Campo Grande-MS 26.04.2017

Cinema, Diversão & Arte

Mario Masetti

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Sabado, 19.03.2016 às 10:30

Atores – Manias, métodos e segredos

Quanto mais carruagens, mais merda e, portanto, mais público

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Sempre vi, com muita curiosidade, trejeitos, manias, superstições e métodos de trabalho que os atores demonstram em seus cotidianos. A primeira imagem que vi, em meu primeiro dia de trabalho, nos idos de 1967, no Teatro de Arena de São Paulo, foi a do ator Renato Consorte deitado no chão do minúsculo palco daquele teatro, olhando para os refletores fixados no gradil do teto e murmurando palavras incompreensíveis. A sala estava escura e me fiz anunciar com pequenas tossidas, que não foram sequer ouvidas por Renato. Sentei na primeira fileira de assentos perto da porta e fiquei admirando aquela cena para mim sem sentido. Durou uns trinta, quarenta minutos a cantilena, até que Renato me pressentiu no ambiente, levantou a cabeça e, tentando enxergar através da escuridão, perguntou quem estava ali. Ele tinha acabado de realizar o seu ritual de concentração para fazer o espetáculo da noite.

 

Em minha trajetória no teatro, e lá se vão quase cinquenta anos, me confrontei novamente com várias situações parecidas e aprendi a respeitar esses momentos, que revelam concentração, dedicação à profissão e vontade de acertar durante as funções. Desde pequenos gestos, como acender incensos nos camarins do teatro, passando por rápidas orações segundos antes de entrar em cena, ou ainda manifestações conjuntas de elencos que, em roda antes que seja aberta a cortina, pedem proteção e ao mesmo tempo invocam a importância do coletivo na arte de representar:

 

Puxador - Eu seguro minha mão na sua

 

Todos - Eu seguro minha mão na sua

 

Puxador – Você segura sua mão na minha

 

Todos – Você segura sua mão na minha

 

Puxador - Para que juntos possamos fazer

 

Todos – Para que juntos possamos fazer

 

Puxador - Tudo aquilo que eu não posso fazer sozinho.

 

Todos - Tudo aquilo que eu não posso fazer sozinho.

 

Há atores, que seguram nas mãos objetos secretíssimos e absolutamente pessoais e que são guardados em seus figurinos, momentos antes da entrada em cena. Outros, caminham pelo palco procurando pregos ou parafusos escondidos nas fendas do palco, que também são guardados em contato com seus corpos, amuletos que asseguram que os deuses do teatro estarão presentes àquela sessão, garantindo paz, harmonia e proteção .

 

Ainda no campo das superstições, estas mais consagradas mundialmente, atores não pronunciam o nome de Macbeth no interior de um teatro. Em vez disso, eles se referem à “peça escocesa” ou ainda à “inominável”, e o rei assassino é chamado simplesmente de “M.” Se essa regra for quebrada por alguém, a pessoa deve rodear três vezes o prédio do teatro e enquanto corre, cuspir. Depois bater três vezes na porta e só poderá entrar depois que os seus colegas autorizarem. Essa proibição, diz a lenda, existe pelo fato do teatro Globe ter sido incendiado durante uma encenação de Macbeth.

 

O povo do teatro diz “merda” a um ator para desejar boa sorte. É porque antigamente os frequentadores mais ricos iam para o teatro em carruagens e a quantidade de cocôs dos cavalos na frente da sala de espetáculos indicava que a peça era um sucesso. Quanto mais carruagens, mais “merda” e portanto, mais público.

 

Não se fala a palavra “corda” dentro de um teatro. Essa proibição vem dos carpinteiros e maquinistas teatrais que adotaram a prática dos marinheiros dos navios que falavam dos cabos, com seus nomes específicos “escota” “adriça”, etc. “Corda” era um instrumento de suplício e morte para quem era punido.

 

Saindo um pouco do campo das superstições místicas, lembro-me de atores que já vestidos para a função, um pouco antes do início do espetáculo, percorrem o palco refazendo suas marcações, do começo ao final da peça. Outros ainda, inspecionam a posição dos objetos que serão utilizados em cena. Isso sem contar os sons que se misturam nos bastidores de profissionais preocupados em “limpar” suas vozes, através de Miniminiminis, solfejos e discretas tossidas.

 

O grande ator Abraão Farc chegava ao teatro muitas horas antes do espetáculo e freneticamente passava à ferro quente as inúmeras camisetas que utilizava por sessão. Um dia, não aguentando mais a curiosidade que me incomodava, não resisti e perguntei o que poderia significar aquele estranho ritual. Desmistificando tudo, Abraão respondeu tranquilo: “Eu transpiro muito durante a peça. Então, sempre que da tempo, eu troco minha camiseta para não transpirar no figurino. Afinal a roupa de cena só é lavada uma vez por semana”. Realmente as camisetas saiam do palco pingando suor.

