Campo Grande-MS 22.07.2017

Biodiversidade

Sandra Sakamoto & Thiago Angeli

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Sexta-Feira, 08.04.2016 às 09:30

Como surgiu a relação entre homens e animais de estimação?

Animais selvagens podem se tornar bons pets?

Biodiversidade

Para o Portal Top Vitrine

Por que temos uma necessidade tão grande de ter ao nosso lado companheiros não-humanos? Será que cuidamos realmente bem dos bichinhos em casa? Como algumas pessoas convivem com animais considerados perigosos como as serpentes? Animais selvagens podem se tornar bons pets?

 

Essa relação é tão antiga que foi herdada de nossos antepassados pré-históricos a cerca de 150 mil anos atrás. Quando surgiram os primeiros povos assentados, ou seja, quando deixaram de ser itinerantes para estabelecerem-se no mesmo local, os nossos aparentados passaram a suprir suas necessidades básicas e de sobrevivência - como abrigo, alimentação e reprodução - num só espaço.

 

Nasceu a partir daí uma sociedade mais organizada com funções melhores estabelecidas entre seus indivíduos. Com a formação dos povoados surgiram a agricultura e a pecuária, isto é, deu-se início à domesticação dos vegetais e também dos animais.

 

Estudos mostram que os primeiros animais a serem domesticados foram os bovídeos e com o passar do tempo foram incorporados ovinos, suínos, aves... Entretanto, essas espécies eram criadas para realizarem trabalhos de tração ou para saciarem a fome dos componentes de um determinado grupo, não havia uma relação sentimental envolvida.

 

Entretanto, estas comunidades passaram a atrair também outros seres, além dos humanos, pela possibilidade de obterem comida e, posteriormente, moradia. Animais carnívoros, como lobos, começaram a se aproximar dos seus territórios para conseguirem furtar suas caças e, à parte dos problemas que esses saques causavam para o bem-estar geral, os homens observaram que alguns desses canídeos eram mais dóceis que outros e que aceitavam comer direto de suas mãos e até aceitar afagos. Pronto! Estava estabelecida a convivência entre hominídeos e animais.

 

No decorrer da história da civilização humana, os animais atingiram status de doméstico para um ente estimado e querido. Dificilmente não há residência sem um pet: seja um cachorro, um gato, roedores, peixes num aquário, assim como pássaros canoros que são retirados ilegalmente da natureza para viverem confinados em uma gaiola e mais uma série de outras espécies que são vítimas da biopirataria, ou seja, do tráfico de animais, que é uma das atividades ilícitas mais rentáveis, depois do tráfico de drogas e de armas. Mas, esse assunto já foi comentado aqui na Coluna Biodiversidade em outra matéria.

 

O número do mercado de produtos e serviços, destinados aos animais de estimação, falam por si só sobre o apelo sentimental que estes membros familiares representam para a sociedade atual. Só no Brasil, anualmente, este segmento gera cerca de R$ 16 bilhões de reais, dados de 2013, segundo a Associação Brasileira de Produtos para Animais de Estimação (ABINPET) com estimativa de atingir-se R$ 21 bilhões em 2020.

 

Entretanto, na mesma proporção que pets são comercializados, eles também são abandonados pelas mesmas pessoas ou famílias que o adotaram/compraram. Conviver-se com um animal de estimação é algo tão inserido e divulgado em nossa cultura, que nos esquecemos que são seres que têm vida própria, sentimentos, sofrem de dor, fome, frio etc...

 

E tão comum quanto pagar por um bichinho que está numa vitrine como mercadoria, é abandoná-lo. Com tantos bichos depositados em Centros de Controle de Zoonoses, principalmente cães e gatos, chega a ser quase um crime optar pela compra, ao invés da adoção.

 

Além da moda das raças, também existe a moda de espécies exóticas que geralmente são comprados por adolescentes e jovens que adoram se exibir. Basta acessar as redes sociais da internet para encontrar vários deles em selfies com seus brinquedos vivos e em situações de risco e até de maus tratos com os pobres. Se você é mãe ou pai, por favor, saiba dizer NÃO!

 

Na década de 90, por exemplo, vendia-se filhotes de cágados tigre d'água americanos, muito pequeninos e encantadores, nas pets shops. Muita gente os adquiriu sem saber que esses quelônios podem crescer até 45 cm, viver décadas, são carnívoros vorazes e que podem até decepar um dedo de uma criança. Fora isso, são répteis que adoram água turva, ou seja, anti-estético para criar-se num terrário de vidro. O que aconteceu? Os compradores irresponsáveis os jogaram em lagoas, rios, córregos, parques e, infelizmente, é comum vê-los doentes em várias partes do Brasil.

 

A introdução de uma espécie exótica, isto é, que não é endêmica daquele lugar, é algo muito complicado do ponto de vista ecológico, pois traz graves consequências ao ecossistema local. Essa espécie solta de forma irregular, pode criar um predador em potencial para aquele ambiente e detonar com toda sua biota.

