Campo Grande-MS 28.06.2017

Pedro Mattar

Publicitário e Cronista

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Terça-Feira, 04.10.2016 às 09:30

Sem medo de ir pro inferno. Sem esperança de ir pro céu

Meu ateísmo foi um momento libertador e gratificante

Pedro Mattar

Para o Portal Top Vitrine

Passei um pequeno trecho da minha vida querendo ir pro céu. Nesse mesmo período eu tinha um medo cabuloso de ir pro inferno, imaginava a lava quente espirrando em mim e o tridente me cutucando por alguma razão.

 

O purgatório pintava na minha cabeça como uma incômoda sala de espera: todo mundo de cueca, de acordo com o pudor da época, e eu encolhidinho à espera de saber se dali iria pro céu ou inferno.

 

Não sei se por deméritos meus ou por indução da igreja, o fato é que esse meu trecho criança ficou comprometido e não tem como repará-lo. Minha evolução poderia ter sido mais produtiva se não tivessem enchido minha cabeça com as merdas que jogaram lá e com as culpas que me fizeram sentir.

 

Culpas são armas poderosas e inibidoras. Quantas vezes fui dormir com uma culpa enroscada na consciência por ter tido um pensamento sacaninha, coisinha de nada, tabus religiosos que eram potencializados pelos padres e que nos faziam parecer criminosos seriais.

 

Vão pra puta que os pariu todos os que tornaram a minha infância um trem vagaroso, pesado e atrasado. Por causa deles demorei em pegar velocidade. Poderia ter sido uma cara inteligente, talvez um bom escritor, uma cabeça com maior raciocínio e melhor lógica.

 

Agora, passado tanto tempo de mal uso, tenho que me conformar em ser o que sou, esse traste retardado que você lê, ou não. Hoje eu não quero mais ir pro céu, a não ser como caminho pra chegar em Paris. Tirando o fato de achar que fui tungado na infância com essas baboseiras bíblicas, meu ateísmo foi um momento libertador e gratificante. Ele aconteceu como a luz que se acende depois de um longo período de escuridão. Alguém deixou a porta da prisão aberta e sai para descobrir o mundo sem conversa fiada ao sair dali.

 

Nada é mais libertador do que perder o medo de pensar a partir de você mesmo. Porque a gente nasce pensando com a cabeça dos outros, da experiência vivida por outros e não aquela que permite avaliar tudo por si mesmo. Antes de ser ateu - seja lá o que isso signifique - eu era um covarde por me considerar culpado e sem saber do quê. Tinha a sensação que negar deus era o caminho mais curto para o inferno. Réu sumário. Eu, hein? Na verdade acatava a culpa por medo de confrontá-la.

 

O ateísmo é um ato de coragem, descobri examinando meus achados de lucidez. Porque enquanto a maioria de vocês aceita a existência de deus, eu aqui, o babaca de plantão, nado de braçada nas águas da consciência tranquila. A tese é simples. Se esse tal deus existir, como corre o boato, e ele for tão bom quanto dizem, não quererá se vingar de um ingênuo como eu só pelo atrevimento de não acreditar nele. A não ser que deus seja vingativo. Se for, não merece o que se fala dele.

 

Muitos dos que dizem acreditar usam deus como o puta merda no banco do carona dos carros. Precisam de algo onde se agarrar e essa é a opção deles. Não vou discutir essa opção. O puta merda dos carros pode ter ajudado, mas eles não sabem a força que você ganha por não acreditar em deus e passar a acreditar em si mesmo.

 

Desejo que façam bom uso da sua fé, da sua crença e das suas culpas. O dia que descobrirem como é bom se libertar disso tudo vão se arrepender de não ter descoberto essa alternativa antes.

comentários (1)

Pedro tem toda razão. Esse deus por ele alegado é o deus inventado e criado pelo bicho homem. Desse eu também já me libertei. Desse, eu corro léguas. E encontrei o meu deusinho, um Ser absolutamente magnífico.

Sylvia Cesco 18.02.2017 - 09:08
comentários (1)

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Pedro Mattar

Pedro Mattar tinha 77 anos, até ontem, e hoje soma mais um ou mais dias, dependendo da data desta publicação... É publicitário, rebelde sem o mínimo motivo e exerceu diversos cargos em empresas e administrações públicas, os quais tem vergonha de citar. Como escritor, acha que é o maior leitor de si mesmo. Sob essa perspectiva, subscreve atenciosamente, sem assinar. Desde julho de 2011 é articulista semanal do Portal Top Vitrine.

pedromattar@uol.com.br

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