Campo Grande-MS 29.05.2017

Cinema, Diversão & Arte

Mario Masetti

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Quinta-Feira, 18.02.2016 às 17:00

O contrarregra

Ir contra as regras indica um modo de viver

Cinema, Diversão & Arte

Para o Portal Top Vitrine

Das profissões que existem na atividade teatral e cinematográfica a que mais me fascina é a do contrarregra. O próprio nome já nos leva a pensar em transgressões, ir adiante sem se preocupar com as consequências, o que valoriza ainda mais o lado anárquico de nossas escolhas profissionais.

 

Ir contra as regras, indica um modo de viver, distante das outras atividades profissionais, que adotam a normalidade como padrão. E é assim, que Helinhos, Alexandres, Roses, Chiquinhos e Adolfos levam suas vidas. Inventando formas de deixar as histórias que o Teatro e o Cinema contam, mais verdadeiras, através das inúmeras situações improvisadas que criam para que a ação não deixe de acontecer.

 

Para quem vê de fora, resta o deleite. Ver como aquelas figuras trabalham no set, quase imperceptíveis, mas de absoluta necessidade resolvendo os problemas mais intrincados com invejável criatividade.

 

Filmávamos uma sequência de “O Príncipe”, longa metragem do diretor Ugo Giorgetti. Nela, o personagem representado pelo grande ator Ricardo Blat se suicidava, saltando de um viaduto e se estabacando lá embaixo, no asfalto da Avenida Sumaré, em São Paulo.

 

Para o ator, uma cena difícil, não pela necessidade de aplicar seus conhecimentos do método Stanislawski ou ainda as teorias do Verfrendungseffect brechtiano, mas apenas pela necessidade de ficar durante muitas e muitas horas, absolutamente imóvel, morto, numa posição absolutamente desconfortável num chão de asfalto sujo.

 

Tudo isso numa noite fria de um inverno julino paulistano. Para colaborar, uma leve bruma molhava o chão e o ator nele caído.

 

Se abrisse os olhos, e fez isso muitas vezes durante aquela noite, conseguia ver os outros atores e a equipe do filme sentados normalmente em cadeiras de lona dobráveis, conversando, rindo e até se divertindo, comendo e bebendo do serviço de catering que era constantemente oferecido pelos produtores, enquanto esperavam os deslocamentos da câmera que captava por diversos e diferentes ângulos, aquele pedaço da história que estava sendo contado naquele dia.

 

Em casos de extrema necessidade, Ricardo conseguia, no máximo, chamar, através de abafados gritos, alguém que lá chegasse e o aliviasse de câimbras, inevitáveis para quem estava há muitas horas naquela posição.

 

Naquela equipe, o contrarregra era o Chiquinho. Ligado em tudo, seus olhos não paravam quietos nenhum instante.

 

Chiquinho sempre disponível a resolver problemas dos diversos departamentos daquela filmagem. Ora com a cenografia, ora com a maquiagem, ajudando a escorrer um filete de sangue que saia da boca do ator sujando o asfalto, ora com o figurino, borrifando um pouco mais de neblina no casaco do suicida.

 

Foi quando ouviu o grito abafado do Ricardo Blat, que já não aguentava mais de dor pelo fato de estar ali, naquela posição absurda. Com extremo cuidado, Chiquinho, sem mexer na posição de morto de Ricardo, o massageou, relaxando a sua musculatura e dando fôlego para que ele suportasse por mais um tempo aquela ingrata posição.

 

Ao mesmo tempo, Ricardo reclamou de sede, muita sede. Estava ali há horas, sem ter bebido nenhum líquido.

 

Chiquinho parou, pensou consigo mesmo. Como dar água para um cara que está estendido no chão, com um filete de sangue saindo de sua boca, encostada no asfalto, sem desmanchar a continuidade da cena?

 

Disse em seguida a Ricardo que iria demorar um pouco, mas a água viria.

 

O que se viu a partir daquele momento foi um trabalho lindo sendo construído. Uma escultura digna de causar inveja aos mais consagrados artistas plásticos contemporâneos. Ou ainda aos mais eficientes encanadores.

 

Partindo de um copo plástico cheio de água gelada, um complexo sistema de canudinhos torcidos levaria o precioso líquido até a boca do ator sem interferir na cena, sem riscos de derramamentos no chão e ainda, sem riscos de estragar sua maquiagem. Um último canudo daquele sistema chegava à boca de Ricardo e ele apenas deveria absorver até que a água fosse parar em sua garganta.

