Campo Grande-MS 27.07.2017

Raquel Naveira

Escritora, Doutora em Língua e Literatura Francesas

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Sabado, 09.04.2016 às 08:00

Mãe eterna

Um relato perpassado de espanto, ternura e realidade

Raquel Naveira

Para o Portal Top Vitrine

Surpreendo-me com o novo livro da escritora e psicanalista paulista, Betty Milan, intitulado Mãe Eterna. Nele, a filha-narradora escreve sobre seu drama com a mãe de 98 anos, quase cega, quase surda, que se locomove mal e se alimenta como um passarinho. Escreve para processar e suportar a perda da mãe antes mesmo de sua morte. Rememora o passado de uma mulher combativa, que, viúva precocemente, assumiu com mãos de ferro as rédeas da família. Uma mulher cheia de personalidade, humor e independência, presa agora às contingências de uma penosa velhice. Refletindo sobre a condição da mãe, a filha se questiona sobre a conduta do médico que procura vencer a morte a todo custo e como humanizar o fim da vida. É um relato perpassado de espanto, ternura e realidade. Admiro como Betty é capaz de desnudar sua alma com tanta coragem, como se tivesse uma faca para penetrar entre os ossos e a medula.

 

Conheci Dona Rosa no lançamento do documentário “Dona Rosa”, dirigido por seu neto, o cineasta Mathias Mangin, filho de Betty, e por Lucas Mandacaru, que traça o perfil dessa mulher esperta e prática, que viu na manutenção dos bens fincados na selva da cidade, um objetivo de sobrevivência. Observei seu olhar arguto, quase irônico, de quem guarda a sete chaves o segredo de uma longevidade incompreensível até mesmo para ela. Personagem incrível essa matriarca-rainha.

 

Mãe é mesmo um papel sagrado. Em francês, as palavras mer (mar) e mère (mãe) são muito parecidas. Mãe é mar, matriz, líquido amniótico em ondas no útero. Mãe é porta para o nascer, para o sair do ventre em busca de luz e para o morrer, o retornar à terra. Mãe é abrigo, segurança, mas também pode ser opressão, castração. Mãe que domina, paralisa e devora.

 

Sonho muitas vezes com uma mãe ursa, violenta, boca que estraçalha carnes e estrelas. Com uma loba que amamenta com peitos de fel. Com uma orquídea que suga e sufoca o tronco de que se alimenta até a raiz. Outras vezes, sinto-me uma vaca fluindo leite, nutrindo de meu sangue, de meu couro cor de lua bezerros puros. A verdade é que, em vários planos, ora sou filha, ora mãe. Confundo-me em cenas fortes que formam o filme de minha existência, meu princípio feminino.

 

Jesus ordenou que orássemos ao Pai. Pai é vínculo espiritual, de confiança. A mulher declara quem é o pai da criança. O pai acredita nessa palavra. Mãe é ventre, entranhas, templo, comunidade onde se vive a graça e se sofrem traumas. Entre os antigos romanos, a paternidade só se dava no momento em que a mulher colocava o filho aos pés do pai e ele, reconhecendo em seu íntimo o fato de ser pai, levantava a criança e lhe dava um nome: “- Marco Túlio Cícero”. Se desprezasse a criança, o filho seria abandonado, expurgado, ficaria à margem daquela sociedade opulenta e cruel.

 

Maria foi mãe coragem. Desafiou os costumes e as leis da natureza. Aceitou cumprir a vontade do Pai. Engravidou do Espírito, mesmo sendo noiva de um homem, mesmo correndo o risco de ser apedrejada. Abriu-se para a encarnação do Verbo.

 

Betty e eu temos esse ponto em comum: a velhice de mães marcantes. A minha é uma espécie de Elizabeth Taylor. Cresci ouvindo dizer que tão linda quanto. Os olhos claros de fera. O mesmo destino de Liz. Infelizes nos amores, mimadas, enfermas no corpo e na alma. Gatas em teto de zinco quente. Cleópatras fundando reinos. Fêmeas transgressoras, mas, no fundo, conservadoras, sonhando com maridos e filhos, rejeitando a família despedaçada. Rostos perfeitos de esfinges, seios brancos, colos pesados de colares, colunas esfaceladas. Trágicas e dolorosas. Empurro minha mãe na cadeira de rodas pelo mundo. Meu fardo, minha devoção sobrenatural, minha filha às avessas. Ela é minha sina. Eu o sei e busco honrar.

