Campo Grande-MS 29.05.2017

Raquel Naveira

Escritora, Doutora em Língua e Literatura Francesas

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Quinta-Feira, 31.03.2016 às 08:00

Natureza-morta

Há tanta beleza em minha fruteira de cristal vermelho

Raquel Naveira

Para o Portal Top Vitrine

Coloco na fruteira de cristal vermelho algumas maçãs. Ficou lindo. Uma boa forma de saudar o outono, essa estação de transição, onde tudo de repente se decompõe e apodrece. Criei uma cena de estúdio, que caberia bem num poema, numa fotografia, num quadro de natureza-morta.

 

A natureza-morta é um gênero das artes visuais, pintura em que se representam coisas ou seres inanimados. Arranjos de objetos como frutas, louças, flores, garrafas, vasos, potes, peixes, moluscos, espelhos, velas. Um gênero que surgiu na Antiguidade nos afrescos e mosaicos e que se estabeleceu com os pintores holandeses do século XVIII. Espécie de ícone da vida privada, a natureza-morta aparece como um espaço privilegiado para a reflexão sobre as complexas relações entre arte e realidade. Permite o estudo de formas, composições, texturas. Retirado do contexto habitual, os seres passam a figurar num conjunto diverso, imantados pela magia de uma forte carga emotiva. Há tanta beleza em minha fruteira de cristal vermelho! Suspiro fundo.

 

Lembrei-me do quadro “As Vaidades da Vida Humana”, do holandês Steenwyck (1612-após 1655), um exemplo de natureza-morta conhecida como Vanitas que significa “vaidade” em latim. A tela é cheia de enigmas, significados ocultos, referências à morte e à fugacidade da vida. Uma espécie de sermão ilustrativo dos ensinamentos do Livro do Eclesiastes, no Velho Testamento, que afirma: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”. Sobre uma mesa de tampo de madeira ficam expostos vários objetos: uma concha, símbolo da riqueza mundana; um relógio mostrando que nosso tempo na terra é limitado; uma espada indicando que a força das armas não pode derrotar a morte; uma flauta, símbolo fálico, representando os prazeres sensuais e eróticos; uma lâmpada apagada (“Meu coração é uma lâmpada que se apagou/Mas que ainda está quente”, escreveu Fernando Pessoa), de onde sai um fino fio de fumaça provando a fragilidade da nossa existência; a charamela, espécie de oboé, instrumento musical que acompanha o namoro, o encontro amoroso; um jarro bojudo aludindo ao vinho e à bebida; livros abertos que remetem à aquisição de conhecimento e erudição, onde habita também o perigo, pois o muito saber leva ao muito sofrer, ao aumento da dor. E no meio dos objetos todos, sobre um tecido negro, um crânio sorridente, apontando que todos morreremos um dia, que a morte é mesmo o fim comum e inevitável.

 

Mas foi o pintor Cézanne (1839-1906) que deu uma nova posição ao gênero da natureza-morta, explorado depois por artistas como Picasso, Van Gogh e Matisse. Seu trabalho influenciou o direcionamento da arte moderna. Os humildes objetos de suas naturezas-mortas são observados com dedicada paixão: imagens de maçãs, cebolas, peras, pêssegos, estátuas de gesso retorcidas.

 

Ninguém pintou tantas e tão belas maçãs como Cézanne. Maçãs pobres e poéticas, obsessivas. Há nelas um poder de sedução difícil de explicar. Os gregos acreditavam que a maçã fora criada pelo deus do vinho, Dionísio, como presente para Afrodite, deusa do amor. Quando Páris foi chamado a julgar quem era a mais bela das três deusas, Hera, Atena ou Afrodite, ele ofereceu uma maçã a Afrodite, para grande desprazer das outras duas. E a maçã que Eva deu a Adão, da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, foi a causa da expulsão de ambos do Éden.

 

Creio no diálogo entre Poesia e Artes Plásticas. Poesias que parecem pinturas. A pintura é poesia muda. A poesia é imagem que fala. O poeta Manuel Bandeira descreveu a maçã como um “seio murcho”, “um ventre de cujo umbigo pende o cordão placentário”, “vermelha como o amor divino”, com pequenas sementes onde “palpita a vida prodigiosa”. E finaliza: “E quedas tão simples/ Ao lado de um talher/ Num quarto pobre de hotel”. Que poema! Um verdadeiro quadro de Cézanne. Quanta “humildade, paixão e morte”, como diria o mestre Davi Arrigucci Jr, que escreveu “Ensaio sobre Maçã” a respeito desse poema. A maçã no branco do papel. A maçã como objeto de imitação da natureza. A maçã como expressão de um sujeito lírico. A maçã ética, valor tão alto e sublime. A maçã política, democrática, do dia a dia dos pobres e desvalidos. A maçã lição de vida e simplicidade.

 

Com essa fruteira de cristal vermelho, onde dispus algumas maçãs, saúdo o outono da minha vida.

Reprodução

As Vaidades da Vida Humana - Harmen Steenwyck

Reprodução

Ninguém pintou tantas e tão belas maçãs como Cézanne

comentários (3)

Quando me deparo com a expressão Natureza Morta,reporto-me ao meu tio Ettore Federeghi, renomado pintor de meu Estado (SP), premeadíssimo. Ele que ~pintou figos, rosas, vasos, baús,ânforas no estilo renascentista. Autoditada: quem sabe reencarnação de um dos clássicos da pintura do século XIX!Papai também pintava muito bem.De ambos ´herdei algumas obras. Agora, o quadro de Papoulas de meu pai é de uma plasticidade admirável. Bem haja Raquel por acertadamente ter descrito tal gênero de pintura de forma magistral!

Frances de Azevedo da Academia Cristã de Letras 04.04.2016 - 19:09

Quanta inspiração, na diversidade dos objetos. Parabéns, Socorro

Socorro 04.04.2016 - 07:13

Raquel, Que beleza de Outono! Que beleza de aula! Beijo, Mary

mary castilho 03.04.2016 - 09:52
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Raquel Naveira

Raquel Naveira nasceu em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. É formada em Direito e Letras pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB/MS), onde exerceu o magistério superior, desde 1987 até 2006, quando se aposentou. Doutora em Língua e Literatura Francesas pela Universidade de Nancy, França. Mestre em Comunicação e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP). Apresentadora do programa literário “Prosa e Verso” pela TV UCDB (2000-2006) e do “Flores e Livros” pela UP TV e pela ORKUT TV. Pertence à Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, à Academia Cristã de Letras de São Paulo e ao Pen Clube do Brasil. Diretora da União Brasileira de Escritores/Seção SP. É palestrante, dá cursos de Pós-Graduação e oficinas literárias. Escreveu vários livros, entre eles: Abadia (poemas, editora Imago,1996) e Casa de Tecla (poemas, editora Escrituras, 1999), finalistas do Prêmio Jabuti de Poesia, da CBL. Os mais recentes são o livro de ensaios Literatura e Drogas - e Outros Ensaios (Nova Razão Cultural, 2007), o de crônicas Caminhos de Bicicleta (Miró, 2010) e o de poemas Sangue Português: raízes, formação e lusofonia (Arte&Ciência, 2012). É colaboradora do Portal Top Vitrine desde abril de 2014.

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