Campo Grande-MS 26.04.2017

A vida sem crachá

Claudia Giudice

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Domingo, 03.04.2016 às 09:00

Ali vai alguém que não deve nada a ninguém

Quantas escolhas erradas eu fiz? Quantas horas de sono eu perdi?

A vida sem crachá

Para o Portal Top Vitrine

Outro dia vi uma propaganda de produtos cosméticos que discutia questões de gênero. Não lembro a marca. Não lembro o produto. A mensagem me devolveu à infância. Uma voz adulta dizia: “você não pode sentar de perna aberta”. Outra voz bronqueava: “está toda desarrumada. Parece um menino.” Uma terceira fala, agora em coro, bradava acompanhada de diferentes predicados: “o que vão pensar de você…vestida assim desse jeito, …falando desse jeito, …agindo desse jeito.”

 

O efeito dessas vozes, repetidas insistentemente durante a infância e adolescência pelas avós, tias, mãe e amigas das mãe, tias e avós, sobrevive no meu corpo e na minha alma. Por mais que goste, não consigo sentar de perna aberta. Estou sempre com elas cruzadas, até mesmo agora, enquanto escrevo sentada à mesa. Sobre a desarrumação, a fala teve efeito reverso de trauma-maldição. Me tornei uma adulta desarrumada e bagunceira ao extremo. Até eu mesma me canso da minha zorra, às vezes.

 

A terceira ladainha, poderosa como um mantra do capeta, é o motivo deste texto. O que vão pensar de mim? Por causa dessa dúvida, preocupação estúpida, pessoal e intransferível, vivi a maior parte dos meus 50 anos pensando nos outros – ou melhor, naquilo que eventualmente os outros poderiam pensar sobre a minha insignificante pessoa. Será que alguém pensava? Será que alguém falava? Não sei. Bastou a ameaça. Bastou a potencialidade de um mau julgamento para eu me comportar, agir, escolher segundo os bons modos do senso comum.

 

Por causa do que poderiam pensar sobre mim, quantos momentos de prazer eu perdi? Quantas escolhas erradas eu fiz? Quantos projetos equivocados abracei? Quantas horas de sono eu perdi? Quantos burradas cometi? Não sei dizer quantas, mas sei que foram muitas, inúmeras, incontáveis. Por que me submeti ao julgo alheio? Por que cedi à pressão do sequestro do olhar alheio? Vaidade, medo, vontade de criar um legado. A essa altura, bobagem fazer novos julgamentos. O feito está. E legado, definitivamente, é algo que não se preza em tempos de snapchat.

 

O fio da meada dessa reflexão foi puxado nesta semana. Estava andando pela rua e um amigo me viu. Buzinou. Gritou. Nada. Não conseguiu atrair minha atenção. Daí me escreveu: “chamou-me atenção seu ritmo: leve, fluido, sem pressa. Cabelos ao vento e perfil ereto. Pensei…tá de bem com a vida. Como dizia o Walter Franco: espinha ereta, a mente aberta e o coração.” Sim, estou de bem com a vida. Mas, o que faz mesmo a diferença é saber que nada faz diferença. Que digam, que pensem e que falem. Só posso dizer que, felizmente, não devo nada para ninguém.

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Cláudia Giudice

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A vida sem crachá

Sou jornalista há 30 anos e empresária desde 2012. Fui executiva por nove anos. Desde agosto de 2014, vivo sem crachá após 23 anos de trabalho em uma grande editora. Decidi seguir carreira solo como escritora. Em agosto de 2015 lancei o livro "A Vida Sem Crachá" pela editora Ediouro. Hoje trabalho na própria empresa - pousada A Capela, que fica na praia do Pirui, perto vilarejo de Arembepe, na Bahia - e escrevo histórias sobre carreira, empreendedorismo, trabalho e gente no blog Claudia Giudice em A vida Sem Crachá. Claudia é articulista no Portal Top Vitrine desde fevereiro de 2016.

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