 

Caso típico é o das tilápias que foram soltas por aquaristas e que exterminaram peixes numa lagoa do Rio Grande do Sul. Esses animais se adaptaram à nova morada tendo alimento disponível, clima favorável e não tinham inimigos naturais para controlar sua reprodução. O resultado foi desastroso.

 

A matéria de hoje visa, justamente, alertar sobre a responsabilidade que é ter um indivíduo não-humano que não fala nossa linguagem e pode chegar a viver muitos anos, as vezes, décadas. Se você sente-se só e precisa de um amigo peludo, emplumado ou escamoso, têm filhos e eles estão loucos para terem um bicho de estimação para chamarem de seu, opa! Pare e pense em algumas questões:

 

- Você quer um animal porque está carente afetivamente ou por que gosta da sua companhia ou se identifica com a espécie?

 

- Você tem infra-estrutura para receber um animal em sua casa?

 

- Você tem condições financeiras de prover a alimentação, o bem-estar e atender alguma urgência veterinária dele?

 

- Terá tempo, paciência e disponibilidade para cuidar do seu animalzinho?

 

- Conhece o mínimo necessário da espécie: tempo de vida, hábitos alimentares, humor, se suporta a presença humana?

 

Se você não tiver resposta positiva para estes questionamentos bem simples, creio que seja melhor aguardar um momento mais oportuno antes de se comprometer com outro ser. Parece fácil e, embora banal ter um animal de estimação junto de si, requer planejamento, isto é, a razão tem que estar acima do imediatismo, do querer ter e do comprar. Adquirir um pet e largá-lo sozinho e sem tratos mínimos, é praticar violência tanto psicológica como física a ele e pode gerar multa e até prisão contra o dono.

 

Também é comum as pessoas terem fascínio por animais que são mal afamados como: aracnídeos, répteis e aves rapineiras, mas muito poucas detêm informação suficiente para mantê-los cativos. Mais raro ainda são os cidadãos que os adquirem de criadouros legalizados e os compram de traficantes até por serem muito mais baratos.

 

Saiba que estes animais não sobrevivem em contato com o homem, aliás, eles nos evitam o quanto podem. Então você pode estar colocando em risco sua vida, a vida de outros familiares e a vida de um ser que deveria estar livre em seu habitat; ele pode morrer estressado, passar alguma doença grave ou agredi-lo de forma severa fisicamente.

 

Ah, e evite dar um bichinho de presente a alguém: ela pode não estar preparada para cuidar de um, pode não gostar do convívio com animais dentro de casa, pode ter elogiado o seu “neném” por educação. Lembre-se que se você adquirir um casal, eles poderão se reproduzir e depois, o que fazer com as crias? A tarefa de vender para obter-se lucro ou de doar um animal é bem difícil.

 

Então seja consciente. Não seja responsável pelo abandono, maus-tratos e/ou morte de outrem, seja ele um cão ou um gato, de raça ou não, e independente da espécie escolhida, doméstica ou exótica. Também não compre animais advindos do tráfico. Não seja criminoso. Respeite a vida.

 

Para quem tem pet: trate seu amigo como gostaria de ser tratado.

Paulo Renato Coelho Netto/Livro Mato Grosso do Sul

Os primeiros animais domesticados foram os bovídeos

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Sandra Sakamoto é publicitária de formação pela FIAM/FMU, redatora por vocação e bióloga de coração, profissão na qual se dedica atualmente. Autodidata, estagiou no Museu de Zoologia da USP no setor de Entomologia e frequentou cursos de extensão universitária nesta mesma Instituição no segmento de invertebrados. Participa periodicamente de cursos e palestras em Biológicas, Saúde e Educação para upgrade curricular. É coordenadora do Projeto Herpetus junto com o biólogo Thiago Angeli, sendo responsável pela parte de comunicação, divulgação e conteúdo deste trabalho. Tem escrito e revisado uma série de textos destinados ao setor de Zoo, Eco e Biodiversidade, além de ministrar aulas para um público amplo e diversificado.

Thiago Angeli é biólogo graduado pela UNIESP. Autodidata, possui know-how no manejo e na recuperação de diversas espécies de animais silvestres cativos. Estagiou e fez curso de extensão universitária em Biodiversidade pelo Instituto Butantan (SP), além de ter trabalhado em Mantenedouros de Fauna; no Projeto Macuco do Parque Estância Alto da Serra; em lojas especializadas em animais exóticos. Desenvolveu um trabalho de pesquisa sobre a anurofauna do Parque Estância Santa Luzia, localizada em Mauá (SP). Atualmente é coordenador do Projeto Herpetus junto com Sandra Sakamoto e ministra diversos cursos e palestras sobre biodiversidade da fauna. Participa de eventos e exposições do segmento para upgrade curricular. Dedica-se a registrar as espécies de aves urbanas em São Paulo. Desenvolve ainda trabalhos de paleoarte, taxidermia científica e artística, além de já ter escrito diversas apostilas e banneres sobre o segmento de Zoologia. Sandra e Thiago assinam a Coluna Biodiversidade no Portal Top Vitrine desde janeiro de 2016

proj.herpetus@gmail.com

projetoherpetus.wordpress.com

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