Campo Grande-MS 27.07.2017

A vida sem crachá

Claudia Giudice

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Quinta-Feira, 14.04.2016 às 08:00

O bolo do sonho da Luciana, direto da Austrália

Adiar um segundo só. Fiz isso muitas vezes. A minha geração era bundona

A vida sem crachá

Para o Portal Top Vitrine

Não sei porque, mas a gente tem a mania de protelar os sonhos. Deixar para amanhã aquilo que poderia fazer ontem. Deixar para depois aquela vontade, aquele desejo mais profundo. Esperar um pouquinho mais. Adiar um segundo só, que acaba virando um minuto, uma hora, um dia, um mês, um ano, uma década, se bobear um século. Fiz isso muitas vezes. Vi amigos fazendo também. A minha geração era bundona. Tinha um apego danado ao mass midia, ao stabilishment, ao mainstream.

 

Quando jovem, até sonhei em jogar tudo para cima e para o lado e mudar para a Europa. Viver na França e lavar prato. Por aqui, Sarney governava um país consumido pela inflação: 363% ao ano. Uma loucura. Um crise, que de tão profunda a gente achava até normal. Fui e voltei. Tinha cinco empregos quando parti. Ganhava 5.000 dólares por mês (naquela época tudo era dolarizado), uma fortuna para um pirralha recém-formada de 21 anos. Meu sonho ficou no ar. Quem sabe aos 60, coloco em prática.

 

O projeto da Vida sem crachá não foi um sonho, mas uma contingência. Deu certo. Agora, a proposta da versão 2, a missão, é contar sonhos que viraram planos B e deram certo. Ou vão dar certo. Ou não. Tanto faz. O que importa é sonhar. A primeira história é da Luciana Rodrigues. Ela é gaúcha. Publicitária. Não é menina, nem representa a geração ypsilone, conhecida também como millenium. Lu tem 38 anos e sonha alto e longe.

 

Ela conta que até os 36 anos viveu “bela adormecida”. Sonhava mas não sabia direito com o que. Foi casada por 20 anos com homens diferentes, porque costumava engatar um relacionamento longo em outro mais longo ainda. O penúltimo, que durou 6 anos, terminou em 2012. Na sequência, emendou em outro que durou pouco, mas que segundo ela: “me acordou pra vida com um tapa na cara”.

 

Paft!

 

“Hoje, olhando pra trás, tenho a sensação que até os meus 36 anos de vida eu dormi ou vivi num estado de semi consciência”, diz Luciana, definindo o seu modo stand by de viver.

 

A transformação/virada aconteceu, acreditem, nas férias. Luciana viajou em dezembro de 2013 para Sydney, na Austrália, para passar uma temporada de apenas 30 dias com o irmão, que mora lá há oito anos. Era gerente de marketing de uma grande companhia. Ganhava bem. Tinha prestígio. Futuro. Estava com o coração partido. Melhor, despedaçado. Tomara um pé na bunda daqueles. Vamos ouvi-la:

 

“Cheguei em Sidney no dia 30 de dezembro de 2013, às 21h30 depois de uma viagem longa e cheia de imprevistos. Virei o ano numa festa absurdamente maravilhosa na Ópera House, onde vi os fogos explodirem na Harbour Bridge num cenário de filme. Não sabia se chorava de emoção, de alegria ou se abraçava meu irmão e minha cunhada pra desejar Feliz Ano Novo. Passei o mês de janeiro de 2014 inteiro aqui em Sydney curtindo a cidade, as praias, a vida. Foi intenso. Foi decisivo.”

 

As férias terminaram e Luciana voltou para o Brasil. Estava decidida. Em 3 de fevereiro, dia do seu aniversário, a executiva voltou ao trabalho e revelou à chefe sua decisão. Em um ano, deixaria a empresa para morar na Austrália. Ãh?

