Campo Grande-MS 28.06.2017

Eliane Oliveira

Na Itália com Eliane Oliveira

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Domingo, 20.03.2016 às 07:20

Na Itália com Eliane Oliveira: Tudo será como antes

Quanto diminuiu a corrupção no Brasil desde o impeachment de Collor?

Eliane Oliveira

Para o Portal Top Vitrine

Há 24 anos o Brasil viveu o seu primeiro impeachment. O presidente Fernando Collor de Mello, eleito pelo voto direto, caiu depois que uma CPI criada para investigar desvio de verbas públicas, financiamentos ilícitos da sua campanha eleitoral, enriquecimento ilícito e crime de responsabilidade.

 

Na época, Collor tentou enfrentar a maré de denúncias pedindo que a população fosse às ruas vestida de verde e amarelo. O que se viu nas praças e avenidas no domingo seguinte foi um povo de luto. A Folha de São Paulo circulou com uma tarja preta na primeira página. O “caçador de marajás” caiu por 441 votos a favor e 38 contra. O homem que prometeu limpar o Brasil das falcatruas e da corrupção saiu pela porta dos fundos pelos mesmos motivos.

 

Era véspera de eleição para prefeito em todo o Brasil. O que me lembro é de um movimento popular sem a ira e sem os embates pessoais aos quais assisto hoje, vivendo longe do Brasil.

 

Tento imaginar a atmosfera pelo País afora. O que era bem visível em 1992 era a vontade de um povo de passar o Brasil a limpo, de acabar com a corrupção nas esferas do governo. Passaram-se pouco mais de duas décadas e lá estão, de novo, os brasileiros nas ruas pedindo o combate à corrupção, ainda que não saibam qual é a melhor alternativa ao que temos hoje.

 

Pergunto-me o que mudou nestes últimos 24 anos entre o impeachment de Collor e a tentativa de impeachment de Dilma. Quanto diminuiu a corrupção no Brasil? O quanto o povo é capaz de entender que não é só a Dilma, o Collor ou o Lula. É o sistema. E não só: é a índole dos brasileiros, e dos latinos em geral, de querer levar a melhor, cada um no seu mundo, cada um na sua esfera. É isto, também, que faz o Brasil ser o que é hoje. Como faz a Itália ser o que é hoje. Depois da Operação Mãos Limpas o País não mudou tanto assim como se sonhava. A corrupção não foi extirpada como se gostaria e se acreditava. Há, sim, mais mecanismos de controle, porém não bastam. Ainda não há um mecanismo de controle do caráter de cada um. É a velha história da cultura de quem pensa primeiro em levar a melhor. Diferente dos brasileiros, os italianos ainda se indignam com algumas coisas e o nível de escolaridade é muito maior. Não há como negar. Isto faz a diferença.

 

Com um problema cultural mudar o sistema não basta. É preciso mudar a mentalidade. Esta é a tarefa mais difícil. Eu diria quase impossível. Falo da mentalidade de reconhecer que o erro é erro. Seja grande ou pequeno. Falo da mentalidade que leva um parlamentar alemão a renunciar ao cargo porque se descobriu que a tese de conclusão de doutorado foi copiada. Está nos princípios e este princípio o povo brasileiro não tem.

 

A história que vivemos hoje é a mesma porque o brasileiro é o mesmo

 

Lá onde ele pode se dar bem ele não pensa duas vezes. É a mentalidade de quem vê como corrupção só o que acontece na esfera política, nos governos. É a mentalidade de quem dá um jeitinho para tudo e ainda descreve este jeitinho como parte de “ser brasileiro”. É a mentalidade de quem vai ao banco com uma criança (que não é sua) no colo só pra entrar na fila preferencial. De quem estaciona na faixa de pedestre porque é rapidinho. É a mentalidade de quem considera ter uma empregada doméstica com todos os direitos trabalhistas pagos uma coisa justa, sem se questionar se o valor pago é justo. É a mentalidade de quem não quer pagar hora extra para a empregada, mas exige o pagamento de horas extras na empresa onde trabalha.

 

É a mentalidade de quem não vê o conceito de justiça como algo mais importante do que qualquer indivíduo. É a mentalidade de quem não vê o público e coletivo como de todos. O povo não é ele. O povo é os outros quando convém. Não é só, só, e só a democracia e o Estado de Direito que vão resolver os impasses. Tanto é que não resolveu. A história que vivemos hoje é a mesma porque o brasileiro é o mesmo.

 

Conheci um alemão que durante uma pesca, ao mover a lança para jogar a isca, quebrou uma lâmpada à beira do lago. Chegando em casa ele comunicou via e-mail ao órgão competente dizendo que pagaria pelo dano. Por quê? Porque aquela lâmpada é da casa dele, ainda que não esteja dentro da sua sala. Qual seria a reação do brasileiro? Avisaria ou iria embora bem quietinho?

 

Os brasileiros falam tanto em justiça social, desenvolvimento e igualdade para todos. Quantos, destes brasileiros, estão dispostos a abrir mão do que têm por uma distribuição de renda mais equilibrada?

 

Desenvolvimento e igualdade é isto: é avisar que quebrou a lâmpada na rua, é pagar 4/5 vezes mais para a empregada doméstica, é considerá-la uma pessoa que pode sentar à mesa com você. É não ocupar a vaga dos portadores de necessidades especiais em um estacionamento, é não furar a fila no banco.

 

Não acredito que o brasileiro esteja pronto para isto. Não acredito que a elite esteja pronta para perder uma parcela dos seus lucros e privilégios em nome da igualdade social. Não acredito que a elite esteja disposta e ganhar menos para que outros ganhem mais. Porque é disto que se trata.

 

Mudemos o governo, se tivermos nas mãos algo melhor, mas mudemos também o sistema e a mentalidade. E não venham me dizer que o Brasil não é a Itália. Até porque os italianos ainda não são um grande exemplo entre os países mais desenvolvidos. Não venham dizer que é fácil argumentar porque vivo na Europa. Isto é desculpa para permancer neste limbo mental. E neste passo, mesmo que o governo caia, daqui a alguns anos os brasileiros se encontrarão de novo nas ruas para protestar contra a corrupção. A história se repetirá.

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Eliane Oliveira

É jornalista formada pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). É autora do livro “Português do Brasil", o primeiro curso de português específico para italianos (Editora Hoepli/2014). No Brasil passou boa parte do tempo dentro de uma redação ou de um estúdio de TV. Foi repórter, editora, editora-chefe, apresentadora de telejornal, roteirista e editora de texto de documentários e informes publicitários. A cada dois anos parava tudo pra dedicar-se à comunicação nas campanhas políticas. Sempre dentro de uma redação ou de um estúdio. Criou, em sociedade, a Midianova Assessoria em Comunicação, desenvolvendo projetos de assessoria de imprensa em vários setores. Em novembro de 2000, depois de dois anos de vai e vem, mudou-se para Milão, na Itália, de mala, cuia e CDs. Tudo por amor. Mora em Milão e hoje a quem pergunta define-se assim: brasileira de nascimento, italiana por escolha, jornalista de profissão, tradutora e professora de português por paixão. Criou um programa e um método de ensino de português específico para italianos. Desde que vive na Itália ministra cursos de formação de português como língua estrangeira e trabalha como tradutora. Ainda que fora das redações e dos estúdios, continua escrevendo para manter o idioma aceso na mente e por vício. Eliane Oliveira escreve artigos para o Portal Top Vitrine desde junho de 2013.

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