Campo Grande-MS 27.07.2017

Breno Rosostolato

Psicólogo e Terapeuta Sexual

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Quinta-Feira, 24.03.2016 às 08:00

Crimes passionais, relações abusivas e a violência de gênero

Homens não morrem simplesmente por serem homens. Mulheres sim

Breno Rosostolato

Para o Portal Top Vitrine

Crimes passionais são aqueles cometidos por paixão. Motivação que não é, infelizmente, muito incomum nos noticiários policiais. São constantes notícias deste tipo. A pessoa, que movida por forte descontrole emocional, agride, violenta e até mesmo, assassina o outro.

 

Os motivos são diversos e, muitas vezes, banais. Frustração no relacionamento, não aceitação do término desta relação, ciúmes, sentimentos de propriedade pelo outro e assim por diante. Crimes que se pautam no domínio pelo outro, em expectativas projetadas e pouca, ou nenhuma, tolerância à frustrações.

 

Os argumentos são semelhantes para quem comete tais atos violentos. Sentem-se pouco valorizados, não se sentem reconhecidos e aceitos pelo outro. Características da sociedade contemporânea, este tipo de crime é associado com o patriarcado, que ainda produz, e que construiu ao longo da história a concepção de que a mulher é abjeto. Mulheres sujeitas às imposições dos homens, portanto, vítimas, na grande maioria dos casos. Vale salientar que crimes assim acontecem há muito tempo e que intensifica-se com o advento do machismo.

 

Violência de raízes sexistas e misóginas. Possui como mote a ideia estapafúrdia de ‘lavar’ a honra. Que honra tem na morte do outro? Isso é honra? Segundo o advogado Benedito Raymundo Beraldo Júnior, crime passional é tipificado como homicídio passional e é ‘cometido por paixão, tanto pode vir do amor como do ódio, da ira e da própria mágoa’.

 

O sentimento é de ódio, cujo pensamento perverso baseia-se na ideia de que o homem possui o controle daquela vida e do corpo da mulher, logo, ‘move a conduta criminosa o argumento da legítima defesa da honra’, pois fora contrariado em suas determinações.

 

O feminicídio é uma fatídica realidade que estabelece uma espécie de hierarquizações sociais arbitrárias e assassinas entre homens e mulheres. Homens não morrem simplesmente por serem homens. Mulheres sim.

 

O sistema patriarcal é responsável pela perpetuação da misoginia, ou seja, a aversão às mulheres. Homens deveriam ser soberanos e comandar a família, ser fortes e não demonstrar fraquezas. Para tal, devem se impor, nem que para isso utilizem da violência. A história confirma isso. Controlar a mulher era uma característica valorizada no machão, que ainda hoje a enxerga como sua propriedade.

 

Na Antiguidade, as tribos e famílias eram comandadas pela mãe, ou seja, sociedades matriarcais cuja figura de responsabilidade eram as mães, desde a divisão de bens, o sustento da família e pela organização do clã. Foi por volta do século IV d.C., período posterior ao surgimento do pastoreio, os hebreus mudaram essa perspectiva e inauguraram o patriarcalismo em que a imagem de poder passa para o homem, o pai.

 

Foi na Idade Média que a mulher é explorada como um objeto a serviço do homem. Subserviente, as mulheres foram perseguidas pela Santa Inquisição em inúmeras acusações de bruxaria. A Idade Moderna marca outro aspecto importante que fomenta a violência de gênero. As mulheres são excluídas da Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão, documento que surgiu após a Revolução Francesa de 1789.

 

A sociedade se organiza através de leis feitas por homens e com o intuito de controlar e dominar as mulheres. Medidas coercitivas e que impediam as mulheres, por exemplo, o direito ao voto. Na contemporaneidade é a emancipação feminina que dá a tônica à sociedade e o movimento feminista cresce e se difunde no mundo todo.

 

A generificação das relações entre homens e mulheres é opressor e violenta. De acordo com Maria Amélia de Almeida Teles e Monica de Melo, autoras do livro ‘O que é violência contra a mulher?’ provocam uma pertinente reflexão quando usam as expressões ‘violência de gênero’ e ‘violência contra a mulher’ como sinônimas.

 

A violência de gênero não se restringe à binaridade homem/mulher, tão somente, mas, nas relações de poder, ou seja, etnia/raça e classe. A filósofa Judith Butler vai além e provoca com sua concepção de gêneros como ato intencional e performativo. São gestos, palavras e estereótipos que expressam uma realidade e montam um cenário de violência.

 

Estes são os ‘gêneros inteligíveis’ como descreve Butler em ‘Problemas de Gênero (2003)’ no qual a conformidade entre sexo – gênero – desejo – práticas é a coerência social reconhecida e imposta. Um ser que nasce com um pênis será aceito como homem, logo, deve ser masculino, desejar mulheres e manter relações sexuais em que ele seja ativo e que penetre.

 

Os relacionamentos abusivos baseiam-se em uma violência invisível, embora notória e que produz sutis agressões, principalmente de um homem para uma mulher, típico de sociedade em que existe uma atmosfera machista e generificada.

 

Possessividade e controle ao outro são alguns sinais da violência e que vão desde vigiar o que se faz na internet, controlar conversas ao telefone, exigir saber suas senhas pessoais, ciúmes excessivo, desconfiança e acusações de traição.

 

A pessoa é agressiva sem tocar o outro. Grita, ameaça, quebra objetos como forma de intimidação. Este homem maltrata outras mulheres como a mãe, irmã ou a avó. Manipula no sentido de obter aquilo que deseja e depois pede desculpas se vitimizando. Confunde com jogos emocionais e chantagens.

 

A ‘coisificação’ do corpo da mulher é uma consequência marcante à violência de gênero. Exemplo disso nas relações abusivas é o sexo forçado, no qual se entorpece, embebedam, fazem chantagem ou tentam fazer sexo com a pessoa dormindo. Um corpo que para alguns homens está sujeito à seus desejos e vontades. É desumanizar o ‘ser mulher’.

 

Os relacionamentos pautados na generificação permitem ao homem o protagonismo e privilégios que a mulher não possui. A elas a subalternidade e uma ‘inessencialidade’ que invisibiliza e a faz desaparecer. Alguém ‘inessencial’ pode ser eliminado, daí o feminicídio.

 

Concordo com a filósofa Marcia Tiburi quando afirma que ‘o poder sempre marca’ referindo-se ao patriarcado. Enquanto poder, este se estabelece como privilégio sim e em detrimento do sofrimento daqueles que não usufruem deste privilégio. Marcou e marca mulheres.

 

Tiburi complementa e afirma que homens são marcados também, desde que sejam negros, gays ou homens trans. Eu me atrevo a complementar. O patriarcado é um sistema que normatiza e enquadra tanto os homens que também enfraquecem eles. Marcas que escravizam os homens a ser algo que já não se sustenta mais.

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Breno Rosostolato

É psicólogo, terapeuta sexual e professor universitário em São Paulo (SP). É escritor, blogueiro - www.brenorosostolato.blogspot.com - e articulista de jornais e revistas. Breno Rosostolato é colaborador do Portal Top Vitrine desde fevereiro de 2013.

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