanto, a violência ou ameaça praticada estaria acobertada pela excludente de ilicitude do exercício regular de direito.

 

A segunda vertente afirmava que o marido poderia cometer crime de estupro contra a esposa porque a lei não autoriza o emprego de violência ou grave ameaça na relação matrimonial, de modo que não há exercício regular de direito na conduta do marido que é violento. A recusa injustificada da mulher em manter conjunção carnal com o próprio marido pode ser causa de separação judicial, mas jamais autoriza o marido ao cometimento do delito.

 

 "Muitas mulheres não se dão conta que foram, durante todo o casamento, violadas e violentadas"

 

Neste sentido, o juiz de direito e professor da USP, Guilherme de Souza Nucci, diz que ‘tal situação não cria o direito de estuprar a esposa, mas sim o de exigir, se for o caso, o término da sociedade conjugal na esfera civil, por infração a um dos deveres do casamento’.

 

Desde a constituição de 1988, no qual homens e mulheres são iguais e, portanto, gozam dos mesmos direitos e deveres, inclusive sob o aspecto sexual, o contrário também é contemplado, ou seja, o homem que se recusar de cumprir os deveres conjugais, tal qual o de manter relação sexual com sua esposa, por exemplo, a mulher pode solicitar a separação judicial com base nesse motivo.

 

Os chamados ‘crimes contra os costumes’ visam proteger a liberdade sexual das pessoas, ou seja, defender as escolhas e disposições que o indivíduo faz do próprio corpo, ou seja, se este direito for violado, seja homem ou mulher, caracteriza-se em crime, logo, estupro marital existe sim e é uma dura realidade.

 

Para os desavisados, violentos, arbitrários e machistas de plantão, que acham que se casaram com um objeto sexual, que pensam de maneira arcaica e que consideram a mulher como sua propriedade deveriam compreender o verdadeiro significado da palavra ‘consentimento’. Consentimento é dar permissão ou licença para que determinado ato seja praticado. Atentem-se à palavra permissão.

 

Isso quer dizer que se o outro não quer você não tem o direito de força-lo a fazê-lo. Você não foi autorizado. Você não teve permissão. Respeite o corpo, a singularidade, o ser humano. Consentimento é um aspecto moral e que no casamento confere autenticidade à relação. Quem o corrompe revela seu caráter perverso e destrutivo.

 

Infelizmente muitas mulheres não se dão conta que foram, durante todo o casamento, violadas e violentadas. Muitas, sem saber e por conta dos conceitos religiosos do casamento relevam o ato sexual forçado. Consideram um comportamento natural e comum dos companheiros. 

O Portal Top Vitrine não se responsabiliza por artigos assinados ou de origem definida.

Reprodução

Série Game of Thrones, transmitida pelo canal HBO

SEX, 12.02.2016

Igualdade na veia. Adote esta ideia

Mas que fixação o povo tem com o cu alheio?

Breno Rosostolato

Para o Portal Top Vitrine

Inaptos Temporários, denominação do Ministério da Saúde. É assim que homens que se relacionam sexualmente com outros homens são classificados em relação à doação de sangue. Além de serem impedidos de doar sangue, passam por constrangimentos e situações embaraçosas.

 

A portaria que expressa esta determinação restritiva é a seguinte:

 

“Art. 64. Considerar-se-á inapto temporário por 12 (doze) meses o candidato que tenha sido exposto a qualquer uma das situações abaixo:

 

IV – homens que tiveram relações sexuais com outros homens e/ou as parceiras sexuais destes”. Contraditoriamente, em outro parágrafo a lei apresentada é oposta à orientação anterior:

 

“Art. 2º, § 3º Os serviços de hemoterapia promoverão a melhoria da atenção e acolhimento aos candidatos à doação, realizando a triagem clínica com vistas à segurança do receptor, porém com isenção de manifestações de juízo de valor, preconceito e discriminação por orientação sexual, identidade de gênero, hábitos de vida, atividade profissional, condição socioeconômica, cor ou etnia, dentre outras, sem prejuízo à segurança do receptor.”

 

Maria Berenice Dias, advogada especialista em Direito Homoafetivo e presidente da Comissão Especial da Diversidade Sexual da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), não apenas reconhece a dicotomia da lei como afirma a inconstitucionalidade, pois fere o artigo 5ºda Constituição Federal segundo o qual “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”.

 

Igualdade? Zero. A questão relacionada a esta restrição fica muito clara. Não é a orientação sexual que determina a possibilidade da doação de sangue, mas a prática do sexo anal, e que, diga-se de passagem, vejam só, heterossexuais também praticam a tão famigerada sodomia. Mas que fixação o povo tem com o cu alheio?!

 

Em se tratando de um gesto tão legítimo e humano, que pode salvar vidas e que faz toda a diferença, para a doação de sangue não deveria existir tal limitação.

 

Para se ter uma ideia, nos Estados Unidos, que desde 1977 também não aceita a doação de homens que tenha tido relação sexual com outro homem, e aqui, só um detalhe, homossexual ou não, um estudo elaborado pela Universidade da Califórnia concluiu que haveria um aumento de 2% a 4% no estoque total de sangue se admitissem a doação de sangue sem tais restrições. Levando em consideração que cada doação pode ajudar a salvar a vida de até três pessoas, desde o ano que entrou em vigor a proibição, seriam mais de 1,8 milhão de pessoas salvas.

 

No Brasil, apenas 1,9% dos brasileiros doam sangue regularmente, mas esta estatística poderia ser bem maior se não houvesse tantas restrições. Pensando nisso, o projeto 'Igualdade na Veia' busca a regularização da doação de sangue pelos homossexuais, uma vez que a orientação sexual não deve ser parâmetro para isso.

 

O lançamento do projeto aconteceu na Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, neste ano de 2015 e possui como embaixadores o Deputado Jean Willys e o ativista Toni Reis, da ONG 'Grupo Dignidade', fundado em 1992, em Curitiba, idealizadora do projeto e que possui o lema: "Temos muito sangue que poderia estar na veia de quem precisa.


Abaixo o link para quem quiser assinar a petição e que serve de apoio à causa. Já são mais de 18 mil assinaturas. Está na hora de levarmos este assunto tão emergente para o debate no Congresso Nacional e ecoar a necessidade de uma providencial revisão desta lei homofóbica e coercitiva.

 

https://secure.avaaz.org/po/petition/Congresso_Nacional_Ministerio_da_Saude_Regularizacao_da_doacao_de_sangue_pelos_homossexuais/?launch

O Portal Top Vitrine não se responsabiliza por artigos assinados ou de origem definida.

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Breno Rosostolato

É psicólogo, terapeuta sexual e professor universitário em São Paulo (SP). É escritor, blogueiro - www.brenorosostolato.blogspot.com - e articulista de jornais e revistas. Breno Rosostolato é colaborador do Portal Top Vitrine desde fevereiro de 2013.

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