Campo Grande-MS 26.04.2017

Eliane Oliveira

Na Itália com Eliane Oliveira

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Sabado, 27.02.2016 às 08:00

Buon viaggio Umberto Eco!

Os italianos despediram-se do grande escritor com um funeral laico

Eliane Oliveira

Para o Portal Top Vitrine

Umberto Eco foi embora. Partiu, aos 84 anos, da sua casa, no coração de Milão. Janelas de frente para o Castello Sforzesco. O que o levou foi um câncer no pâncreas. Umberto Eco morreu dia 19 de fevereiro, mas deixou a sua última obra pronta para publicação.

 

Neste sábado chega, antecipadamente, às livrarias o seu último livro: “Pape Satan Aleppe”, uma obra sobre temas atuais. O título é um verso escrito por Dante Allighieri no início do Canto VII sobre o Inferno, na obra “A Divina Comédia”.

 

O significado das três palavras é, ainda hoje, um mistério. Para alguns estudiosos trata-se de um grito de maravilha, de dor, de invocação à Satanás, de ira e de ameaças. Para outros é, meramente, uma expressão inventada. Nos resta esperar e ler para, quem sabe, poder tirar uma conclusão.

 

A fama de Umberto Eco é ligada, particularmente, ao romance “O nome da Rosa”, publicado em 1980. Foi o debuto literário com o qual conquistou sucesso mundial. O apogeu veio, mesmo, em 1988, com “O Pêndulo de Focault”, mas para a cultura italiana, as coisas mais importantes Eco as fez antes do sucesso com os romances.

 

Nos anos 60, através de livros como ‘La struttura assente’ e il famoso ‘Diario Minimo’, levantou uma discussão sobre a realidade da Itália através da semiologia. Umberto Eco analisava com estes instrumentos qualquer produto cultural, do design de automóveis e grandes obras da literatura às histórias em quadrinhos. Deu uma nova chave de leitura do seu País. Mesmo sendo um homem de esquerda e anti-capitalista, olhava os méritos e os defeitos da sua Terra com amor. Porque para um semiólogo as coisas que os homens fazem devem ser analizadas e não julgadas. Uma avaliação como “isto é bom" ou  “isto é ruim” extrapola os limites da semiologia.

 

Críticos e intelectuais são unânimes ao afirmar que a grande herança de Umberto Eco é ter intuído, com 40 anos de antecedência, que a mídia teria abolido todas as diferenças tradicionais de valor. De fato, nos dias de hoje uma competição de chefes de cozinha na TV pode influenciar a fantasia e a vida das pessoas tanto quanto ouvir Mozart ou uma música do Festival de San Remo. E disto Eco já havia falado.

 

A obra e o pensamento de Eco foram uma revolução. Era um homem que cultivava particular interesse pela realidade e a analisava pelo que era, sem exprimir um julgamento. Com uma ironia culta. O seu método de leitura foi usado em outras ciências e este instrumento de análise foi, é, e sempre será o seu grande ensinamento.

 

Os italianos despediram-se do grande escritor, pensador, filósofo e semiólogo com um funeral laico, como foi o desejo de Umberto Eco. Coerente como a sua vida: profundamente laica. “Buon viaggio Umberto Eco!”

Reprodução/Capa

Livro chega este sábado às livrarias

Reprodução

Filme foi sucesso mundial, assim como os livros do escritor

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Eliane Oliveira

É jornalista formada pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). É autora do livro “Português do Brasil", o primeiro curso de português específico para italianos (Editora Hoepli/2014). No Brasil passou boa parte do tempo dentro de uma redação ou de um estúdio de TV. Foi repórter, editora, editora-chefe, apresentadora de telejornal, roteirista e editora de texto de documentários e informes publicitários. A cada dois anos parava tudo pra dedicar-se à comunicação nas campanhas políticas. Sempre dentro de uma redação ou de um estúdio. Criou, em sociedade, a Midianova Assessoria em Comunicação, desenvolvendo projetos de assessoria de imprensa em vários setores. Em novembro de 2000, depois de dois anos de vai e vem, mudou-se para Milão, na Itália, de mala, cuia e CDs. Tudo por amor. Mora em Milão e hoje a quem pergunta define-se assim: brasileira de nascimento, italiana por escolha, jornalista de profissão, tradutora e professora de português por paixão. Criou um programa e um método de ensino de português específico para italianos. Desde que vive na Itália ministra cursos de formação de português como língua estrangeira e trabalha como tradutora. Ainda que fora das redações e dos estúdios, continua escrevendo para manter o idioma aceso na mente e por vício. Eliane Oliveira escreve artigos para o Portal Top Vitrine desde junho de 2013.

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