Campo Grande-MS 29.04.2017

Breno Rosostolato

Psicólogo e Terapeuta Sexual

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Sexta-Feira, 01.04.2016 às 17:02

Inveja, a pior de nossas virtudes

O invejoso se sente sempre ameaçado. Sua virtude é a mediocridade

Breno Rosostolato

Para o Portal Top Vitrine

O aforismo no Templo de Apolo em Delfos – ‘Conhece-te a ti mesmo’ – é uma máxima que na contemporaneidade é dimensionado através da confrontação. O processo de autoconhecimento sempre foi muito difícil, mas hoje, o ser humano encontra-se e depare-se consigo através de reflexos. Reflexos de espelhos que, inevitavelmente, revelam nossas angústias. E eis que, quando elegemos o outro como este espelho e fixamos esta ideia, ficamos refém da inveja.

 

Invejar não é cobiçar. Cobiçar é querer alguma coisa do outro, cujo desejo impulsiona a buscar. Pode ser negativo e positivo, entretanto, a inveja é negativa porque se baseia na tristeza que sentimos pela felicidade alheia. É sentir-se aflito pela prosperidade dos outros. Tristeza por saber que o outro tem. 

 

A origem latina da palavra inveja é ‘invidere’ que significa ‘não ver’, do latim ‘invido’, olhar mal. Talvez a etimologia já forneça uma boa compreensão da inveja e os sentimentos envolvidos a ela. Não conseguir enxergar as próprias qualidades e ter olhos apenas para as qualidades e conquistas daquele que não tolero. Mas não ver é também é incapacidade de reconhecer o próprio fracasso diante do sucesso do invejado.

 

O Purgatório de Dante Aliguieri é o lugar para onde vão os invejosos, e que são castigados pelo seu pecado tendo as pálpebras costuradas nos olhos por fios de metal. Nada vendo, não podiam mais invejar. A inveja começa no olhar e na comparação de si com o outro, sobretudo se este alguém for muito próximo – o colega de trabalho em ascensão, o irmão que considero ser mais favorecido do que eu na família, o cunhado que é mais intelectualizado, o primo refinado que viaja para o exterior todo ano.

 

Não invejo quem está longe, porque é a pessoa próxima reflete meu dissabor, meu insucesso. Estamos no mesmo lugar, mas enquanto ela consegue caminhar e progredir, eu permaneço inerte e apático.

 

A psicanalista austríaca Melanie Klein dizia que a inveja iniciaria no momento da amamentação, o que ela chama de ‘inveja do seio’. O estado de dependência com a mãe resultaria na inveja e a reação do bebê é destruir esta percepção, logo, a dor de sentir inveja é um dos sentimentos mais primitivos do ser humano. Se perceber invejoso é concomitante à apropriação do outro. A inveja é reconhecer limitações e uma maneira de enaltecer aquele que possui mais sucesso do que eu.

 

O ciúme é derivado, em certa medida, da inveja. O incômodo torturante. A insatisfação exposta pelo espelho. Com o tempo e condicionados a imagem idealizada, passa-se a viver a mercê deste ciúme. Uma disputa por atenção e afeto. A sensação de abandono é crucial e o pressentimento de incompletude. Uma vez que o sucesso do outro é ameaçador, a rivalidade e disputa são consequências. A inveja é do sucesso e não do infortúnio do outro. A desgraça comove e sensibiliza as pessoas, mas o sucesso pode distanciar.

 

Na língua alemã existe uma expressão - ‘schadenfreude’ - que designa aquela sensação de prazer no infortúnio do outro. O insucesso da pessoa invejada causa satisfação e êxtase. Assim foi com Michelangelo quando convidado, por insistência do pintor Donato Bramante, para pintar os afrescos da abóbada da Capela Sistina. Bramante convenceu o Papa Julio II para que contratasse Michelangelo, acreditando que ele não seria capaz de finalizar a grandiosa obra de arte e assim, desistiria, manchando seu nome, o que não aconteceu. O filme ‘Amadeus’ retrata a relação de inveja do compositor italiano Antonio Salieri em relação ao compositor austríaco, Wolfgang Amadeus Mozart e sua ascensão precoce.

 

Fato é que a inveja é uma boa desculpa para o insucesso: ‘Eu não consegui por que muitos me invejam’, ‘não passei por causa da inveja’, ‘só pode ser inveja’. A inveja é a desculpa conveniente e, ao mesmo tempo, a nossa inexorável incapacidade de admitir a diferença, afinal, comparar-se ao outro é no fundo, a tentativa de se igualar. O historiador Leandro Karnal afirma que, embora agrupados em similitudes, ainda assim, somos diferentes, logo, condenados viver tais diferenças. Ainda bem.

 

O invejoso se sente sempre ameaçado. Sua virtude é a mediocridade. A castração das emoções, da iniciativa, do desejo, do espírito e do conhecimento. Prefere o infortúnio alheio ao sucesso porque o primeiro conforta, o segundo, incomoda. Invejar é confrontar-se com a morte, com a finitude, porque a cada vez que perguntamos se somos felizes, respondemos pensando no que o outro tem. Saber do fim nos obriga a obter esta felicidade a todo custo. Por isso nos dias de hoje se paga um preço caro para ter algo, porque a inveja ao outro é insuportável. Assim é a sociedade que torna a inveja seu alimento e se suicida através dela.

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Breno Rosostolato

É psicólogo, terapeuta sexual e professor universitário em São Paulo (SP). É escritor, blogueiro - www.brenorosostolato.blogspot.com - e articulista de jornais e revistas. Breno Rosostolato é colaborador do Portal Top Vitrine desde fevereiro de 2013.

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