 

Na verdade, nada demais. Mas o cuidado e o carinho de Chiquinho com aquele ator, naquela situação, fizeram a diferença. Chiquinho mais uma vez atuava contra as regras. Fosse qualquer outro incauto, faria o ator se levantar para beber a água, perder toda a continuidade da cena, sabe-se lá, quantas vezes naquela noite.

 

Aquele pequeno gesto e aquela pequena e improvisada solução colaboraram - e muito - para que a concentração do ator se mantivesse presa à filmagem, que a continuidade do filme ficasse preservada. Coisas que à primeira vista não se notam, mas seguramente se percebem quando se assiste ao filme.

 

É o que diferencia os bons trabalhos dos maus trabalhos. Chiquinho, naquela noite, foi recompensado pelos olhos brilhantes de Ricardo Blat que lhe sorriam em agradecimento.


Guardei aquela escultura relíquia até bem pouco tempo em uma prateleira de minha casa.

 

Muita gente que me visitou, enquanto ela esteve lá exposta, olhava com respeito exagerado ao saber que se tratava de um pequeno monumento em homenagem aos contra regras, até o dia em que a faxineira me comunicou que havia jogado no lixo aquele copinho, com aquele monte de canudos empoeirados.

 

Talvez tenha sido melhor assim. Quando precisar de uma traquitana parecida em alguma filmagem sei a quem recorrer e sei que com rapidez e eficiência meu contrarregra saberá fazer outro objeto igual ou tão eficiente como aquele, agora guardado apenas em minha memória.

Reprodução

Longa metragem do diretor Ugo Giorgetti

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Com atuação reconhecida em cinema, televisão, teatro e propaganda, Mario Masetti iniciou sua carreira em 1967 como assistente de direção de Augusto Boal, no Teatro de Arena de São Paulo (SP). Estreou como diretor teatral em 1975 com "Porandubas Populares", ganhando o prêmio APCA como Diretor Revelação. Além de sua atuação como realizador teatral, Masetti tem trabalhado como produtor e diretor assistente em mais de vinte filmes de longa metragem com os mais importantes realizadores do cinema brasileiro, entre eles Maurice Capovilla (O Jogo da Vida), Leon Hirszman (Eles Não Usam Black Tie), João Batista Andrade (A Próxima Vítima, País dos Tenentes), Ugo Giorgetti (Boleiros, O Príncipe, Boleiros 2, Uma Noite em Sampa e A Cidade Imaginária). Masetti integrou a equipe de diretores da produtora Blimp Film, tendo realizado vários documentários para o programa Globo Repórter. Realizou ainda os programas de Televisão "Os Brasileiros e a Música" Série: Os Brasileiros - TV Manchete, "Os Brasileiros e a Saudade" Série: Os Brasileiros - TV Manchete, "PCN na Escola - Português" Série de 18 programas para a TV Escola – MEC - "Mão na Forma" - Série de seis programas sobre Geometria para a TV Escola – MEC – "Telecurso-Tec", Série de 140 programas de teleeducação para a Fundação Roberto Marinho. Série "Ofício de Professor na TV", TV Cultura/Fundação Vitor Civita. "Telecurso 2000 +10" – Fundação Roberto Marinho e a série "Teatro Rá-tim-bum" para a TV Cultura de São Paulo. Para a mesma emissora, dirigiu os programas "Cambalhota, Profissão Professor" e "Almanaque Educação". Dirigiu em 2010, para a TV Brasil, a série "Almanaque Brasil" e para a mesma emissora a série "Resistir é Preciso", em coprodução com o Instituto Vladimir Herzog. Atualmente, é diretor dos programas do "Canal Educar", da Abril Educação. Foi, nos anos 80, um dos sócios da Tatu Filmes, empresa importante para o desenvolvimento do cinema em São Paulo, que produziu vários filmes, destacando-se "Janete", "A Marvada Carne", "A História de Vera" e "Feliz Ano Velho". Ocupou vários cargos públicos, como o de Diretor do Centro Cultural São Paulo, Conselheiro da Cinemateca Brasileira, professor de interpretação na Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo (USP), professor na Escuela Internacional de Cine y TV (Cuba), professor da disciplina Direção Cinematográfica no curso de Audiovisual na Escola de Comunicações e Artes da USP, Membro da Comissão Estadual de Cinema, diretor artístico da APAA – Associação Paulista dos Amigos da Arte, Organização Social ligada à Secretaria de Estado da Cultura - São Paulo. Em 2013 escreveu e publicou pela Sá Editora o romance Por Amor. Paralelamente à sua atividade cultural, é diretor de filmes publicitários desde os anos 70, tendo realizado uma infinidade de filmes para as principais agências do País. Mario Masetti é articulista do Portal Top Vitrine desde fevereiro de 2016.

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