 

Identifico-me com aquela obra-prima de Bergman, o filme “Sonata de Outono”, com as atrizes Ingrid Bergman e Liv Ullmann, mãe e filha. Após ter sido uma mãe ausente por anos, Charlotte, famosa pianista, vai até a casa de sua filha Eva para lhe fazer uma visita. Estavam sem se ver há sete anos. A mãe encontra ali sua outra filha, Helena, que tem problemas mentais. Eva tirou Helena da instituição onde Charlotte a havia internado para cuidar dela. A tensão entre mãe e filha cresce até que elas colocam tudo em pratos limpos. Nessa conturbada relação, há impossibilidade de amar. (Lacan, com quem Betty Milan estudou na França, afirmou que “uma mãe pode ser uma devastação para uma filha”). Os semblantes das personagens se transformam, as máscaras caem, as chagas se expõem. Eva procura em vão um lugar no desejo dessa mãe que mantém as filhas à distância. A filha se petrifica. A decepção é enorme. Somente as cartas, o som das sonatas, as folhas alaranjadas de outono podem amenizar tamanho sofrimento.

 

Cartas... Betty lê cartas de amor do pai à sua mãe. Relembra viagens que fizeram juntas a Paris, o pôr do sol à beira do Sena, o navio atravessando o oceano. Escreverei uma carta à Betty: “ - Querida, ma chérie, o seu livro colocou-me a seu lado, ao lado da sua e da minha mãe. Quando terminei de lê-lo, os meus olhos fitaram o mar da eternidade”.

Reprodução

Cena de Sonata de Outono

comentários (6)

Primorosa, uma vez mais.

Lucinda Persona 12.04.2016 - 17:44

A vida é dualidade plena e se completa, ao final, com a morte.Vida e Morte.Assim, e dualidade: Mãe e Filha se completa com a inversão dos papéis. A absorção, incorporação do papel Filha/Mãe se dá na plena consciência, lucidez. A da Mãe/Filha navega em corrente oposta. Aula máxima da existência para quem, muitas vezes, não entendeu as razões da convivência humana.Sábios são os desígnios do Pai!Bem haja Raquel com tais colocações!

Frances de Azevedo da Academia Cristã de Letras 11.04.2016 - 11:35

A cada crônica que escreves mais noto o quanto estamos ligadas por fios embebidos de existência. Estou com minha mãe assim. 83 anos e um bebê em atitudes.Observe a hora que te escrevo. Estou acordada. A cada hora ela me chama. Eu atendo com carinho indagando aos meus botões: Será o último chamado? A realidade da vida é cruel e ao mesmo tempo doce, muito doce. Lá vou eu madrugada afora atender o meu bebê que chora!!! Beijos

Nena Sarti 11.04.2016 - 03:35

Raquel, sua crônica é magnífica, verdadeiro atestado de sensibilidade, erudição e genialidade. A lição de semântica, uma análise profunda da velhice prolongada, prêmio e castigo, o tom confessional sobre a complexa figura da mãe. O parágrafo sobre seus sonhos freudianos é notável. Religiosidade, cultura e no final, a chave-de-ouro que daria outra crônica. Só mesmo Raquel Naveira! Beijos da Ely Vieitez Lisboa

Raquel Naveira 10.04.2016 - 11:46

Emocionante. Ser mãe às avessas deve ser doído mesmo. Mas Deus não se ausenta, ajudando a levar a cadeira de rodas. Beijo, Raquel querida, Mary

Mary Castilho 09.04.2016 - 21:42

Que lindo, Raquel! Fiz uma regressão em minha vida ao ler o seu texto...

Conceição Russo 09.04.2016 - 12:17
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Raquel Naveira

Raquel Naveira nasceu em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. É formada em Direito e Letras pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB/MS), onde exerceu o magistério superior, desde 1987 até 2006, quando se aposentou. Doutora em Língua e Literatura Francesas pela Universidade de Nancy, França. Mestre em Comunicação e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP). Apresentadora do programa literário “Prosa e Verso” pela TV UCDB (2000-2006) e do “Flores e Livros” pela UP TV e pela ORKUT TV. Pertence à Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, à Academia Cristã de Letras de São Paulo e ao Pen Clube do Brasil. Diretora da União Brasileira de Escritores/Seção SP. É palestrante, dá cursos de Pós-Graduação e oficinas literárias. Escreveu vários livros, entre eles: Abadia (poemas, editora Imago,1996) e Casa de Tecla (poemas, editora Escrituras, 1999), finalistas do Prêmio Jabuti de Poesia, da CBL. Os mais recentes são o livro de ensaios Literatura e Drogas - e Outros Ensaios (Nova Razão Cultural, 2007), o de crônicas Caminhos de Bicicleta (Miró, 2010) e o de poemas Sangue Português: raízes, formação e lusofonia (Arte&Ciência, 2012). É colaboradora do Portal Top Vitrine desde abril de 2014.

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