Campo Grande-MS 26.04.2017

Eliane Oliveira

Na Itália com Eliane Oliveira

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Segunda-Feira, 25.04.2016 às 07:15

Aos olhos da Itália, os escândalos e a crise brasileira

Uma crise de igual proporção os italianos viveram nos anos 90

Eliane Oliveira

Para o Portal Top Vitrine

Não é lá todo dia, mas ultimamente não há uma semana em que os jornais italianos não falem da grave crise brasileira e dos escândalos. Citam uma corrupção em constante aumento, falam como o escândalo Petrobrás não serviu de lição para a classe dirigente. Explicam, claramente, o mensalão, o caso Pasadena, e quantificam o dinheiro desviado dos cofres públicos em propinas. Contam os fatos de um jeito que quem não sabia de nada pode bem entender. Quem sabe, e acompanha, vê crescer a indignação dentro de si. A última matéria, publicada no Jornal “Il fatto quotidiano”, fala que o governo brasileiro, nos fatos, continua negando a retórica das suas declarações, e que a imprensa minimiza toda a questão.

 

Um escândalo e uma crise de igual proporção os italianos viveram nos anos 90. Foi designado como “Mani Pulite”, Mãos Limpas. O termo indica uma série de processos judiciários caracterizados por uma, também, série de investigações em toda a Itália, envolvendo políticos, instituições e setores da economia. Tudo trouxe à luz um grande sistema de corrupção, extorsão e financiamento ilícito aos partidos nos mais altos níveis do mundo político e financeiro do País.

 

As investigações, conduzidas por um grupo de magistrados da Procuradoria da República de Milão, estenderam-se por todo o território italiano. Deram vida a um suceder-se de protestos, suscitaram a opinião pública criando bases para uma revolução na política italiana. Alguns partidos históricos, como a Democrazia Cristiana, o Partito Socialista italiano, PSDI – Partito Socilaista Democratico Italiano foram aniquilados depois do processo “Mani Pulite.” Da série: eliminar tudo para recomeçar.

 

"Mani Pulite é a história de uma revolução e como todas as revoluções produz vítimas. O processo durou menos de três anos. De 17 de fevereiro de 1992 a dezembro de 1994. Neste período foram dezenas de suicídios"

 

O balanço final, atualizado pela Procuradoria de Milão até 2002, dá conta de 1.233 condenas por corrupção, extorsão, financiamentos ilícitos dos partidos, fraudes contábeis e falsos balanços empresariais. É preciso acrescentar, ainda, outros 448 sentenças, que não são nem condenações nem absolvições. São réus que não puderam ser punidos por anistia, morte e, na maioria dos casos, 423, por prescrição.

 

Mani Pulite é a história de uma revolução e como todas as revoluções produz vítimas. O processo durou menos de três anos. De 17 de fevereiro de 1992 a dezembro de 1994. Neste período foram dezenas de suicídios. E aconteceram não como consequência da detenção e da vida em cárcere. Quase todos os envolvidos tiraram a própria vida já fora da cadeia. Alguns depois de serem absolvidos. De 1992 a 1994, biênio de grande investigação do sistema tangentopoli (nome dado ao esquema de propina), 32 pessoas suicidaram-se. O clima da opinião pública era insuportável para quem carregasse com si a marca da investigação judiciária.

 

Hoje, a política italiana não é nem um exemplo de honestidade e transparência, mas a crise dos anos 90 serviu de lição. Na medida em que se descobre esquemas de corrupção se interfere imediatamente. Algumas vezes com resultados positivo, outras não. Aqui, também, algumas coisas acabam em pizza. Com uma diferença: há mais cuidado e empenho em sanar o problema.

 

Como aconteceu depois de Tangentopoli e Mani Pulite, o que ficou e que vai ficar para o Brasil, se tudo não acabar em pizza, é um custo e uma conta enorme. Um débito difícil de ser saldado. Em 1992, o economista italiano, Mario Deaglio, calculou a queda econômica do Estado causada pelo esquema de propinas e, em definitivo, o prejuízo no bolso dos italianos. Calculou-se que o aumento dos valores das licitações para se obter as propinas repercutiu diretamente nos custos que o Estado teve que arcar na administração da coisa pública. Em tantos projetos o valor das obras públicas era duas, três, quatro e mais vezes maior do que obras públicas análogas realizadas em outros países europeus. É, no mínimo, assustador.

