Campo Grande-MS 29.05.2017

Agronegócio

Pedro Spindola

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Quarta-Feira, 25.11.2015 às 08:00

Não vai ter água no Aquário do Pantanal

Obra, orçada em R$ 87 mi, já consumiu R$ 200 mi e pode chegar a R$ 240 mi

Agronegócio

Para o Portal Top Vitrine

Pelo menos por enquanto... E é o que não poderia acontecer!

 

O governador do Estado do Mato Grosso do Sul determinou a paralisação total da obra. É uma decisão, no mínimo, equivocada e prejudicial à economia do Estado.

 

Uma lista enorme de questionamentos fica no ar.

 

O empreendimento chega assim a situação caótica, digna de muita preocupação e merece providências urgentes para que o prejuízo não se torne maior.

 

A obra não pode parar. Muito dinheiro já foi gasto. A previsão inicial era de R$ 87 milhões, já está em R$ 200 milhões e, dizem, deve atingir R$ 230 a R$ 240 milhões de reais.

 

É urgente descobrir onde foi parar tanto dinheiro e mais urgente ainda informar à população estes gastos, de forma detalhada.

 

No atual governo havia uma perspectiva de se dar continuidade à obra, com previsão de inauguração para o 2º semestre de 2015. E agora, o que acontecerá?

 

O governo passado (André Puccinelli) protelou por três vezes a inauguração. Prometida inicialmente para outubro de 2013, foi sendo adiada; terminou o governo e nada aconteceu. Ficou a informação que tudo estava pronto para acontecer em poucos dias. Não estava. Não era verdade, mas induziam – via mídia - a acreditar que sim.

 

Uma empresa foi escolhida – mediante licitação –  e contratada  para promover a gestão do empreendimento. Até agora não está atuando pois não há o que gerir. Como fica esta situação?

 

Foram comprados, extemporaneamente, 11 mil e tantos peixes, a preço de ouro, que foram confinados - erroneamente - em grandes caixas d’água plásticas, na sede da Polícia Ambiental, dentro do Parque das Nações Indígenas, com uma lotação superior ao recomendado, sendo alimentados com ração, configurando-se em uma prática absolutamente fora dos padrões técnicos mínimos recomendados. Fosse feita pela iniciativa privada, os órgãos de fiscalização e controle ambiental jamais aprovariam.

 

Veio o frio (em junho) e mais de 10 mil peixes morreram: 83%. O que não poderia ter acontecido, de forma nehuma. O mais inexperiente aquarista amador sabe que na época do frio a água de todo aquário precisa ser aquecida. O que deveria ter sido feito nos “aquários” improvisados, adquiridos pelo governo passado. Falaram que os peixes foram acometidos por fungos, o que também não é admissível, não morreriam todos assim de repente. Existe prevenção e existem tratamentos. A vida não aceita improvisos.

 

Sabendo-se que a inauguração não ocorreria tão cedo, estes 11 mil peixes não poderiam ter sido adquiridos. Nem deveriam...

 

E os que não morreram, onde andam?

 

Em sua concepção original, apresentada há mais de 20 anos, os peixes das 248 (?) espécies do pantanal deveriam ter sido capturados na natureza, por equipes especializadas compostas por técnicos do governo e das universidades, oportunidade em que o trabalho seria amplamente aproveitado para produzir documentários e livros sobre os peixes em si e sobre os deslubrantes ambientes da coleta: rios, córregos, corixos e lagoas. Só de rios e córregos são mais de 170, que seriam devidamente identificados, documentados em fotos e vídeo e georeferenciados.

 

Os canais de TV, que exibem documentários científicos, nos mostram peixes e ambientes do mundo inteiro, entretanto quase nada temos disponível sobre a ictiofauna e os ricos ambientes pantaneiros, cuja diversidade e beleza são admiradas no mundo inteiro.

 

A pesquisa científica sobre peixes ainda é pouco praticada e precisa ser incrementada.

 

O procedimento correto seria, uma vez capturados, esses exemplares de peixes não poderiam, sob o ponto de vista científico, em hipótese alguma, ir diretamente para os tanques do Aquário. É o princípio mais elementar para o manejo de espécies capturadas na natureza. Mas não, fizeram tudo errado!

 

Teriam que permanecer em quarentena, em uma Extensão Rural, prevista na concepção original do Aquário. Nela, além de vários tanques para acomodar e observar os peixes, também seriam produzidos diversos alimentos: vegetais, frutas convencionais e silvestres, minhocas, e pequenos peixes forrageiros.

 

Esta Extensão Rural chegou a existir, viabilizada através de um Convênio celebrado com a Prefeitura Municipal de Campo Grande, que cedeu uma área na Escola Agrícola das Três Barras para esta finalidade.

 

O governo anterior sempre bateu na tecla e prometia que o Aquário “vai contar com o maior laboratório do Brasil para estudos e pesquisas envolvendo peixes do ecossistema regional, tornando-se referência internacional de pesquisadores e cientistas”.