 

Tem também uma história exemplar, ocorrida no Berliner Ensemble, teatro que era dirigido por Bertolt Brecht em Berlim. Já na reta final de uma estreia, um assistente do grande teatrólogo levou alguns figurantes à sua presença para que recebessem informações sobre suas participações no espetáculo. Brecht lhes disse que seriam transeuntes de uma rua, num momento que precedia uma explosão de uma bomba na cidade. Dito isso, solicitou que se dirigissem para a sala de figurinos e escolhessem suas roupas. Todos voltaram para o palco rapidamente, menos um figurante, que demorou, muito, a ponto de o próprio Brecht, já impaciente, ir até a sala dos figurinos, reclamar da demora do figurante em retornar ao palco. Lá, se deparou com a seguinte cena: nosso personagem na frente de um espelho, cercado de chapéus, experimentava calmamente e com muito critério chapéu por chapéu. Brecht, não aguentando aquela “frescura” foi ríspido e perguntou o que ele estaria fazendo com tantos chapéus em sua volta, experimentando um por um.

 

Que fosse rápido, pois estavam apenas esperando ele para que o ensaio se inciasse. No que o figurante, muito seguro respondeu: “Herr Brecht, trata-se de uma cena de multidão correndo assustada. Meu rosto pouco importa, não será visto. É o chapéu que se destacará. Portanto não poderá ser qualquer chapéu. Estou aqui, escolhendo “o“ chapéu. Naquele dia, o figurante, por sua atitude meticulosa e metódica, foi apontado como exemplo para todo o elenco do espetáculo.

 

São histórias como estas que dignificam a profissão do artista. Pessoas que, através de pequenos gestos, dão importância maior às suas atividades, demonstrando concentração, profissionalismo e vontade de acertar. Aproveitar este espaço do portal Top Vitrine para homenagear esta categoria de trabalhadores muito me envaidece, pois são os artistas que, com suas manias, superstições e métodos, apontam caminhos através dos tempos e fazem da  arte de representar uma arma poderosa de transformação da sociedade.

Reprodução/Internet

Bertolt Brecht

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Cinema, Diversão & Arte

Com atuação reconhecida em cinema, televisão, teatro e propaganda, Mario Masetti iniciou sua carreira em 1967 como assistente de direção de Augusto Boal, no Teatro de Arena de São Paulo (SP). Estreou como diretor teatral em 1975 com "Porandubas Populares", ganhando o prêmio APCA como Diretor Revelação. Além de sua atuação como realizador teatral, Masetti tem trabalhado como produtor e diretor assistente em mais de vinte filmes de longa metragem com os mais importantes realizadores do cinema brasileiro, entre eles Maurice Capovilla (O Jogo da Vida), Leon Hirszman (Eles Não Usam Black Tie), João Batista Andrade (A Próxima Vítima, País dos Tenentes), Ugo Giorgetti (Boleiros, O Príncipe, Boleiros 2, Uma Noite em Sampa e A Cidade Imaginária). Masetti integrou a equipe de diretores da produtora Blimp Film, tendo realizado vários documentários para o programa Globo Repórter. Realizou ainda os programas de Televisão "Os Brasileiros e a Música" Série: Os Brasileiros - TV Manchete, "Os Brasileiros e a Saudade" Série: Os Brasileiros - TV Manchete, "PCN na Escola - Português" Série de 18 programas para a TV Escola – MEC - "Mão na Forma" - Série de seis programas sobre Geometria para a TV Escola – MEC – "Telecurso-Tec", Série de 140 programas de teleeducação para a Fundação Roberto Marinho. Série "Ofício de Professor na TV", TV Cultura/Fundação Vitor Civita. "Telecurso 2000 +10" – Fundação Roberto Marinho e a série "Teatro Rá-tim-bum" para a TV Cultura de São Paulo. Para a mesma emissora, dirigiu os programas "Cambalhota, Profissão Professor" e "Almanaque Educação". Dirigiu em 2010, para a TV Brasil, a série "Almanaque Brasil" e para a mesma emissora a série "Resistir é Preciso", em coprodução com o Instituto Vladimir Herzog. Atualmente, é diretor dos programas do "Canal Educar", da Abril Educação. Foi, nos anos 80, um dos sócios da Tatu Filmes, empresa importante para o desenvolvimento do cinema em São Paulo, que produziu vários filmes, destacando-se "Janete", "A Marvada Carne", "A História de Vera" e "Feliz Ano Velho". Ocupou vários cargos públicos, como o de Diretor do Centro Cultural São Paulo, Conselheiro da Cinemateca Brasileira, professor de interpretação na Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo (USP), professor na Escuela Internacional de Cine y TV (Cuba), professor da disciplina Direção Cinematográfica no curso de Audiovisual na Escola de Comunicações e Artes da USP, Membro da Comissão Estadual de Cinema, diretor artístico da APAA – Associação Paulista dos Amigos da Arte, Organização Social ligada à Secretaria de Estado da Cultura - São Paulo. Em 2013 escreveu e publicou pela Sá Editora o romance Por Amor. Paralelamente à sua atividade cultural, é diretor de filmes publicitários desde os anos 70, tendo realizado uma infinidade de filmes para as principais agências do País. Mario Masetti é articulista do Portal Top Vitrine desde fevereiro de 2016.

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