Campo Grande-MS 27.05.2017

Cinema, Diversão & Arte

Mario Masetti

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Sexta-Feira, 26.02.2016 às 19:00

Reserva Cultural

Estamos no paraíso! É entrar lá e se sentir na França

Cinema, Diversão & Arte

Para o Portal Top Vitrine

Sim! Existe um cinema em São Paulo que não está localizado dentro de um shopping center, não vende pipoca e tem uma programação super variada, onde predominam as produções atuais do cinema francês, europeu, brasileiro e americano, nessa ordem.

 

O cinema se chama Reserva Cultural. Possui quatro salas de projeção que hoje se encontram dentro dos padrões de aceitação, tanto no quesito imagem, quanto no quesito som. Duas das salas são grandes, acima de duzentos lugares e as outras duas salinhas, pequenas, não mais que oitenta lugares, fazem lembrar os cineminhas instalados no Quartier Latin de Paris. Aliás, todo o complexo cultural, que envolve também restaurante, livraria, um café e... pasmem, uma padaria que vende o melhor da patisserie francesa, além dos famosos pães franceses feitos com o fermento Levain! Um café expresso digno das melhores notas.

 

Bem, por enquanto estamos no paraíso! É entrar lá e se sentir na França. Automaticamente mudamos nossos comportamentos e trejeitos. Passamos a falar baixo. Adquirimos de repente aquela cara de conteúdo que só os intelectuais franceses têm e começamos a torcer para que nossos amigos e inimigos apareçam para ver como você é um cara bem informado, lúcido e inserido no contexto, para usar termos que caem bem para membros seletos de uma determinada inteligenzia.

 

Antes da sessão, pode-se degustar um café acompanhado de um eclair au chocolat, ou uma tartine beurrée ou ainda um delicioso crème brûlée.

 

Dentro do cinema, ar condicionado impecável, às vezes até um pouco frio demais, para que você possa usar um eventual manteau comprado numa viagem à Europa. E assim, sua journée française vai se passando. Os filmes, em sua maioria, são da melhor qualidade. Para nós, acostumados a assistir quase que apenas os filmes americanos, nos confrontamos com um cinema mais inteligente, mais simples, sem as pirotecnias de efeitos especiais ou atores pasteurizados, dentes alinhados, sem imperfeições no rosto.

 

Depois da sessão, uma passada na livraria ali existente, onde se pode comprar livros, revistas e sobretudo DVDs selecionadíssimos, dos filmes antes exibidos naquele complexo cultural. Quase irresistível! Em seguida, passemos para o Bistrot que serve, a preços nada absurdos, pratos da culinária francesa que podem ser acompanhados de bons vinhos, cervejas ou refrigerantes.

 

Para terminar, você pode ainda comprar pães para o seu café da manhã do dia seguinte. As mais deliciosas baguettes, navettes ou ainda pães integrais recheados de nozes e passas.

 

Pronto. Você acabou de realizar um programa absolutamente europeu na cidade de São Paulo. Sempre um bom filme, bons livros, boa comida e ainda a chance de ser visto por amigos, frequentando um lugar top da cultura paulistana. Existisse uma Standard and Poor’s para medir graduações de nível cultural, a Reserva estaria com a nota máxima.

 

Uma última coisa me fascina naquele lugar: lá dentro me sinto um garoto jovem, lépido e fagueiro. Por tudo o que foi descrito até então e, principalmente, pela quantidade de velhinhos que frequentam o local.

 

Invariavelmente minha companheira e eu sempre somos os mais jovens do local. E olha que minha jeaunesse já foi perdue há muito tempo. Talvez pelo estilo europeu do lugar. Talvez pela falta de ímpeto cultural da juventude nos dias de hoje, que já não se empolga mais por filmes pensantes, que substituiu a cultura dos festivais europeus de cinema, Cannes e Berlim, pela superficial e marqueteira cultura do Oscar. Ou talvez ainda pelo silêncio que impera no local em contraponto com a gritaria dos shoppings centers, pela ausência do irritante ruído das pipocas sendo chacoalhadas dentro dos sacos de papel, sempre acompanhadas daquele enjoativo cheiro de gordura queimada e, finalmente, pela existência de filmes que não se pautam pelas pirotecnias visuais e sonoras tão em voga nos blockbusters americanos que se sincronizam perfeitamente com os cinemas instalados nos shoppings, tão irritantes para nós cabeças brancas, já escolados pela vida.

 

Mas o paraíso tem suas máculas. Uma coisa que chateia nisso tudo - e essa é uma tendência da atividade cultural no Brasil -, é o curtíssimo espaço de tempo que os filmes ficam regularmente em cartaz, sem chance de decolar numa segunda ou terceira semana.

 

Em poucos dias são empurrados para solitárias sessões únicas em horários esdrúxulos. Ultimamente, o dinheiro das bilheterias foi colocado num segundo plano. Os filmes estreiam já subvencionados por PROACs, PACs, ou outros mecanismos de incentivo e não precisam se preocupar com receitas advindas do público pagante. Além, é claro, da força financeira das empresas majors que financiam os Blockbusters.