 

No discurso de lançamento do Aquário, no Parque da Nações Indígenas, em Maio de 2010, o então governador preconizou que "materiais analisados nos peixes e na vegetação poderão ser transformados em medicamentos e cosméticos. Além disso, ele dará condições de aprofundar o conhecimento e assegurar a integridade da fauna e flora presentes na região pantaneira" e que "o manejo das espécies em exposição deverá ser objeto de estudo e pesquisa constante no Aquário do Pantanal, que servirá como um grande laboratório vivo para maior entendimento sobre a biologia e ecologia da fauna e flora do Pantanal".

 

Nada disso aconteceu: o tal Centro de Pesquisa não existe, mas precisa existir.

 

A empresa ganhadora da concessão para gerir o aquário só vai cuidar da bilheteria. Não investirá em pesquisa científica. Empresa privada não faz isso. É papel de governo, à exemplo dos grandes organismos de pesquisas agropecuárias do nosso país. Embrapa e os Institutos Butantã, Agronômico de Campinas, Adolfo Lutz, de Pesquisa da Amazônia, de Zootecnia, ICMBIO e tantos outros espalhados por este Brasil afora, todos gerando conhecimentos e práticas voltadas para a produção primária.

 

Um centro de pesquisas ligado ao Aquário do Pantanal cumpriria importante papel no estudo e na divulgação da flora e da fauna ictiológica pantaneira.

 

Com o volume de dinheiro gasto até hoje teria sido possível implantar um grande centro de estudos e pesquisas do bioma pantanal.

 

Fica a pergunta: O que acontecerá com o Aquário do Pantanal?

 

O atual governo herdou esta situação incômoda, mas precisa buscar uma solução que a resolva.

 

O Aquário é um empreedimento científico, econômico, turístico e cultural que não pode ser abandonado e que merece ter continuidade urgente, para não cair no esquecimento como a Nova Rodoviária do Cabreúva, em Campo Grande (MS), que há mais de 20 anos espera um destino.

 

A população merece explicações.

 

Tem mais uma coisa: gente mal informada preconizou irresponsavelmente que o dinheiro aplicado no Aquário deveria ter sido gasto na construção de um hospital. Tudo bem: saúde – assim como educação e segurança - são indispensáveis. Estas pessoas precisam entender que dinheiro público tem destinação orçamentária. É um percentual – aprovado pela Assembleia Legislativa – destinado para cada setor.

 

Turismo e cultura sempre recebem percentuais irrisórios, se tirar então...

 

Nota da Redação

 

Em nota oficial ao Portal Top Vitrine, o governo de Mato Grosso do Sul informou que “com relação aos gastos, atualmente já chegam a quase R$ 200 milhões e a previsão é que cheguem a R$ 240 milhões. Foram concluídos 95% da obra, faltando apenas serviços de acabamento e estacionamento”. O texto diz, ainda, sem esclarecer a data para a entrega do Aquário do Pantanal:

 

- O Governo do Estado, através da Secretaria de Estado de Infraestrutura (Seinfra) e da Agência Estadual de Gestão de Empreendimentos (Agesul), vem através desta nota ratificar a paralisação das obras do Aquário do Pantanal e esclarecer os motivos de tal decisão.

 

A paralisação foi necessária, pois a continuidade de algumas ações depende da conclusão de serviços da parte civil.

 

Com relação ao contrato com a Empresa Clima Teck Climatização Ltda., que prevê a execução do sistema de ar condicionado, ventilação e exaustão mecânica do Aquário, faz-se necessária a conclusão dos seguintes serviços:

 

• Conclusão do forro de gesso para arremate dos dutos e instalações de grelhas e facoletes tipo cassetes;

 

• Instalação da bancada multimídia e conclusão do revestimento de ACM do tanque 20, no Auditório, para arremate dos dutos e instalações de grelhas e

 

• Disponibilização da energia definitiva da obra para limpeza das tubulações e teste da Central de Água Gelada devido à potência dos equipamentos.

 

O contrato com a Fluidra Brasil Indústria e Comércio Ltda., que tem como objeto a execução dos serviços técnicos especializados para fins de consecução do sistema de suporte à vida (filtragem, automação e iluminação) e construção cenográfica, teve que ser paralisado devido a não disponibilização dos itens:

 

• Conclusão da cobertura do tanque 15 – Aquasfera – para conclusão das instalações do sistema de filtragem, cenografia e iluminação cênica;

 

• Tratamento do fundo e paredes de concreto do tanque 2, 12 e 14 para execução da impermeabilização e cenografia;

 

• Energização de todos os quadros de energia que atendem o sistema de filtragem e

 

• Execução do forro dos tanques internos números 03 e 06 para conclusão da cenografia e ajuda da iluminação.

 

Os dois contratos acima listados serão paralisados pelo prazo de 120 dias.