 

“Nunca antes na história da minha vida tinha planejado alguma coisa, tudo sempre foi acontecendo pra mim de um jeito ou de outro. Planejei minha mudança para a Austrália, coloquei tudo no papel, listei as razões pelas quais ia deixar minha boa vida em Porto Alegre e viria pra cá. O grande objetivo era me desafiar porque a vida na capital gaúcha era boa, mas era entediante. Meu trabalho, apesar de ser invejado por muitos, não me oferecia nenhuma oportunidade de crescimento à médio prazo. Eu queria mais, muito mais. Queria frio na barriga, medo, incerteza, desafios, queria saber os meus limites e quem eu sou de verdade. E achei que não iria conseguir esse pacote completo no Brasil. Então, comecei a executar o plano. Pra praticar mais o meu inglês, decidi virar hostess do CouchSurfing, um programa de hospedagem, e recebi muito gringo em casa. Foi a melhor coisa que fiz na vida. Conheci muita gente legal, me conheci através deles e hoje tenho amigos espalhados pelos quatro cantos do mundo. Decidi também ser voluntária na Copa do Mundo e de novo, foi uma experiência incrível.”

 

Em paralelo às novas experiências, Luciana dedicou-se a juntar todo o dinheiro possível. Precisava comprar as passagens, pagar o curso e sobreviver. Não conseguiu ser transferida pela empresa onde trabalhava. Viajou com visto de estudante. Antes de embarcar, a necessidade de conseguir mais recursos gestou um plano B.

 

“Em setembro de 2014, percebi que precisava de mais dinheiro do que tinha e comecei a pirar. Tinha que arrumar essa grana. Poderia pedir para o meu pai, mas não quis. O plano e o sonho eram meus. Passei noites em claro tentando achar uma alternativa. Ela veio sem querer. Resolvi assar um bolo de chocolate para levar em uma reunião matutina na firma. Um bolo simples, mas bem gostoso.”Bingo. Nascia ali um empreendimento. Todos os que provaram o bolo, amaram. Sugeriram que eu fizesse outros para vender. Estava ali a solução para os problemas de Luciana. Criou uma página no Facebook chamada O Bolo do Sonho para vender seus quitutes. Marqueteira, embalou a gula em sua história linda.

 

“Contei que tinha um sonho de morar na Austrália e por isso, estava vendendo bolos pra arrecadar dinheiro. De outubro de 2014 a janeiro de 2015, vendi muitos bolos e consegui o dinheiro que faltava. Muita gente conhecida e desconhecida comprou meu bolo e apoiou a minha história. Pra cada um, eu escrevia um bilhetinho à mão agradecendo a ajuda. E cada vez que eu preparava um bolo encomendado por alguém que também tinha uma história, eu fechava meus olhos e colocava, além dos ingredientes, um pouco da minha energia, dos meus bons sentimentos. Essa era a parte legal: levar doçura e coisas positivas pras outras pessoas.”

 

Sherazade já sabia que uma história puxa outra e gentileza potencializa gentileza. Luciana chegou em Sydney em 25 de abril depois de ter pedido demissão da empresa onde trabalhou por 7 anos. Desembarcou com duas malas, onde colocou o que sobrou das suas coisas depois de ter vendido quase tudo. Desapego total. Sonho transfomado em realidade. Ela conta sua nova rotina:

 

“Hoje sou garçonete num restaurante italiano e arrumadeira num hotel, só ando de bicicleta pra cima e pra baixo e nunca mais usei um salto alto. Se eu sinto falta da vida corporativa? Às vezes, sim. Mas aprendo mais sobre a vida aqui, servindo mesas e limpando privadas, do que estava aprendendo sentada no escritório na frente de computador. Não tenho mais crachá e nem salário fixo. Tenho liberdade, tenho segurança e muitas oportunidades de me reinventar quando eu quiser. Tenho uma nova página, em branco, pra escrever todos os dias. E tenho um objetivo: conseguir um sponsor pra poder pedir o visto de residência permanente na Austrália. Quando esse dia chegar (e ele vai chegar), vou escalar a Harbour Bridge. Meu último medo – o de altura – vai acabar ali. Essa é a minha história. Vou continua sonhando, planejando e realizando.”

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A vida sem crachá

Sou jornalista há 30 anos e empresária desde 2012. Fui executiva por nove anos. Desde agosto de 2014, vivo sem crachá após 23 anos de trabalho em uma grande editora. Decidi seguir carreira solo como escritora. Em agosto de 2015 lancei o livro "A Vida Sem Crachá" pela editora Ediouro. Hoje trabalho na própria empresa - pousada A Capela, que fica na praia do Pirui, perto vilarejo de Arembepe, na Bahia - e escrevo histórias sobre carreira, empreendedorismo, trabalho e gente no blog Claudia Giudice em A vida Sem Crachá. Claudia é articulista no Portal Top Vitrine desde fevereiro de 2016.

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