 

No final das contas o economista calculou o prejuízo de 100 trilhões de liras por ano para os italianos. Um débito público entre 150 e 250 trilhões de liras. Entre 15 e 25 trilhões de juros anuais provenientes deste débito. Não é um acaso que 1992 foi um ano dramático para as contas do Estado. A relação entre débito público e PIB superou 105%. Para entrar na Europa a Itália deveria estar abaixo de 60%. O País estava a beira de uma falência como aconteceu com a Argentina.

 

A Moodys, agência de classificação de riscos de crédito, atribuiu à Itália o nível Aa2, ou seja: um risco de crédito muito baixo. Em palavras simples: uma país pouco confiável para negócios. Para tentar pôr um fim a falência, o governo Amato foi forçado a lançar, no outono daquele ano, uma lei orçamental pesada para a época: 92 trilhões de impostos e mais um saque forçado de seis por mil de todas as contas correntes dos italianos. Foi considerada a verdadeira nota fiscal do esquema de propinas e extorsão. Uma conta que todo mundo pagou. Sem escolha.

 

Foram, sim, anos de crise, de prisões uma atrás da outra, de dificuldades econômicas e de descrença nos partidos. Foram, também, anos de grandes esperanças e expectativas de que pudesse nascer, ali, uma Itália melhor. Esperanças que, ao longo dos anos, revelaram-se ilusões. A Itália mudou sim. Não com se esperava e sonhava. A distância de duas décadas, segundo uma pesquisa, realizada este ano, ainda há muito para melhorar. Pelos dados do estudo, para 51% dos italianos a corrupção percebida hoje é maior em relação aos tempos de Tangentopoli. Talvez porque hoje venha à tona mais facilmente.

 

Na opinião de Pier Camillo Davigo, um dos magistrados que participou do processo Mani Pulite, a corrupção na Itália ainda não está sob controle. Isto porque a intervenção judiciária, por si só, não basta.É um fenômeno serial, difundido que dá lugar a sistemas criminais e por isto não deve ser enfrentado como fato e episódios isolados. Além do mais, a burocracia e a falta de transparência nos processos de licitação só facilitam os desvios. De conduta e de dinheiro.

 

Eu quero acreditar que a esperança esteja na nova geração. Nos meus filhos que hoje frequentam a escola primária e a escola da infância. Ou nos filhos  e netos deles. É preciso começar a pensar que corrupção não é só o que acontece nos governos, longe da casa de cada um. Lá nas altas esferas. A corrupção está no jeito de pensar do povo, nas pequenas coisas do dia a dia que vistas como normais simplesmente porque todo mundo faz assim. É hora que todos parem de fazer assim. O percurso é longo. Longuíssimo. Não é tempo de esmorecer. Não é tempo de deixar para depois.

Reprodução

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Eliane Oliveira

É jornalista formada pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). É autora do livro “Português do Brasil", o primeiro curso de português específico para italianos (Editora Hoepli/2014). No Brasil passou boa parte do tempo dentro de uma redação ou de um estúdio de TV. Foi repórter, editora, editora-chefe, apresentadora de telejornal, roteirista e editora de texto de documentários e informes publicitários. A cada dois anos parava tudo pra dedicar-se à comunicação nas campanhas políticas. Sempre dentro de uma redação ou de um estúdio. Criou, em sociedade, a Midianova Assessoria em Comunicação, desenvolvendo projetos de assessoria de imprensa em vários setores. Em novembro de 2000, depois de dois anos de vai e vem, mudou-se para Milão, na Itália, de mala, cuia e CDs. Tudo por amor. Mora em Milão e hoje a quem pergunta define-se assim: brasileira de nascimento, italiana por escolha, jornalista de profissão, tradutora e professora de português por paixão. Criou um programa e um método de ensino de português específico para italianos. Desde que vive na Itália ministra cursos de formação de português como língua estrangeira e trabalha como tradutora. Ainda que fora das redações e dos estúdios, continua escrevendo para manter o idioma aceso na mente e por vício. Eliane Oliveira escreve artigos para o Portal Top Vitrine desde junho de 2013.

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