 

O contrato com Ruy Othake Arquitetura e Urbanismo Ltda., que prevê a execução do serviço de assistência técnico-científica à construção do Aquário do Pantanal, terá continuidade até o final de dezembro de 2015, para apresentação dos seguintes produtos:

 

• Apresentação do Projeto Executivo de Arquitetura em sua versão final, editado e em meio digital, em idioma português do Brasil;

 

• Relatório da situação atual da edificação com relação à arquitetura e

 

• Relatório de recomendações de atividades de conservação no período de paralisação.

 

Faz-se importante frisar que a Seinfra, através da Agesul, se responsabiliza pela conservação da obra durante todo o período de paralisação. Também é importante ressaltar que o Governo do Estado não medirá esforços para que a obra seja retomada, pois acredita que obra parada é prejuízo aos cofres públicos, e para tal entrará com agravo contra a liminar da empresa que se recusou a retomar as obras do Aquário até 24 de novembro de 2015.

 

Campo Grande, 16 de novembro de 2015.

 

Peixes

 

O Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul) informou que assumiu a manutenção da quarentena dos peixes em 30 de junho de 2015. As motivações estão descritas na nota abaixo: 

 

"Os tanques com os peixes, todos de origem pantaneira, estão instalados no quartel da Polícia Militar Ambiental (PMA), em Campo Grande (MS).

 

O Imasul assumiu a quarenta com 7 mil exemplares de peixes, de 181 espécies. As mortes, em sua maioria, foram de exemplares forrageiros (que serviram de alimento para peixes maiores).

 

A informação sobre o número total de exemplares que foram levados ao local é de responsabilidade da Anambi Análise Ambiental, empresa que firmou convênio com a Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado (Fundect) para realização das pesquisas e manutenção da Quarentena".

 

Encerramento do projeto

 

Na edição do Diário Oficial de 30 de junho de 2015 foi publicado o encerramento do projeto de pesquisa ‘Biodiversidade para todos: da água à popularização da ciência e proteção da vida por meio do Aquário do Pantanal’ – coordenado por Thiago Farias Duarte, tendo como interveniente a empresa Anambi Análise Ambiental – e que mantinha o local de quarentena dos peixes.

 

De acordo com a Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado (Fundect), a medida ocorreu em virtude do não cumprimento de recomendações técnicas, tais como, o correto armazenamento da ração e oferta de alimentação adequada aos animais, rígido controle das condições da água e da temperatura, manuseio no local de quarentena, o que, entre outros aspectos, interferiu no adequado manejo para preservação do bem estar dos animais e produção de conhecimento científico, que é a finalidade do projeto. Além disso, foram detectadas inadequações na prestação de contas apresentada pela empresa interveniente do projeto de pesquisa, situação que acabou provocando o bloqueio na utilização dos recursos aprovados.

 

* Com informações de Laudiney Moura e da Assessoria de Comunicação da Fundect.

 

** Procurados pela reportagem do Portal Top Vitrine, a Anambi Análise Ambiental e a assessoria do ex-governador André Puccinelli não retornaram até o fechamento desta edição.

Divulgação Governo MS/Moisés Silva

Aquário, orçado em R$ 87 mi, pode chegar a R$ 240 mi

Divulgação Governo MS/Moisés Silva

Obra nos altos da Avenida Afonso Pena, em Campo Grande (MS)

Divulgação Governo MS/Moisés Silva

Empreendimento assume ares de situação caótica

Divulgação Governo MS/Moisés Silva

Onze mil peixes foram comprados. Grande parte já morreu

comentários (1)

Li o artigo com um nó na garganta, tamanha a minha indignação frente ao que tem acontecido com o Aquário do Pantanal. Tenho seguido este processo desde o primeiro dia em que meu amigo Pedro Spíndola teve a fabulosa ideia do aquário. Já são mais de 20 anos de espera e enrola, espera e enrola, espera e enrola. Estou velho e cansado. Acho que não aguento mais ver a políticagem acabar com os nossos sonhos.

gabriel nasser saad 24.11.2015 - 17:35
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Agronegócio

É técnico agrícola, jornalista e cronista. Foi diretor na Secretaria de Estado de Cultura de Mato Grosso do Sul, idealizador do Aquário do Pantanal em Campo Grande (MS), criador e editor do Boletim do Fazendeiro, da Associação dos Criadores de Mato Grosso do Sul (ACRISSUL). Editor por oito anos do Informe Agropecuário, jornal do Sindicato Rural de Campo Grande (MS). Publicou mais de duzentas crônicas nos jornais Diário da Serra e Folha do Povo. Criador do Projeto "MS Conta Sua História", idealizador do livro "Campo Grande 100 Anos de Construção". Organizou os livros "Celebração das Coisas", em comemoração aos 90 anos do poeta Manoel de Barros, "Histórias y Estórias, Casos y Causos" de Sylvio Amado e "Vivências de um Pantaneiro", de Nauile de Barros. Autor dos projetos sócio ambientais: Recuperação de Nascentes, Caminhos da Natureza, Preservação das Nascentes dos Córregos de Campo Grande e Produção Integrada Sustentável para Pequenas Propriedades. Spindola escreve desde novembro de 2015 no Portal Top Vitrine.

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