 

Quem sofre com isso é o pequeno produtor, que perde sua força nas negociações com distribuidores e exibidores e tem seus lançamentos desprezados, sofrendo inevitavelmente com a falta de público espectador. Como trabalhador do cinema brasileiro, não poderia jamais aceitar calado essa tendência que se instala na cultura do nosso país. Lamentavelmente a Reserva Cultural, tão diferente em tudo o que foi descrito nestas linhas, se iguala às outras salas da cidade nesta questão tão vital para a continuidade de um cinema independente.

 

Nota da Redação

 

Reserva Cultural

Avenida Paulista, 900 - Térreo

Entre as estações Trianon-Masp e Brigadeiro do metrô

Aberto todos os dias das 10h às 22h, sábados até meia-noite

Telefone: (11) 3287-3529

Reprodução/Site

Bons filmes ficam poucos dias em cartaz

comentários (2)

Ontem ( dia 24 de fevereiro) tive o prazer de ver um filme muito bom ( A GAROTA DINAMARQUESA), fora dos padrões enlatados em uma sala de cinema no bairro de Pinheiros chamada Cine Sabesp ( O espaço na Rua Fradique Coutinho funciona como cinema de rua desde 1962 quando nasceu o Cine Fiammetta e ficou com este nome por mais de 30 anos. Em 1989, transformou-se na Sala Cinemateca e exibia filmes clássicos e raros que fizeram a cabeça de muito cinéfilo. A partir dos anos 2000 passou a ter outros nomes até ganhar o nome atual, Cinesala, em 2015.) . Recomendo para os amantes de bons filmes e sem a loucura dos shopping da vida. Um grande abraço cara amigo Mario

Marco Paraná 27.02.2016 - 14:48

Devido às minhas obrigações, estou fora do circuito dos cinemas de São Paulo. Quando for possível, estarei a postos para me aproveitar das maravilhas que você descreve em seu artigo. Muito bom, inclusive com uma boa dose de crítica construtiva. Abraço!

MANOEL RIBEIRO FERRAZ 27.02.2016 - 10:21
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Cinema, Diversão & Arte

Com atuação reconhecida em cinema, televisão, teatro e propaganda, Mario Masetti iniciou sua carreira em 1967 como assistente de direção de Augusto Boal, no Teatro de Arena de São Paulo (SP). Estreou como diretor teatral em 1975 com "Porandubas Populares", ganhando o prêmio APCA como Diretor Revelação. Além de sua atuação como realizador teatral, Masetti tem trabalhado como produtor e diretor assistente em mais de vinte filmes de longa metragem com os mais importantes realizadores do cinema brasileiro, entre eles Maurice Capovilla (O Jogo da Vida), Leon Hirszman (Eles Não Usam Black Tie), João Batista Andrade (A Próxima Vítima, País dos Tenentes), Ugo Giorgetti (Boleiros, O Príncipe, Boleiros 2, Uma Noite em Sampa e A Cidade Imaginária). Masetti integrou a equipe de diretores da produtora Blimp Film, tendo realizado vários documentários para o programa Globo Repórter. Realizou ainda os programas de Televisão "Os Brasileiros e a Música" Série: Os Brasileiros - TV Manchete, "Os Brasileiros e a Saudade" Série: Os Brasileiros - TV Manchete, "PCN na Escola - Português" Série de 18 programas para a TV Escola – MEC - "Mão na Forma" - Série de seis programas sobre Geometria para a TV Escola – MEC – "Telecurso-Tec", Série de 140 programas de teleeducação para a Fundação Roberto Marinho. Série "Ofício de Professor na TV", TV Cultura/Fundação Vitor Civita. "Telecurso 2000 +10" – Fundação Roberto Marinho e a série "Teatro Rá-tim-bum" para a TV Cultura de São Paulo. Para a mesma emissora, dirigiu os programas "Cambalhota, Profissão Professor" e "Almanaque Educação". Dirigiu em 2010, para a TV Brasil, a série "Almanaque Brasil" e para a mesma emissora a série "Resistir é Preciso", em coprodução com o Instituto Vladimir Herzog. Atualmente, é diretor dos programas do "Canal Educar", da Abril Educação. Foi, nos anos 80, um dos sócios da Tatu Filmes, empresa importante para o desenvolvimento do cinema em São Paulo, que produziu vários filmes, destacando-se "Janete", "A Marvada Carne", "A História de Vera" e "Feliz Ano Velho". Ocupou vários cargos públicos, como o de Diretor do Centro Cultural São Paulo, Conselheiro da Cinemateca Brasileira, professor de interpretação na Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo (USP), professor na Escuela Internacional de Cine y TV (Cuba), professor da disciplina Direção Cinematográfica no curso de Audiovisual na Escola de Comunicações e Artes da USP, Membro da Comissão Estadual de Cinema, diretor artístico da APAA – Associação Paulista dos Amigos da Arte, Organização Social ligada à Secretaria de Estado da Cultura - São Paulo. Em 2013 escreveu e publicou pela Sá Editora o romance Por Amor. Paralelamente à sua atividade cultural, é diretor de filmes publicitários desde os anos 70, tendo realizado uma infinidade de filmes para as principais agências do País. Mario Masetti é articulista do Portal Top Vitrine desde fevereiro de 2016.

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